Início Colunas Crônica de um Brasil que não tem sido ou “Algum desses Aventureiros”

Crônica de um Brasil que não tem sido ou “Algum desses Aventureiros”

555
5

Ângelo de Almeida foi um dos maiores militares da nossa história. Nascido em 1747, filho de Mahommah de Almeida, o famoso Barão da Gamboa, primeiro Barão Preto de nossa história, intitulado postumamente na era imperial, ex-escravo e comerciante que, infelizmente, assumiu os negócios escravistas do patrão após a morte deste. Ângelo foi estudar em Portugal na Escola de Sagres para ingressar na Marinha Portuguesa, aos dezesseis anos, tendo ainda participado do processo de criação da Academia Real de Guardas-Marinha, em Portugal. O destino quis que retornasse às terras brasileiras em 1792, após a Inconfidência Mineira, onde veio a se tornar Dom Ângelo, depois Dilenga Ângelo, primeiro imperador da História do Brasil.

Seus estudos colegiais em Portugal foram baseados em uma formação militar, científica e humanística. Aprendeu francês, inglês e latim; estudou Astronomia, Filosofia, Literatura, Matemática, História e até Direito, inclusive ganhou fama na época por ter sido a primeira pessoa a citar e a divulgar em Portugal o pensamento do francês Montesquieu. Embora reconheça a importância de seu aprendizado nesta época, considerou seus estudos posteriores no Brasil e na África muito mais importantes, por terem formado seu ideário anticolonialista. Uma de suas primeiras medidas como imperador foi tornar o Brasil trilíngue, sendo oficiais no país o português, o quimbundo e o tupinambá. Estava a serviço da Marinha Portuguesa na época da Conjuração Carioca, estudou as lutas pela independência, e quando, já Almirante, teve uma embarcação destacada para a Bahia em 1798, dedicou-se a estudar a ideologia libertária e abolicionista dos revoltosos e inclusive foi visitar na prisão em Salvador os dois soldados líderes do movimento baiano, Luís Gonzaga das Virgens e Veiga e Lucas Dantas do Amorim Torres. Aos poucos foi fundando junto com outros militares o movimento independentista no seio da caserna, o que veio a tornar o Brasil independente em 1808.

O ano foi marcado pela vinda da família real portuguesa ao Brasil fugida das guerras e invasões napoleônicas. O na época Almirante Ângelo liderou o famoso bloqueio continental nas Américas, imitando o feito de Napoleão na Europa continental. Ângelo impediu a chegada da família real na Bahia e posteriormente, tendo notícia da tentativa de ir para o Rio de Janeiro, seguiu com sua frota para a cidade, onde proferiu o famoso Grito de Copacabana, em 7 de fevereiro: “Nossa independência ou nossa morte, se necessária!”. A família real portuguesa foi se refugiar na ilha de Madeira e, posteriormente, na Inglaterra, e então houve a guerra de independência entre duas facções do exército e da população e entre os servos portugueses aliados à Inglaterra e os brasileiros aliados à França. Esta guerra durou 6 anos com vitória brasileira e devastação da Europa, mas até hoje a convenção marca a data de independência como 7 de fevereiro de 1808.

Elevado a rei do Brasil em 1814, Ângelo oficializou a abolição da escravidão, que já era assumida entre suas tropas. Ele ainda promoveu a famosa “Renda Liberdade”, uma garantia básica e universal, para os jovens até o primeiro emprego e para os idosos até o fim da vida, distribuída aos recém-libertos. Isso permitiu que o Brasil se tornasse o país com a melhor distribuição de renda do mundo atualmente. Ele também promoveu uma política associada de construção e de legalização em cada cidade de escolas, bibliotecas e bancos privados e públicos e de tribunais públicos, todos com a responsabilidade social e foco na educação das crianças (no caso das escolas) e também dos adultos, através de cursos integrados de leitura, de matemática e de direito, segundo a Constituição de 1815, o que criou uma forte tradição legalista entre os brasileiros.

No mesmo ano da Constituição, Ângelo se casou com Dona ou Dilenga Isabel Carolina, que o sucedeu no trono após seu falecimento, em 1822, sem deixar herdeiros. Isabel Carolina, “a salutar”, era enfermeira do exército e fez uma forte campanha para a promoção da saúde nacional, negociando uma integração com os povos indígenas brasileiros para a produção de ervas medicinais. A Rainha também foi grande apoiadora dos esportes, tornando a Capoeira esporte nacional, o que levou à sua difusão por todo o mundo nos dias atuais. Ela nascera, assim como Ângelo, no Morro do Livramento, onde também viria a nascer, um ano antes de seu falecimento, o poeta canônico Joaquim Maria Machado, fundador da Academia Brasileira e Universal de Letras, ícone e iniciador do modernismo nacional, escrevendo poemas em verso e em prosa e peças de teatro sob diversos heterônimos, entre eles Bentinho, Brás Cubas e Carolina (conhecida como a “Bruxa do Cosme Velho”), uma possível homenagem à rainha e à sua esposa, que tinha o mesmo nome, embora as sufragistas do fim da pimeira República brasileira houvessem defendido que era a própria Carolina, esposa do poeta, quem escrevia. Seu primeiro poema acabado e publicado na adolescência é uma homenagem à rainha e mostra o domínio na forma tradicional do soneto, feito pelo heterônimo Bentinho:

VÃ FILOSOFIA (à Eterna Rainha Isabel Carolina)

Oh! flor do céu! Oh! flor cândida e pura!

Dizem que o amor é pérola sem preço.

Sei que as ideias mudam de figura,

mas não sei se te odeio ou te mereço.

Se te mereço, ó noiva das campinas,

vem ter comigo a este solar dos ventos

onde me afogo em negros pensamentos

e me entrego a volúpias clandestinas.

Lamento que estejamos separados,

talvez por um capricho do destino

ou dos deuses gerados por cavalos.

Do amor resta a memória de uma palha

crestada por um fogo repentino.

Ganha-se a vida, perde-se a batalha.

Voltando ao governo de Dona ou Dilenga Isabel Carolina, ela negociou a passagem da Monarquia ao Parlamentarismo pouco antes de falecer levando o Brasil a um período de grande desenvolvimento entre 1840 e 1902, quando foi proclamada a República e eleito como primeiro presidente José Maria da Silva Paranhos Júnior, o “Presidente Rio Branco” ou o “Presidente Diplomata”, que, através de cortes arbitrais internacionais e de tratados, em sua vida integrou ao território nacional mais de um milhão de quilômetros quadrados tendo como armas apenas a argumentação, a negociação, a pesquisa e o diálogo, sendo que venceu inclusive o difícil caso da disputa territorial na Guiana Inglesa. Mas isso é outra história.

Obs.: agradeço em primeiro lugar a Hyldalice de Andrade, minha cunhada, pela extraordinária ilustração para o texto reformulando a bandeira do país para um outro Brasil, o que foi resultado de valiosos debates em família, muitas vezes com a minha esposa e sogra. Agradeço também ao professor João Daniel Lima de Almeida por tirar dúvida de pesquisa e a Claudia Lacca, novamente a Hyldalice de Andrade, a Felipe Mello Mourão, a Rodrigo Goyena Soares, a Thiago Florencio, novamente a João Daniel Lima de Almeida, a Mário César Pacheco Dias Gonçalves e a Fábio Parada pela leitura, pelos elogios e pelas excelentes sugestões. No texto está reproduzida uma das versões do poeta Francisco Carvalho para o soneto inacabado de Bentinho publicada no livro “Olhos de ressaca”, de 1999, feito por ocasião do centenário da obra “Dom Casmurro”, de Machado de Assis (o poema aparece no site: http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/ceara/francisco_carvalho.html). Também, no fim do texto, há a reprodução de um trecho do meu livro “Que Brazil é esse?”, pg. 65, levemente alterado por razões parahistóricas.

5 COMENTÁRIOS

  1. Leio esse texto com um pouco de atraso em virtude da correria.
    Mas, que bom que o encontrei. Não deixei que as obrigações me impedissem de visitar os textos já considerados passados. E ganhei meu dia com essa leitura. Foi um prazer fazer essa leitura.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui