Paralisação de servidores públicos em datas festivas, Alexandre Garcia e greve dos Policiais Militares da Bahia

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    Hoje, 13/02/2012, às 8:15h, Alexandre Garcia reclamou do fato de que “Natal, Ano Novo e Carnaval, ou seja datas festivas, estão sendo alvo de greves de servidores públicos”, denunciou ele, no Jornal Bom Dia Brasil na Rede Globo.

    O tom era de uma espécie de denúncia, criticando o fato de que datas importantes para o lazer da população e para o comércio estão sendo prejudicadas pelo egoísmo e pela falta de compromisso com o espírito público pelos servidores públicos. “Será que eles não têm outra data menos inconveniente para fazer greve?!?!?”, poderíamos adicionar ao discurso do bom jornalista Alexandre Garcia. A resposta é: NÃO!!!

    Veja bem, não houve qualquer questionamento sobre as causas da greve. Não houve comparação dos salários de nossos policiais e bombeiros com os policiais americanos ou europeus, apesar de sempre haver comparação da carga tributária brasileira com a carga tributária de países estrangeiros (somente com os que têm carga mais baixa do que a nossa, claro..).

    Não houve também a comparação com movimentos estrangeiros de greve.. por exemplo, eu fui à Europa passar o ano novo em paris em 2008, via Espanha. Teve greve justamente neste período dos aeroviários e controladores de vôo nos aeroportos da Espanha e fui prejudicado, além de que brasileiros chegaram a ser agredidos.. bem, a greve foi no período entre Natal e Ano Novo.. por quê? Porque chama a atenção do País para o problema que a classe daqueles trabalhadores está sofrendo. Cabe a partir daí refletir se o movimento é legítimo ou não e encontrar soluções e não pedir que façam greve em um dia menos importante para chamar menos atenção… é ridículo.

    A verdade é que a mídia não está nem aí para a demanda dos servidores públicos, sejam eles policiais, médicos, professores, juízes, servidores do Judiciário, sejam eles quem forem. Agora se a mídia e a sociedade não vêem paralisação nem de professores e médicos, como é que vai se chamar a atenção para o problema de outras classes?

    Bem, cada categoria profissional define sua estratégia de como fazer uma greve para expor seus problemas à sociedade e para o governo e tem que ser de forma que crie rebuliço, crie discussão, chame a atenção efetivamente, caso contrário não tem sentido.

    Imagine greve de professores durante as férias escolares? De que adianta? Imagine greve da Receita Federal sem parar portos e desesperar empresários que pressionam o governo para atender os servidores da receita federal?

    Portanto, é chato greve de servidores públicos de segurança perto de eventos importantes em que seu serviço é valorizado, mas a questão é perguntar se há motivo para a greve ou se a greve é injustificável e ilegítima.

    Os salários da segurança pública no Brasil, exceto Brasília, são ridículos. O único jeito de a classe de trabalhadores conseguir suas reivindicações e destinar valores do orçamento para salários de servidores públicos, ou seja, para investimento no serviço público, é através de greve.. e de greve visível. Somente assim os governantes freiam um pouco a destinação de valores e subsídios para empresários e direcionam um infinitésimo do valor orçamentário para investimento no serviço público e em especial nos salários defasados de servidores públicos.

    O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, segundo soube, por remunerar mal seus servidores, e por não decidir remunerar melhor e diminuir a defasagem salarial com outras carreiras que exigem formação em Direito, está tendente a resolver a falta de servidores crônica (desistência de servidores atuais e não atratividade de servidores novos) de maneira curiosa: talvez deixe de exigir formação em Direito para Analista Judiciário, para ampliar o leque de pessoas interessadas a participar do concurso e em tomar posse. Engenhoso, mas não é melhor remunerar melhor e ter profissionais especializados na matéria com que tratarão ao invés de economizar na remuneração e contratar pessoas sem conhecimento jurídico que os permita dar mais celeridade e eficiÊncia na solução de litígios e no assessoramento de Juízes? Os Juízes estaduais terão de explicar conhecimento jurídico para seus assessores?

    Gente, bom serviço público só existe com boa remuneração. Na Europa é assim. Nos EUA também. Servidor público é estratégico para a Nação. E o jeito de chamar a atenção da sociedade, a qual servem, para seus problemas de estrutura e salários é através de greve. E a greve tem que ser visível. Vamos parar de reclamar das greves e discutir a razão delas, se são legítimas e se os governos são omissos em resolverem esses problemas que tocam a todos nós que recebemos, mesmo sem perceber, serviço público todo o dia.

    O caso da greve da Polícia Militar da Bahia é um exemplo interessante de como uma greve pode ser dinâmica e positiva para a sociedade. Greve de servidor público não deve ser somente abordada como um embate entre o empregador Estado/Sociedade e empregado/servidor público. Isso é burro e mentiroso. Greve de servidor público informa sobre problemas de administração pública, de falta de política de segurança, saúde e educação. O problema do servidor público é problema que reflete na sociedade por evidenciar problema na prestação de serviço público à toda a sociedade.

    Vejam. Os policiais militares da Bahia entraram em greve na Bahia e criaram um caos. A greve iniciada, enfim, era legítima. Chamava a atenção para maus salários na área. Mas apesar de exigirem valores que na prática adiantariam a PEC 300 em votação no Congresso e que cria piso de 4 mil reais para policial e servidor público de segurança, houve várias coisas diferentes:

    1 – questionou-se a causa da greve que era mau salário, mas o Governador da Bahia, Jacques Wagner, teve a oportunidade de falar que já havia aumentado durante seu governo o salário deles em 30% e que os policiais militares da Bahia já ganhavam mais do que policiais militares de outros Estados mais ricos, pois ganhavam 2.100 ou 2.300 reais!! Por isso disse que só poderia dar um aumento de 5% que estava sendo rechaçado.

    2 – os policiais baianos, infelizmente, radicalizaram e fecharam ruas (ao que parece, mas ainda está sendo apurado) e ainda colocaram fogo em ônibus (ainda está em apuração) e ainda grupos de extermínio aproveitaram para atuar (ainda em apuração). Tudo está sendo investigado e vários “grevistas” foram presos.

    3 – Por fim, diante de toda essas informações, a população ficou ciente da política de valorização da segurança na Bahia, a condição de melhor salário na Bahia do que em Estados mais ricos da Federação, os policiais acabaram aceitando valores menores do que os exigidos, policiais suspeitos de exagero ou crime foram presos e a greve foi resolvida de maneira pacífica, com o Governador tendo tido oportunidade de defender sua atuação, os policiais tendo reivindicado e a população ficado ciente da situação.

    Vejam, neste caso, a experiência de greve foi excelente, ao meu ver. Tudo bem que alguns ovos foram quebrados. Mas questionar a causa da greve foi o que levou a toda uma movimentação que resolveu o impasse e não ficar recriminanbdo a escolha de data para realização de greve. Isso é problema da categoria, que aliás, na hipótese, realizou antes do carnaval justamente para pressionar e dar tempo às autoridades de resolverem algo.

    É isso.

    p.s.: texto revisto.

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