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O Julgamento das Máquinas

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Frequentemente ouvimos que a Inteligência Artificial, por mais desenvolvida que seja, jamais poderia produzir uma obra semelhante à de William Shakespeare. O Bardo, no entanto, está longe de ser original ou inovador, segundo noções críticas e julgamentos estéticos daquele período e atuais. Sua obra teatral consiste em pentâmetros jâmbicos, métrica extremamente tradicional, e é baseada no folclore, em personagens e em histórias que eram bastante famosas e conhecidas em sua época. Sua obra poética é basicamente construída no clássico soneto inglês, fazendo uma pequena variação do soneto italiano — forma a qual os poetas de hoje comentam bocejando. Seu pensamento está todo inspirado em autores como Michel de Montaigne e Sir Thomas North (como, curiosamente, já identificou um software para detectar plágio) e mesmo seus neologismos, considerados como sua maior invenção, muito provavelmente apenas eram a reunião dos termos da linguagem oral que era falada na região da cidade de Londres e proximidades. Suas rupturas com as unidades aristotélicas de tempo, espaço e ação e seus solecismos já foram criticados exatamente por demonstrarem recursos de escrita restritos e não a criatividade da pena shakespeariana. Mesmo o metadrama e o metateatro, notavelmente presentes em “Hamlet”, já haviam aparecido em diversas outras peças, sobretudo na dramaturgia grega e latina… Sua obra é universal e genial, mas adota um rigor de perfeição bastante maquinal seguindo as normas e, de fato, uma IA criada por pesquisadores da IBM e das universidades de Toronto e de Melbourne já chegou, em 2018, a sonetos shakespearianos bem convincentes e próximos da obra do autor — exatamente por não ser a excentricidade a marca de Shakespeare.

Não que as máquinas possam emular tudo e todos. Pensando na literatura de língua inglesa, os excêntricos também sobejam. Shakespeare não inovou em estilo, em rimas e em requintes característicos como Emily Dickinson; nem em forma e em conteúdo como Edgar Allan Poe; nem em linguagem e em narrativa como Joseph Conrad; nem em pensamento como John Donne; nem em técnica poética como Ezra Pound; nem tampouco em técnica teatral como Samuel Beckett. Embora tenha sido cada um extraordinário à sua própria maneira, esses autores talvez seriam personagens totalmente secundários nas obras de Shakespeare. Suas obras não foram universais, ao contrário, foram extremamente pessoais: já houve diversas tentativas de imitá-los e de traduzi-los… e sempre parece faltar algo de essencial (obs.: fiz minha própria tentativa de traduzir alguns desses autores, que compartilho com os interessados no fim deste artigo).

As máquinas são sempre precisas no que diz respeito ao julgamento da norma, mas ainda estão longe de alcançar a sofisticação do detalhe. É a famosa e triste história do algoritmo engendrado para julgar um concurso de beleza, que, por conter um banco de dados com maioria de mulheres brancas, acabou excluindo as outras etnias. A beleza está muitas vezes no detalhe. Como já escreveu Edgar Allan Poe: a verdade requer precisão, só que a paixão demanda familiaridade.

E isso me leva ao julgamento de Johnny Depp e Amber Heard. A direita considerou como sintoma do exagero feminista e a esquerda, mais um exemplo de machismo. Como julgar um casal tão atípico, tão ao mesmo tempo simples e complicado, tão fora da caixinha e dentro de nossas vidas pela construção padronizada dos valores hollywoodianos? É impossível, seguindo os discursos padrões. Consideraremos Johnny Depp um ator inspirador e sensível, vítima de uma mulher louca, violenta e abusiva? Ou consideraremos Amber Heard uma triste mulher jovem, talentosa e com trejeitos, que teve a vida prejudicada por um marido mais velho, alcoólatra, divorciado, com filhos, milionário e poderoso na indústria cinematográfica? As duas coisas? Ou nenhuma das duas?

Obviamente, não estou falando somente do julgamento dos tribunais, que considerou aspectos formais e materiais do caso. Estou dizendo de tomar partido, que foi o que a maioria das pessoas fez. Para isso, teríamos que descartar normas e textos jurídicos — eles também extremamente precisos, mecânicos e maquinais — e julgar com o coração por quem temos mais familiaridade. Nem os 280 caracteres nem os bots sociais do Twitter podem dar conta de um casal tão complexo. Teria de haver um desenvolvimento imaginativo para começar a reconhecer a realidade segundo o ponto de vista deles. O que ocorreu foi que, para a esmagadora maioria, Johnny Depp já ganhara pelo menos desde os admiráveis filmes “Edward Mãos de Tesoura” e “Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador”. Sua carreira é extremamente inspiradora e aproveito também para compartilhar no fim do artigo o link com a entrevista completa que esse singular ator concedeu no excelente programa Inside the Actors Studio em 2002, quando ainda era casado menos polemicamente com a atriz e cantora francesa Vanessa Paradis.

Por termos essa capacidade de fazer avaliações íntimas e pessoais, não devemos temer que nenhuma tecnologia nos substitua, mas devemos constantemente temer que qualquer uma delas nos suprima. Os algoritmos estão cada vez mais presentes, seja nas redes sociais, em seleções para vagas de empregos, em divulgações políticas, em diagnósticos médicos ou em soluções jurídicas (há, inclusive, no Direito, a ideia de criação de um “juiz robô”). Eles decidem acerca dos nos nossos gostos, das nossas buscas e de nossas escolhas. Também se manifestam, talvez sobretudo, em nosso partidarismo. O chatbot LaMDA, da Google, foi extraordinário na capacidade de reunir palavras e sentidos respondendo como um videogame às perguntas do engenheiro de software Blake Lemoine, mas nenhuma das respostas foi dada com o coração. As máquinas são preparadas com toda a frieza implacável do rigor, e não demonstram qualquer sinal de compaixão ou misericórdia. Por isso, sempre pesquise bastante, quer para consumir, quer para opinar. Sempre saiba onde e como reclamar com as empresas, com os bancos e com o governo. E sempre proteste diante de qualquer caso de exclusão dos seus direitos e também da sua personalidade. A luta por inclusão é constante.

Só como ressalva final, Shakespeare nunca poderia ser meramente comparado a uma máquina compiladora de Inteligência Artificial. Seu “Romeu e Julieta” tem muitas bases diretas e indiretas, mas nem Arthur Brooke, nem Ovídio, nem Xenofonte, nem o conto popular medieval europeu nem as histórias reais de Mariotto e Giannozza ou de Cleópatra e Marco Antônio desenvolveram uma personalidade tão distinta e icônica para o personagem Mercúcio, o melhor amigo de Romeu. As máquinas só julgam e reproduzem os elementos objetivos que conseguem identificar e mesmo os manuais de roteiro amiúde se omitem quando se trata da concepção subjetiva de um personagem marcante. “Se amor é cego, nunca acerta o alvo”, eis aí, para além do universal, a marca pessoal do gênio particular. E, como dita a sabedoria geral: quem avisa amigo é…

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Traduções de Emily Dickinson: https://minhastraducoespoeticas.wordpress.com/2017/07/17/serie-emily-dickinson/

Traduções de John Donne: https://minhastraducoespoeticas.wordpress.com/2019/04/28/nenhum-homem-e-uma-ilha/ / https://minhastraducoespoeticas.wordpress.com/2019/05/26/holy-sonnet/

Tradução de Edgar Allan Poe: https://minhastraducoespoeticas.wordpress.com/2018/04/15/eureca/

Entrevista com Johnny Depp: https://www.dailymotion.com/video/xzx0zx

Observação: a imagem em destaque foi retirada do Instagram de Johnny Depp. Todos os direitos reservados.

2 COMENTÁRIOS

  1. Olá, Paulo Gravina!
    Seu texto é muito rico e eu vou tentar comentar o que conseguir. São muitos pontos interessantes e vou começar pela A.I.: Não há risco da máquina substituir o humano. Meu receio é a capacidade que elas adquirem de eliminar a humanidade. Como você escreveu, máquina não leva em consideração os detalhes. Há um ditado que diz que o diabo está nos detalhes. Mas Sartre também já escreveu que “o inferno são os outros”. A Bíblia também registra que “A misericórdia de Deus é a causa de não sermos consumidos”. Então, um quase-Deus sem misericórdia nos levaria a extinção na maior. O que seria um erro.
    Concordo que Shakespeare não foi original por ser o primeiro ou por ser inédito. Entendo que ele foi original por ser único. Mesmo que alguém (humano ou máquina) reproduza seu estilo, sua métrica, seu vocabulário ou sua lógica; não vai conseguir reproduzir as narrativas que ele não criou. Mas ele, Shakespeare seria capaz de cria-las. Ahhh, seria! Eia aí a diferença fundamental: o limite. O limite de quem cria é sempre mais extenso do que o de quem imita ou reproduz.
    E o caso Johny Depp x Amber Heard deveria ter sido resolvido na esfera particular, não na esfera pública. A questão fundamental é individual, não coletiva. E individual em duas instâncias diferentes, pois cada um tem sua história. Cada um viveu a mesma história de maneira diferente. É impossível julgar a mesma história. São duas mesmo. É uma pena que questões tão importantes sejam resolvidas assim.

    Grande abraço!

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