Raciocínio Econômico e a Correlação prática de elementos econômicos – Perguntas Complexas, Respostas Publicadas 7

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    Gente, esse artigo era pra ter sido escrito há muito tempo. Mas é difícil, nunca vai estar perfeito e sempre dará margem a discussões. O impulso a escrevê-lo agora veio do pedido de ajuda da leitora Elaine Madeira e da minha insatisfação em relação à resposta que lhe dei  no artigo “Análise Econômica Março de 2013”.

    Como acontece em todos os casos que levam à lista “Perguntas inteligentes, Respostas Publicadas”, esse foi um caso que não daria para responder simplesmente através de novo comentário, como sempre faço, e eu deveria, obrigatoriamente, tratá-lo em artigo próprio. Na verdade a lista “Perguntas inteleigentes, Resposta Pubicadas” deveria se chamar “Perguntas Complexas, Respostas Publicadas”, pois muitas outras perguntas feitas são igualmente inteligentes mas são específicas e bem sintonizadas com o artigo que gerou a pergunta, mas não geram a necessidade de grandes espaços de resposta.

    Então a questão não é ter sido inteligente a pergunta, já que todas são. A publicação deriva do fato de que a pergunta não consegue ser respondida ou abordada adequadamente em comentário. POr isso também nomeiei o artigo com esse novo título, mantendo a numeração da série “perguntas Inteligentes, Respostas Publicadas”. E a numeração não está perfeita, pois outros artigos dizem claramente que são respostas a perguntas de leitores e seguidores e não foram elencados na série, pis o tema era tão relevante que exigia título mais objetivo quanto ao seu conteúdo.

    Em suma, dar título a artigos é difícil e tentar estabelecer um bom link e uma boa comunicação com os leitores não é fácil, gente. Vamos em frente.

    Elaine Madeira pediu para que ajudássemos a fazer uma resenha sobre “juros salgados disparam juros e dólar despenca a R$1,95”. Era mais ou menos isso em seu comentário ao artigo “Análise Econômica de Março de 2013”. Como estou com tempo, pois estou de licença médica, posso dar o tempo ideal ao problema e não deixá-la só com as respostas limitadas dos comentários que lhe escrevi no mesmo artigo.

    Vejam, o pedido dela nos remete à análise sobre a correlação entre juros, inflação e câmbio. O que dizer para quem quer entender essa correlação? Em um artigo, infelizmente terei de dizer pouco e tentar passar informação importante que ajude a qualquer um entender essa correlação. Isso, me limita muito. Mas vou tentar. Tenho que falar coisas que sejam pouco discutíveis. Então lá vai.

    Toda a atividade econômica do País, influenciada por condições produtivas internas (clima, tributação, logística, infra-estrutura, mercado interno, juros bancários, custo de produção, endividamente familiar..) e externas (clima, atividade econômica de países importadores do e exportadores para o Brasil, política monetária e fiscal desses países..), oscila e evolui gerando crescimento do PIB ou decréscimo do PIB. O PIB é normalmente basicamente dividido em três grandes partes: oscilação do setor primário (indústria primária extrativa – minerais, petróelo, água, agrícolas, pecuária, pesca..), setor secundário (industrial), setor terciário (setor de serviços).

    Em um ano um setor pode ter decréscimo e os outros dois acréscimos, o que pode resultar em PIB positivo. Para isso é importante notar como em determinado país é distribuída a importância de determinado setor ou setores no PIB. O ideal é que o PIB aumente todo ano, pois significa que a economia está crescendo, gerando empregos e riqueza e tributos para a sociedade.

    Esses três setores funcionam por meio da Oferta e da Demanda. A produção gera a oferta de produtos e a sociedade (através de pessoas físicas ou jurídicas) gera a demanda. Quando a produção/oferta é maior do que a demanda, há excesso de produtos e seu preço cai, gerando deflação para aquele setor ou para o mercado daquele produto, dentro de um setor econômico. Quando a produção/oferta é menor do que a demanda, os bens rareiam em sociedade e seus preços aumentam. Quando os preços descem, há pressão deflacionária (deflação), quando sobem, inflacionária (inflação).

    Daí você já percebeu: inflação zero é utopia!! Pois todos os produtos e mercados dos três setores deveriam dar somatório zero para seus conjuntos de oscilações individualizadas.

    Bem, visto isso. O que é PIB e o que é oferta e demanda, produção e consumo, oscilação de PIB e inflação e deflação? Avancemos.

    O ideal é que o PIB cresça, mas com demanda e produção(oferta) equilibrados, não gerando inflação. Quando o consumo está alto, pode pressionar os preços, caso a oferta não seja adaptada a esse aumento de demanda, e pode ocorrer inflação. Assim, há dua formas de se atuar para combater a inflação: diminuindo a demanda ou aumentando a oferta!! Se você entendeu até aqui, você já sabe mais que a maioria dos economistas!! e Principalmente dos jornalistas econômicos!! UAHUAHAUHAUH

    Como diminuir a demanda? Ninguém pode impedir ninguém de comprar com o dinheiro que tem, mas pode dificultar este gasto através de medidas macroprudenciais ou por aumento de juros selic, o que aumenta o custo do dinheiro. Cabe ao governo, gerenciando a política monetária, através do Banco Central (autarquia federal que executa a  gerência da política monetária – subordinada ao Governo oficialmente, mas autônoma na prática de mais de 15 anos) adotar medidas que aumentem o custo do dinheiro, desestimulando a demanda para compatibilizá-la com uma oferta baixa.

    As medidas macroprudenciais são medidas indiretas de controle da demanda, sendo as mais conhecidas o aumento de depósito compulsório (congelamento/indisponibilidade de parte de estoque de valores depositados em conta corrente em todos os bancos brasileiros e depósito desses valores no Banco Central), aumento de obrigação de colocação de valores próprios dos bancos em cada operação de crédito (o que aumenta o risco de cada operção para o banco e o faz cobrar mais juros ou emprestar menos) e diminuição de prazo para empréstimos bancários (de 96 meses, para 48 mesmes, por exemplo ou de 24 meses para doze para aquisição de determinado bem, ou pra determinada linha de financiamento). Tudo isso encarece a operação de empréstimo e desestimula compras, arrefecendo a demanda, dando tempo de a oferta se ajustar para que não haja inflação. A grande vantagem dessas medidas é que não criam dívida pública e nem atraem dólares, como aumento de juros selic.

    A outra medida é aumento de juros. Que significa afetar todo o mercado financeiro de uma vez, indiscriminadamente, independentemente de se o setor primário não apresenta inflação, ou se o secundário naõ apresenta ou de se o terciário não apresenta. É jogar balde de água fria na brasa e ponto. Esfria a economia. É um antibiótico que ataca a economia na parte ruim e na parte boa. Afeta e diminui a atividade de ambas as partes econômicas, independentemente de se é necessário ou não para determinado setor ou mercado de setor.

    Isso ocorre porque o custo do dinheiro aumenta pra todas as operação ao mesmo tempo, já que se o governo paga aquele valor para o mercado dar-lhe dinheiro, o que significa o investimento mais seguro da economia inteira, os bancos e agentes financeiros não aceitarão realizar outras operações por valor inferior!! Entendeu?

    Aumento de juros, portanto, direciona valores internos não para a produção, mas para os títulos do governo, pois é o investimento mais seguro pra quem tem valores a aplicar. Aumento de juros ainda atrai capital estrangeiro, e faz baixar o dólar pelo aumento de oferta de dólares no mercado brasileiro. Isso tem mais uma vez um impacto deflacionário, pois muitos bens negociados em sociedade estão cotados em dólar (ex. trigo – pão), e se baixa o dólar baixa o valor do produto cotado em dólar e a inflação para o produto gera efetio matemático negativo ou deflacionário, sem ter propriamente a ver com oscilação de demanda e oferta, nesse caso.

    Se você abaixa o juros selic, você barateia todas essas operações e os reflexos são contrários aos que mencionei acima, inclusive na atração de dólares para o país, influenciando, mais uma vez a economia e a inflação.

    Daí, aproveitando esse gancho, já se pode dizer que o câmbio, apesar de não ter um link tão direto com a inflação como há entre o juros e a inflação, pela configuração de nossa economia e das economias modernas, tem efeito importante sobre a inflação, na medida em que produtos e serviços na sua sociedade estejam cotados em dólar ou sofram a influência desta cotação.

    Mas é importante você perceber que juros, inflação e câmbio devem ser administrados e essa administração é meio autônoma entre juros e inflação, já que a inflação pode ser controlada por medidas macroprudenciais e o juros não se destina apenas a controlar inflação, mas também a incentivar ou desestimular o crescimento do PIB. E o câmbio é mais independente ainda em relação a juros e inflação, sendo sua adminstração mais autônoma, mas sem deixar de refletir na perspectiva sobre a evolução de juros e inflação, eis que, hoje, por exemplo, se o câmbio estiver baixo (dólar barato e real valorizado), puxa inflação para baixo e torna menos necessário aumentar juros para controlar inflação.

    Por fim, o controle de inflação pode ser feito via aumento de oferta. Todos os instrumentos de controle inflacionário disponíveis ao Banco Central só funcionam para inflação de demanda. Quando há inflação por queda de oferta, só há duas saídas: incentivar mais oferta via aumento de importação ou incentivar produção interna, elevar taxa de investimento (público e/ou privado), para que haja mais produtos no mercado e não haja a inflação, equalizando a oferta e a demanda.

    Por isso muitos países retiram petróleo (de oferta de produto oscilante, dependo de guerras nos países fornecedores) ou agrícolas (quando há problema climático e quebra safras nacionais ou internacionais) de cálculo de inflação, pois eventos erráticos e inadministráveis não indicam que houve descompasso entre oferta e demanda de forma normal, previamente aferível, e portanto não indica descontrole inflacionário, mesmo que haja reflexo real de aumento de inflação.

    Bem senhores, fico feliz de ter apresentado isso a vocês. O domínio destas regras básicas e práticas, eminentemente práticas, já desvendam vários problemas de avaliação sobre se o mercado está exigindo erroneamente aumento de juros para inflações de oferta, de avaliação sobre se é melhor adotar medidas macroprudenciais do que aumento de juros selic, de avaliação se o momento é de combater inflação com incentivo à produção para aumentar oferta ou se o caso é de constranger a demanda. Também fica um pouco melhor visível a questão sobre a relação entre juros – inflação – câmbio, como queria saber a Elaine Madeira.

    Naturalmente isso que eu expliquei não é tudo.. ou melhor dizendo, não é nada. Mas se isso que está escrito já for entendido, você estará em outro nível para ler artigos de economia e para perceber que a maioria apresenta informações estanques, com lógicas relacionais entre juros – câmbio – inflação tão automáticas e superficiais que evidenciam que defendem exclusivamente alguma idéia, muito antes de procurar incentivar o debate econômico para se achar a melhor saída para o desenvolvimento econômico brasileiro com alto crescimento econômico, baixa inflação, câmbio livre e estável, relação dívida/PIB estável e baixa e déficit público baixo e estável.      

    p.s.: Não tratei da inflação que ocorre por descontrole fiscal. Fica a dívida. É um pouco diferente e trata de investimento/gasto público, relação dívida/pib, visões de curto e longo prazo. Fugia um pouco do debate demanda x oferta dentro de uma perspectiva mais óbvia e fácil. Foi para facilitar a apreensão do básico. Fico devendo essa. abs

    p.s. de 21/03/2013: Também não falei da balança de pagamentos porque não era oportuno. abs

    p.s. de 25/07/2013 – Texto revisto, corrigido (termo “oferta” alterado para “demanda” no início do texto) e efetuados alguns negritos para destaque de temas e informações-chave.

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