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Entrevista com o historiador João Daniel Lima de Almeida

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1.  Qual(is) foi(ram) sua(s) inspiração(ões) para estudar História?

Há 10 ou 15 anos atrás, eu te diria que foi a “História do Mundo para as Crianças” do Monteiro Lobato. Li com 10 anos de idade. Eu adorei! Quando eu estava na faculdade, o professor Ilmar Rohloff de Mattos fez essa mesma pergunta para a turma de 5º ou 6º período ― sei lá ― de História do Brasil, e quando eu respondi isso, eu fui uma das poucas pessoas que respondeu isso na sala, ele falou: “eu também!”. Ilmar, na época, devia ter seus cinquenta e poucos, sessenta anos; e eu era um adolescente, tinha 17-18, e a gente tinha tido a mesma motivação: Monteiro Lobato. Mas de lá para cá Monteiro Lobato foi cancelado, como um racista, xenófobo, apoiador da Ku Klux Klan. Então mudou toda a admiração e apoio que eu tinha pelo Monteiro Lobato ― tem um vídeo delicioso do Mario Sergio Cortella, filósofo, ex-Secretário de Educação do Município de São Paulo, que substituiu o Paulo Freire, na gestão da Luiza Erundina, ele conta uma história muito legal, na experiência dele com Monteiro Lobato também ― e, de fato, isso muda. E hoje eu te diria que quando eu li eu não tive esse impacto racista, porque eu sou uma pessoa branca. Mas depois estudando sobre ele vim a descobrir que ele era um cara que se correspondia com os líderes da Ku Klux Klan, nos Estados Unidos, que era um supremacista branco, que depois escreveu um romance chamado “O Presidente Negro”, também muito racista. Bem ruim essa referência. Mas a verdade é que ele teve um impacto muito forte.

Outra coisa que teve um impacto é que na adolescência eu jogava muito RPG, que é um jogo de narrativas, uma brincadeira de contar histórias e de ficar contando histórias ― eu gosto de contar histórias até hoje. Eu gosto de contar histórias para as minhas filhas. E eu tinha a ilusão, a crença, a fantasia de que na faculdade de História, eu iria ficar o tempo inteiro estudando aquelas coisas do RPG: História Medieval, os cavaleiros, os heróis, os grandes nomes, essas coisas ― e não é nada disso. A faculdade de História é completamente diferente. Mas o RPG acho também que teve um impacto muito forte.

Na escola pública em que estudei, a Escola Municipal Acre, no Méier, no Rio de Janeiro, a professora que me deu aula no Jardim de Infância, em 1980-1981, era a mesma professora que me deu aula de História pela primeira vez, na quarta-quinta série, tipo 4-5 anos depois. Para mim, 4-5 anos depois era metade da minha vida aquilo, ou mais da metade minha vida. Passada mais da metade da minha vida, eu vim a reencontrar aquela pessoa que tinha sido importante na minha infância: eu tinha 3, depois tinha 10. Dona Ione que era uma figura também: muito rígida, rigorosa. Até hoje eu tenho essa coisa com mulheres rígidas, rigorosas, que foram sempre os melhores professores: tipo Angela de Castro Gomes, durona; Maria da Conceição Tavares, durona, firme, poderosa. Então acho que é isso. A tríade: Monteiro Lobato, Tolkien e Dona Ione.

 2. Há pouco tempo você teve seu Manual de História do Brasil retirado do site da Fundação governamental Alexandre de Gusmão por causa de uma breve menção crítica, em meio a quase 600 páginas, ao presidente Bolsonaro, datada de 2013. Trata-se da seguinte passagem: “O clube militar que motivou a República, o tenentismo e debateu a questão do petróleo nos anos 50 é retratado hoje como uma máquina do tempo, nostálgica e excêntrica. O principal defensor dos interesses castrenses no Congresso é um zelota do porte de Jair Bolsonaro, que se orgulha de sua homofobia. Não poderiam estar em pior situação desde o período regencial. Por terem se descolado do resto da sociedade desde o final do Regime Militar foram relegados à irrelevância, posição profundamente perigosa em um país com pretensões internacionais de potência.” Conquanto tenha recebido muito apoio e muita divulgação após o caso, houve bastante gente que o considerou o primeiro censurado do governo Bolsonaro. Gostaria que você comentasse em detalhes a sua versão do episódio e que fizesse uma revisão ou uma atualização do trecho citado. [Obs.: no fim da entrevista há um link onde é possível acessar o texto completo do Manual do Candidato de História do Brasil].

Rapidamente deixa eu te fazer um pouco a minha versão. Eu acho que a minha versão ― claro, eu sou um personagem envolvido no episódio ―, ela é: um repórter d’O Globo fez uma reportagem falando do Manual. O Manual que estava no site da FUNAG, que pretensamente ajuda ou prepara para estudarem ― os diplomatas ―, embora haja um disclaimer muito claro que aquilo não representa as opiniões do Ministério das Relações Exteriores e tal. Estava lá como Manual da FUNAG e aí ele pescou vários trechos, esse que você botou aí do “orgulha de sua homofobia” obviamente foi o trecho em destaque, mas em outros trechos ele tenta forçar uma narrativa de que ali havia uma simpatia aos governos petistas, à política externa da Dilma e do Lula ― e havia mesmo. Então essa reportagem d’O Globo motivou um tweet, ou uma microrreportagem, uma nota do site O Antagonista dizendo que a FUNAG, o Itamaraty era um antro de esquerdistas, que tinha que acabar isso. E aí o Jair Bolsonaro, que era presidente eleito, não tinha tomado posse ainda, retweetou a notinha d’O Antagonista. A chancelaria dos últimos dias do governo Temer ― isso foi no início de dezembro de 2018, portanto o Bolsonaro já estava eleito, mas não tinha ainda tomado posse ―, do ministro Aloysio Nunes Ferreira, senador da República, ex-motorista do Marighella, envolvido na luta armada no Brasil, ou não ficou sabendo ou ficou sabendo e lavou as mãos (duvido que não tenha ficado sabendo) e foi tomada uma decisão em alta instância, não sei se foi tomada pelo ministro ou pelo secretário geral, provavelmente já querendo puxar o saco da nova administração que não se sabia ainda quem era, ou já tinha sido nomeado ministro o Ernesto Araújo (não tenho certeza se já tinha sido nomeado ou não). Mas de alguma maneira meio querendo livrar sua cara porque, claro, aqueles membros da alta burocracia estavam com medo ― sei lá ― de ir para Pyongyang, para a Mongólia, de ir para sei lá aonde, para algum buraco. Aí eles provavelmente se preocuparam, “como é que eu vou ficar com o novo governo?”, então eu vou fazer um gesto aqui de não criar confusão, não criar polêmica, e vou tirar esse Manual do ar. Porque é um Manual que diz que o Bolsonaro é homofóbico, embora ele mesmo se diga homofóbico (ou tivesse se dito várias vezes), mas não sei nem se ele entende o que é homofóbico… O fato é que o Manual saiu do ar e isso criou uma certa comoção, porque vários diplomatas questionaram isso, alguns entraram no Sistema Público de Consulta, da Transparência, entraram com um pedido, alguns entraram com um processo (advogados etc.) para perguntar qual é o embasamento disso. Aí nos dias seguintes o Ministério das Relações Exteriores disse que aquele conjunto de obras estava em processo de revisão editorial. E dois dias depois retiraram todos. Durante dois dias só o meu e dois dias depois retiraram todos para dar sustentação a essa versão fictícia, que é uma versão fictícia porque alguns desses manuais tinham acabado de ser lançados ― o Manual de Economia tinha sido lançado, sei lá, 6 meses antes ―, você tinha alguns manuais que eram recentíssimos, o meu era de 2013, mas outros manuais eram recentíssimos. Então a ideia de revisão não se sustenta, tanto é que não foram publicados novos manuais, não foram contratadas outras pessoas para fazerem outros manuais, nada disso.

Isso acabou sendo positivo, porque o Manual ganhou uma enorme visibilidade, saíram reportagens em vários jornais sobre isso, as pessoas mandaram uma solidariedade que eu recebi de todos os ex-alunos, colegas, professores, acadêmicos… Alguns diplomatas ficaram meio em cima do muro, “não, a gente não pode ficar criticando o governo, é uma instituição do Estado, veja bem e tal”, que eu achei um pouco vaselina demais, mesmo para um diplomata, mas recebi apoio de ampla maioria. Quando não era um apoio público explícito, era um apoio implícito nas redes sociais daqueles que, embora naquele momento estivessem com medo de sofrer retaliação, mandavam mensagens privadas ou até fizeram documentações públicas e tal. A melhor de todas foi um rapaz, ex-aluno meu, que no desfile da Mangueira do ano seguinte, no Carnaval (sobre Historiografia e tal), desfilou de malê e aí botou uma faixa dizendo: mesmo censurado estamos aqui representando o Manual. Então eu posso dizer que eu tive, não exatamente um carro alegórico, mas uma fantasia no Carnaval da Mangueira lá com o meu nome. E esta sem sombra de dúvida foi a manifestação que mais me orgulhou. Foi um momento muito bonito dessa solidariedade em geral!

Não sei se eu posso dizer que eu fui o primeiro censurado do novo regime, porque o novo regime não tinha oficialmente começado. Eu na verdade fui censurado pela sabujice e subserviência dos últimos momentos da chancelaria Aloysio Nunes Ferreira e do secretário geral. Eles estavam cientes disso, que eu sei. No mínimo, ele lavou as mãos em relação a essa decisão, que é, claro, uma decisão sem custo nenhum. Tirar um Manual do ar da FUNAG… “Ah, dane-se isso. Não quero criar problemas, tira esse troço do ar aí”. Para ele era uma consequência menor. Mas não deixa de ser uma nota de pé de página bastante negativa na biografia do Aloysio de Nunes Ferreira e do Marcos Galvão, secretário geral do Itamaraty, que optaram pela subserviência mais abjeta, depois de 5 anos um Manual publicado de, como você disse, 600 páginas.

E revisaria, claro que eu revisaria o trecho. O trecho diz que os militares não têm nenhuma importância. Entre outras coisas, que os militares perderam a relevância, que único representante deles é Jair Bolsonaro. Se tivessem perdido completamente a relevância essa criatura não teria sido eleita e ele não teria colocado centenas de militares, dezenas de militares que sustentam esse projeto, que apoiam esse projeto, que dão anuência a esse projeto… nos falta um Márcio Moreira Alves para sugerir que as pessoas façam greve de sexo de novo contra os militares do Brasil, porque realmente apoiar esse projeto é uma coisa absolutamente surreal, inacreditável e, claro, genocida. Então, do ponto de vista historiográfico, é uma análise historiográfica pelo menos incompleta ou incorreta, pelo menos até 2018, eles não são irrelevantes, são muito importantes. Uma pena que essa importância que foi tão relevante para, por exemplo, proclamar a República ou acabar com a escravidão no Brasil, tenha sido invertida para essa situação de crime lesa-pátria, de absurdo completo, de conivência, por exemplo, com o vírus e com a pandemia, de negligência no mínimo e, com certeza, de atitudes que concorrem para a morte de mais de 400 mil brasileiros no momento em que eu estou falando porque, quando a entrevista for ao ar, já vão ser 450, 500 mil.

 3. Em suas aulas e em sua obra escrita é visível a valorização da literatura e das manifestações artísticas como de extrema importância para a visão e para a compreensão que as pessoas em geral têm da História. Há, porém, críticos de diversas origens que observam uma influência quase absoluta do naturalismo metodológico nas narrativas nacionais, de forma que tudo ou praticamente tudo que ocorre em nossas histórias possui uma explicação nas noções científicas vigentes em cada época (por exemplo, a Psicologia, em Machado de Assis; a Geografia e a Biologia, em Euclides da Cunha; a Sociologia e a Geografia, em Graciliano Ramos; e a Linguística, em Guimarães Rosa), embora esta crítica possa ser de alguma forma um caso de “simplificação elegante”. Na sua opinião, existe essa limitação imaginativa nas histórias nacionais? Pensadores como o geógrafo Milton Santos já propuseram que se pensasse a possibilidade de outro mundo, um “altermundialismo”, nesse caso, o que falta aos brasileiros para pensarem, imaginarem e fabularem outras histórias e outras possibilidades para o seu país?

Bom, falta Democracia. Acho que falta muita Democracia, participação política ― o que nós chamamos de Democracia hoje existe e funciona para pessoas como eu e você: de classe média, de classe média alta, brancos, em zonas urbanas. Para a maior parte da população pobre, miserável, em zonas de favelas, em zonas periféricas não há a possibilidade nem de imaginar uma vida democrática: são sujeitos à violência, à tortura, a prisões arbitrárias, à bala perdida, à falta de educação, de saúde básica, de uma série de coisas, de empregos dignos. Então é óbvio que para você ter a possibilidade de imaginar, em primeiro lugar, você tem que existir, você tem que viver, comer, morar. Para o “altermundismo” ― é interessante e notório que você tenha citado um filósofo, um intelectual negro, que é o Milton Santos, que eu admiro muito ― isso é a primeira coisa que falta; que não falta, por exemplo, aos nossos irmãos argentinos: uma sociedade bem menos desigual do que a nossa, que, ainda que tenha crescido bastante a desigualdade, tem muito mais possibilidades de fabulações literárias e cinematográficas. Basta nós vermos a média de qualidade dos filmes, dos livros, das obras literárias dos nossos vizinhos. Sem querer desmerecer a literatura brasileira e o cinema brasileiro, que também são fascinantes, mas é claro que na Argentina tem uma sociedade amplamente alfabetizada, que participa da vida política e que, portanto, tem mais condições de imaginar do que a ampla maior parcela ou maioria dos brasileiros. Quando se tem possibilidades de narrativas periféricas, mesmo quando vem de setores da elite, como era o caso do Guimarães Rosa, ou, mais recentemente, de grupos oriundos de extratos periféricos (escritores negros, escritores nordestinos, escritores em situação de miséria), você tem obras extraordinárias, mesmo quando tangenciam o jornalismo, que é o caso da Carolina Maria de Jesus; que é o caso do “Torto Arado”, do Itamar Vieira Junior; obras que têm enormes possibilidades de organização literária.

Eu sou um adepto dessa imaginação. Como eu te falei, comecei a fazer História por causa do RPG, então, imaginar para mim é fundamental. Vejo muito pouca diferença entre História e Literatura e a parte mais bonita da História para mim é a forma: é a maneira como você conta uma história. E nós sabemos que a História pode ser contada de diversas maneiras, inclusive a mesma história pode ser contada de maneiras bastante contraditórias, que é o que chamamos de historiografia. Então eu não vejo nenhuma possibilidade de separação de forma e conteúdo. Para mim forma é conteúdo.

Agora outro ponto importante, do ponto de vista metodológico, no Brasil, é a força muito grande dos advogados. O Brasil, não sei se você sabe, é o país que tem mais advogados no mundo. Aliás, mais do que isso, o Brasil tem mais advogados do que o resto do mundo todo somado. Há mais faculdades de Direito no país do que no planeta. Brasil versus o mundo ― o Brasil ganha. E a nossa tradição bacharelesca, que é em larga medida também uma tradição positivista, ela em alguma medida contribui para um certo embotamento da imaginação. É um enquadramento muito específico, dentro de um olhar que acredita que a imaginação: ela é revolucionária ou foge aos cânones dos fatos do empiricismo. Eu, na minha Literatura, na minha obra, nos meus textos, procuro invariavelmente valorizar a forma e a literatura ― um mundo feliz para mim, um dia feliz, uma vida feliz seria uma vida em que eu pudesse só ler Literatura. Entendendo aí grandes obras históricas como obras literárias. É o caso do Edward Gibbon, por exemplo, ou boa parte dos textos do José Murilo de Carvalho, do embaixador Synesio, que têm uma qualidade literária extraordinária. O Capistrano de Abreu, que escreve muito bem. Eu sou fã dessa forma literária e dessa maneira de escrever agradável, que permitem esse “altermundismo”. Eu sou fã, por exemplo, de uma metodologia que não é usada no Brasil e que deveria ser usada (que os americanos já usam um pouco): o contrafactual, “o que teria acontecido se?”. E tem um instrumento metodológico interessante. O que teria acontecido no Brasil se Amador Bueno tivesse sido aclamado rei de São Paulo em 1640? O que teria acontecido no Brasil se os paulistas tivessem ganhado a guerra civil em 1932? O que teria acontecido? Poderiam ter acontecido várias coisas. Há exemplos de coisas que aconteceram: a Argentina, no final dos anos 1940, virou um país fascista e só rompeu com a guerra quase no fim. Então os nossos vizinhos são exemplos alternativos do que poderia ter acontecido conosco. O que poderia ter acontecido se o Bolsonaro não fosse eleito? O que poderia ter acontecido? Várias coisas poderiam ter acontecido. E aí não é positivista, os historiadores positivistas vão falar: isso não serve para nada, porque isso não aconteceu… Mas eu acho que o papel do historiador é iluminar o passado e mostrar que aquelas coisas não eram inevitáveis naquele momento e que havia alternativas de escolha. Então o exemplo contrafactual fortalece a possibilidade de saber que a História não é inevitável, não é unívoca e nos liberta, seria uma vacina poderosa contra a teleologia, contra o determinismo, mesmo que histórico.

 4.  Apesar de diversas mudanças sociais recentemente promovidas pela tecnologia e pela política, estamos vivendo um recrudescimento do conservadorismo no Brasil e em várias partes do mundo. Quais são seus pensamentos acerca disso?

Depressão [risos]. Frustração. Melancolia. Angústia. Sofrimento. Jamais pensei, no meu tempo de vida, que eu iria entender de modo tão carnal, tão profundo, o fascismo. Eu dava aula sobre o fascismo e não entendia. Não entendia de verdade, eu não sabia o que era aquilo, falava aquilo meio incrédulo: como é que é possível tanta gente ter acreditado nisso, em Hitler, em Mussolini, em massacre e genocídio dos judeus, em aniquilação e tal? O mais perto que eu cheguei disso foi quando eu li o livro de Literatura da Katherine Kressmann Taylor, que se chama “O Destinatário Desconhecido”, depois virou peça de teatro com o Edwin Luisi ― que eu recomendo, se você gosta de Literatura não perca em hipótese nenhuma. Eu sou um absoluto fascinado por romances epistolares e este é o melhor que eu já li. E olha que para ganhar do Amós Oz, com “A caixa-preta”, e do Agualusa, com “Nação Crioula”, e Choderlos de Laclos também, com “As Relações Perigosas”… Esse é o romance epistolar mais fascinante que eu já vi na vida! É um romance que tem, sei lá, 60 páginas, 70 páginas; uma obra epistolar que são 7 cartas. Cada autor troca 7 cartas um com o outro ― é isso, acabou. E é ao mesmo tempo também um romance policial, em certo sentido, onde um jovem judeu, um intelectual judeu nos Estados Unidos troca cartas com o seu melhor amigo, que é um alemão, que morava nos Estados Unidos e que voltou para a Alemanha às vésperas da chegada dos nazistas no poder. E aí ele vai vendo por meio das cartas a transformação do seu melhor amigo em um nazista. Este livro foi o mais perto que eu cheguei de entender a psiquê irracional, o irracionalismo, do nazista. Porque eu não conseguia entender como é que essas pessoas ilustradas, intelectuais, com nível superior, alfabetizadas, aquela nação de Goethe, de Wagner; aquela nação dos grandes intelectuais do século XIX, de Marx, apoiou aquele troço nos anos 1930. Não conseguia entender. A Katherine Kressmann Taylor chegou perto, abriu uma fresta dessa porta do entendimento. As eleições de 2018 no Brasil me deram a compreensão plena: de que não adianta você ter nível superior, não adianta você ser um intelectual, não adianta você estar na universidade, você ainda pode votar no Bolsonaro. Você ainda pode passar pano para o fascismo, você ainda pode achar normal metralhar 30 mil, ser homofóbico, ser racista, você ainda pode achar que é só uma coisa normal ― porque é o liberalismo do Paulo Guedes, tem sempre um Von Papen para limpar o pano, para sei lá… E aí eu vi isso. Pessoas à minha volta, pessoas próximas a mim apoiando o inapoiável. Pessoas racionais, pessoas com nível superior, pessoas com Doutorado, colegas de faculdade. Apoiando o inominável, apoiando o inacreditável, apoiando o fascismo.

E hoje, 2 anos depois, 3 anos depois, cada vez menos gente apoia isso, mas o fato de que ainda existem 25-30% de pessoas que acham que existe alguma coisa positiva no fascismo é surreal, isso me assusta. Quando o Manual foi censurado, eu morava em Portugal e logo depois disso eu pensei em não voltar para o Brasil e aí voltei para o Brasil ― eu moro no bairro das Laranjeiras, que foi o único bairro do Rio de Janeiro que não votou no Bolsonaro. Eu não consigo me imaginar morando em um lugar onde eu vá ter vizinho minion. Isso para mim é inominável, é inaceitável. Então eu moro no bairro das Laranjeiras e me mudei de Laranjeiras para Laranjeiras ― se for para sair de Laranjeiras, vou sair do Brasil. Em Laranjeiras eu pelo menos sei que meus vizinhos de porta, que são médicos, ou de baixo, que também são médicos, são pessoas que defendem a Democracia, defendem os Direitos Humanos, defendem o mínimo do mínimo. Não é questão de ser de direita ou de esquerda não, não estou falando de direita ou de esquerda ― este professor é comunista, tudo bem, podem me acusar de comunista, não tem problema ― mas eu estou falando do mínimo do mínimo para nós termos uma conversa básica na lógica liberal-democrática. Você é a favor dos Direitos Humanos! Você é a favor que as pessoas não tenham que morrer de fome, você é a favor que as pessoas não tenham que morrer cedo para não ter déficit na Previdência, você é a favor que durante uma pandemia tem que ter o mínimo de auxílio emergencial, um salário básico para que as pessoas não morram de fome; você é a favor de que tenha vacina, de que tenha SUS. Não precisa ser de direita ou de esquerda para isso. É o básico. Então eu vejo com desespero. Eu temo pelas minhas filhas. Temo pelas minhas filhas.

Aí quando você fala no Brasil e no mundo, fico ainda mais preocupado. Eu ia falar: bom, vou voltar para Portugal, minhas filhas pelo menos vão crescer em um país democrático, mas, quando eu cheguei em Portugal, no metrô do Rato tinha um outdoor: o Brasil já foi ― com a cara do Bolsonaro ―, agora só falta Portugal. Então tem partido de extrema-direita lá também. Eles não têm muita força lá, é verdade (a engenhoca lá, a geringonça funciona bem), mas o Trump foi eleito nos Estados Unidos, eu nunca imaginei que isso iria acontecer. E aconteceu. Aconteceu no Brasil, poderá acontecer lá também. Dez anos atrás, quinze anos atrás, no governo Lula, no governo Dilma, não imaginávamos que Bolsonaro pudesse ser presidente. Eu jamais imaginava que Bolsonaro pudesse ser presidente. Esse trecho [do Manual de História] mostra isso, o trecho da pergunta 2, não é isso? “Um zelota do porte de Jair Bolsonaro, que se orgulha de sua homofobia”, a irrelevância das forças armadas… Eu estava errado, eu estava errado. Eu previ mal o futuro, um futuro distópico que me atropelou muito rápido. Então eu vejo com desesperança. Atônito, melancólico, frustrado, assustado. Com medo.

 5.  Quais rumos você enxerga para o Brasil, para o mundo e para a sua própria vida?

Tenho um pouco de vergonha de admitir isso, mas, ao longo de boa parte da pandemia e sem sombra de dúvida desde que o Bolsonaro foi eleito, eu fui me protegendo e me enclausurando, por conta da minha profissão e do meu trabalho ― sou professor de História, de Política Internacional e de Atualidades; dou aula na PUC-Rio, no Descomplica e aula para candidatos ao CACD [Concurso de Admissão à Carreira Diplomática]  ― eu não posso me alienar completamente, mas eu fui fazendo uma espécie de alienação moderada para ter alguma saúde mental. E na pandemia mais ainda. A Literatura, sem sombra de dúvida, e a música são bálsamos, em relação a isso. Mas eu acho isso uma coisa triste porque muita gente como eu e várias outras pessoas muito mais importantes e com muito mais impacto social do que eu tiveram postura semelhante. Tentaram se refugiar no ambiente familiar, entre os amigos, e a pandemia tornou isso ainda mais difícil. E aí você adota soluções privadas para problemas que são públicos. Então saímos da arena política. Paramos de atuar no campo político. Ou porque estamos com medo, ou porque se está cansado, ou porque não se vê proposta, ou porque não há meios mínimos de diálogo. Você não tem como dialogar com uma besta-fera. Não tem como dialogar com um minion, embora tenha aquele livro “Como Conversar com um Fascista”, escrito pela Marcia Tiburi, aquela moça que foi candidata pelo PT no Rio de Janeiro, mas o livro é tão ruim, tão mal escrito, caótico, desorganizado; tão confuso, como, aliás, são as ideias dela (razão pela qual ela tem 2%, 3% dos votos). Talvez seja essa a maneira de dialogar com um fascista, você perde o lógos, você não é capaz ― eu, pelo menos, não fui capaz, deve ser um problema cognitivo da minha parte que não fui capaz de entender o livro dela, porque de fato não dá para dialogar. Eu não consigo. Eu li o livro, dei um voto de confiança lá, mas o livro é ilegível. Então é isso. Ela dialogou tanto com o fascismo que surtiu, surtou e tal. Eu acho que ela foi inclusive uma das pessoas que em um debate na Jovem Pan se levantou e se retirou quando chamaram uma pessoa de direita, o Kim Kataguiri, o que não mostra muita coerência…  Mas eu me retraí da esfera pública.

Agora eu sinto que estou voltando gradualmente dentro das minhas zonas de conforto: eu dou aula de Atualidades dentro de Relações Internacionais, estou participando do IDB ― que é o Instituto de Diplomacia Direta, organizado pelo ex-deputado federal André Costa, que propõe uma crescente participação dos entes subnacionais, dos entes federados, estados e municípios na política externa. Então, percebe-se cada vez mais que o governo federal, com poderes excessivos, em uma situação caótica, como um desgoverno que é este, precisa ser controlado por checks and balances, que precisam funcionar. E que em vários momentos funcionaram. Mesmo sem impeachment no Congresso Nacional ou no Supremo Tribunal Federal ou nos estados e municípios para minimizar o horror que é aquilo. Eu começo a me tornar cada vez mais simpático ao Parlamentarismo, em alguma medida, porque ser governado por Rodrigo Maia por toda a eternidade ou por Rodrigos Maias, Michels Temeres é um horror, mas é um horror menor do que um novo Jair Bolsonaro ― e eu estou disposto a trocar ― mesmo que seja mais um daqui a 50 anos e assim se dá força para os estados e municípios. E valorizar o federalismo brasileiro pode ser sim uma coisa positiva, então eu estou meio que me reinventando como animal político para tentar descobrir, quem sabe, formas de atuar na arena política sem me machucar demais, sem sofrer muito, gradualmente, moderadamente.

Mas acho que, sem sombra de dúvida, a Literatura é uma maneira de fazer isso. Você sabe, eu gosto de fazer leituras públicas de obras literárias que me tocam. Não deixa de ser um ato político. Pequeno, de resistência, mas sou eu saindo de novo do meu casulo.

 6.  Qual(is) mensagem(ns) você gostaria de deixar para os leitores?

Leitores! Olhem só, são vocês uma raça raríssima, raríssima: leitores! É um grande privilégio estar sendo lido. Se você está lendo isso ― e é, portanto, um leitor ― eu me sinto um enorme privilegiado. Em um mundo cada vez mais carente de atenção, onde as pessoas ficam disputando lives e entradas e redes sociais etc., você é um leitor! Você é alguém que conseguiu chegar ao fim desta entrevista. Você é alguém que é, na fraternidade daqueles que são apaixonados pelo conhecimento ― como eu e o Paulo, que está me entrevistando ― alguém que tem toda a minha admiração. Alguém que lê! Somos tão poucos… Tão raros… Então a mensagem que eu gostaria de dizer para vocês é: sobrevivamos! Sobrevivamos para que possamos nos multiplicar. Quem sabe algum dia deixaremos de ser essa minoria minúscula de leitores no Brasil e passaremos a ser uma minoria um pouco mais expressiva? Quem sabe algum dia ― utopicamente ―, em um “altermundismo” à la Milton Santos, quem sabe viremos a ser maioria? Leitores, né?! Irmano-me em alegria de saber que vocês existem, mesmo que sejam pouquíssimos os que vão terminar de ler. Somos muito poucos, mas resistamos!

Link para o Manual do Candidato de História do Brasil, de João Daniel Lima de Almeida: https://edisciplinas.usp.br/mod/resource/view.php?id=2181814

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João Daniel Lima de Almeida é graduado em história pela UFF (1999) mestre em Relações Internacionais pela PUC-Rio (2001) tendo sido professor da graduação e da pós-graduação em relações internacionais da PUC-Rio, da Universidade Cândido Mendes e da FGV. Foi professor concursado do Colégio Pedro II e fundador do Curso Clio de preparação para o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática (CACD), onde contribuiu por quinze anos para a aprovação de cerca de seiscentos diplomatas brasileiros. É autor do Manual do Candidato de História do Brasil (2013), editado pela Fundação Alexandre de Gusmão e segue lecionando online para candidatos ao CACD. Está atualmente vinculado ao IRI (Instituto de Relações Internacionais) da PUC-Rio e ao curso Descomplica, onde ministra aulas online para vestibulares e universitários.

3 COMENTÁRIOS

  1. Otima entrevista. Parabéns aos dois! Gostaria apenas de comentar que é positiva a alternância do poder, inclusive de tendências e propostas de poder.
    Nos EUA, por exemplo, a direita ocupa o poder de 8 em 8 anos e o mundo não acaba.
    Também é positivo a direita chegar ao poder executivo pelo voto aquino Brasil, pois assim sua atuação pode ser avaliada democraticamente. E ninguém precisa se enganar e defender a tomada do executivo pela força.

    • Agradeço o elogio, André! Acredito que uma das maiores críticas feitas na entrevista é não à alternância de poder, que, de fato, acontece em todas as democracias, mas a um certo discurso autoritário, que vem ganhando força e, inclusive, visa romper com tudo isso. Como afirma o historiador: “Não é questão de ser de direita ou de esquerda não, não estou falando de direita ou de esquerda […] mas eu estou falando do mínimo do mínimo para nós termos uma conversa básica na lógica liberal-democrática. Você é a favor dos Direitos Humanos!…”

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