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Transcrição do artigo “Nunca se roubou tão pouco”, de Ricardo Semler, publicado na Folha de São Paulo

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São poucas as vezes em que nós do Blog Perspectiva Crítica reproduzimos integralmente um artigo publicado em outra Mídia. Creio que somente ocorreu duas vezes: a Carta Aberta a FHC, escrita por Theotonio dos Santos, e outra, em relação ao Editorial da Folha avaliando o Governo Lula e concluindo pelo “balanço positivo”. E agora, novamente a Folha, contribuinte de uma mídia informativa e de qualidade, merece ter um artigo integralmente transcrito para acesso de nossos leitores.

Ricardo Semler, psdbista de carteirinha, como ele mesmo enuncia sobre si, admite que o roubo no Brasil diminuiu de 5% do PIB para algo em torno de 0,8% do PIB. Não me pergunte como chegou nesses números, mas o alegado roubo de 5% bate com uma informação de Elio Gaspari sobre a perda da área privada com corrupção no Brasil calculada pela KPMG, segundo Elio enunciou há uns três anos. Também publicamos sobre este artigo do Elio Gaspari.

Ricardo, empresário e escritor, chama a atenção para a hipocrisia da reação da sociedade neste momento, como se ninguém soubesse que há corrupção em grande parte dos negócios da área privada e sempre via Departamento de Compras. É lógico que ver isso é chocante. Mas assim como, em suas palavras, culpam-se nordestinos pela eleição da Dilma, o que é ridículo, agora a sociedade escandaliza-se com o ataque à corrupção e a amostra de que ela realmente existe.

O articulista Ricardo nos chama a ver que as recentes imagens e informação sobre desbaratamento de grupos de corruptos e corruptores em diversas frentes, mas em especial no caso do Petrolão que agora tornou o tema super evidente, são a prova de que o Brasil anda para frente e não é motivo para desolação, a qual remete a uma hipocrisia social.

Nós do Perspectiva Crítica  concordamos integralmente com as linhas que a seguir vocês lerão, escritas por Ricardo Semler, copiado do site de Theotonio dos Santos, o qual copiou originariamente da Folha de São Paulo.

Transcrição:

NUNCA SE ROUBOU TÃO POUCO

“Não sendo petista, e sim tucano, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país”

Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito.

Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso. Nem qualquer um dos 86 mil honrados funcionários que nada ganham com a bandalheira da cúpula.

Os porcentuais caíram, foi só isso que mudou. Até em Paris sabia-se dos “cochons des dix pour cent”, os porquinhos que cobravam 10% por fora sobre a totalidade de importação de barris de petróleo em décadas passadas.

Agora tem gente fazendo passeata pela volta dos militares ao poder e uma elite escandalizada com os desvios na Petrobras. Santa hipocrisia. Onde estavam os envergonhados do país nas décadas em que houve evasão de R$ 1 trilhão –cem vezes mais do que o caso Petrobras– pelos empresários?

Virou moda fugir disso tudo para Miami, mas é justamente a turma de Miami que compra lá com dinheiro sonegado daqui. Que fingimento é esse?

Vejo as pessoas vociferarem contra os nordestinos que garantiram a vitória da presidente Dilma Rousseff. Garantir renda para quem sempre foi preterido no desenvolvimento deveria ser motivo de princípio e de orgulho para um bom brasileiro. Tanto faz o partido.

Não sendo petista, e sim tucano, com ficha orgulhosamente assinada por Franco Montoro, Mário Covas, José Serra e FHC, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país.

É ingênuo quem acha que poderia ter acontecido com qualquer presidente. Com bandalheiras vastamente maiores, nunca a Polícia Federal teria tido autonomia para prender corruptos cujos tentáculos levam ao próprio governo.

Votei pelo fim de um longo ciclo do PT, porque Dilma e o partido dela enfiaram os pés pelas mãos em termos de postura, aceite do sistema corrupto e políticas econômicas.

Mas Dilma agora lidera a todos nós, e preside o país num momento de muito orgulho e esperança. Deixemos de ser hipócritas e reconheçamos que estamos a andar à frente, e velozmente, neste quesito.

A coisa não para na Petrobras. Há dezenas de outras estatais com esqueletos parecidos no armário. É raro ganhar uma concessão ou construir uma estrada sem os tentáculos sórdidos das empresas bandidas.

O que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais sem antes dar propina para o diretor de compras.

É lógico que a defesa desses executivos presos vão entrar novamente com habeas corpus, vários deles serão soltos, mas o susto e o passo à frente está dado. Daqui não se volta atrás como país.

A turma global que monitora a corrupção estima que 0,8% do PIB brasileiro é roubado. Esse número já foi de 3,1%, e estimam ter sido na casa de 5% há poucas décadas. O roubo está caindo, mas como a represa da Cantareira, em São Paulo, está a desnudar o volume barrento.

Boa parte sempre foi gasta com os partidos que se alugam por dinheiro vivo, e votos que são comprados no Congresso há décadas. E são os grandes partidos que os brasileiros reconduzem desde sempre.

Cada um de nós tem um dedão na lama. Afinal, quem de nós não aceitou um pagamento sem recibo para médico, deu uma cervejinha para um guarda ou passou escritura de casa por um valor menor?

Deixemos de cinismo. O antídoto contra esse veneno sistêmico é homeopático. Deixemos instalar o processo de cura, que é do país, e não de um partido.

O lodo desse veneno pode ser diluído, sim, com muita determinação e serenidade, e sem arroubos de vergonha ou repugnância cínicas. Não sejamos o volume morto, não permitamos que o barro triunfe novamente. Ninguém precisa ser alertado, cada de nós sabe o que precisa fazer em vez de resmungar.

RICARDO SEMLER, 55, empresário, é sócio da Semco Partners. Foi professor visitante da Harvard Law School e professor de MBA no MIT – Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA)

Texto publicado originalmente no site da Folha e pode ser acessado através desse link:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/196552-nunca-se-roubou-tao-pouco.shtml

Texto transcrito pelo Blog Perspectiva Crítica integralmente de e acessível também em http://theotoniodossantos.blogspot.com.br/2014/11/nunca-se-roubou-tao-pouco.html

Fantástico. A verdade é irretorquível!! Ricardo Semler comprova ser um grande brasileiro ao escrever esse artigo. A Folha de São Paulo comprova ser uma grande mídia impressa a serviço do País. O site de Theotonio dos Santos se confirma como excelente contribuinte para a circulação de bons textos de cunho econômico, político e social para o bem do Brasil. E nós nada mais fizemos do que dentro de nossa limitada capacidade de contribuição ajudar na circulação desse tipo de informação para que a sociedade possa trocar idéias em alto nível, longe da baixaria de fanáticos de esquerda, de direita e principalmente longe da publicação parcial e desinformativa da grande mídia em geral.

Esperamos que o exemplo de Ricardo Semler e da Folha de São Paulo seja observado, reconhecido e imitado por cidadãos de bem, de qualquer tinta ideológica ou partidária, e por todas as mídias, grandes ou pequenas, com o uníssono e bem vindouro interesse na verdade informativa e no bem dos cidadãos brasileiros, de nossa sociedade e de nosso País.

Palmas do Perspectiva Crítica a Ricardo Semler e à Folha de São Paulo.

Um grande abraço a você, leitor.

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