O Desabafo de um Médico

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    Um grande amigo meu, médico-cirurgião, me honrou com o pedido de publicação de seu manifesto em favor do investimento no setor de saúde, privado ou público, e contra o sucateamento evidente das condições de trabalho dos médicos para atender adequadamente a população do Rio de Janeiro.

    Ele já comentou comigo algumas várias vezes sobre as dificuldades e pressões que o médico da área pública (que diz trabalhar sobre “cinzas”) e o da área privada (cada vez sentindo pior estrutura e apoio em face da crescente demanda social porprestação de serviço médico).

    Seu manifesto encontra-se totalmente de acordo com a posição do Blog sobre o tema, consoante o teor do artigo “A precarização da Saúde Privada”, e encontra igualmente eco no comentário do também médico e comentarista/debatedor do blog, Dr. Vitor Miranda.

    Sem mais delongas, e em suas próprias palavras, o manifesto do Médico-Cirurgião carioca, Oswaldo Tolesani.

    “Apocalipse na saúde: particular: estamos vendo, literalmente, o mundo capitalista engolir a dignidade de cada um de nós, médicos e pacientes.
    É triste ver pessoas que pagam mensalmente por planos de saúde que vendem mundos e fundos, e patrocinam comerciais e times de futebol, completamente abandonadas quando mais precisam, sem vagas em hospitais bons para internar, enquanto hospitais decadentes em termos humanos e de hotelaria continuam a manter seu péssimo padrão de atendimento, sob os olhos de gestores de empresas de serviços que economizam em recursos humanos, acreditando que praticam gestão de saúde de “sucesso”, e sob as barbas de nosso estado, que permite que hospitais sem mínimas condições de higiene e que algumas vezes mesmo utilizam-se do falso exercício da medicina para completar seu quadro de funcionários..
    Nesse modelo gestor de sucesso, os hospitais que “dão lucro” funcionam como verdadeiras unidades de produção, no sentido marxista da palavra, e a humanidade escoa entre as garras do sistema. Hospitais lotados, pois somente assim aferem lucro devido às baixas taxas recebidas e glosas (glosa é a negativa do pagamento por parte da auditoria de cada seguradora), funcionando em esquema de alta rotatividade, investindo em leitos de CTI prioritariamente à quartos e enfermarias e privilegiando procedimentos cirúrgicos devido à rotatividade maior de pacientes e taxas inerentes / porcentagem de próteses e outros materiais. Sempre sobrecarregando suas equipes de saúde e remunerando-as da forma mais econômica possível, pois o que menos importa é a qualidade da produção e sim a quantidade. Sobrecarregados e mal formados, nossos médicos recém-formados compõem a maioria númerica absoluta dos corpos clínicos da maioria dos hospitais de minha cidade, pois são os únicos que se submetem ao pagamento realizado, e com isso pipocam erros e negligências médicas cada vez mais no anedótico popular.
    Gestores hospitalares que acreditam que a economia em recursos humanos é modelo de gestão de sucesso, e que economizam com uma colherzinha calculada e facilmente demonstrável, mas que jogam dinheiro fora com uma pá incalculável devido ao prejuízo com recursos humanos pouco produtivos ou inapropriados. E pensam que a classe médica, formada por pessoas que em sua grande maioria possuem uma estrutura familiar economica de suporte, vai se submeter às leis do mercado.
    Gestores de plano de saúde que vivem num mundo paralelo e acreditam que a livre concorrência dos hospitais vai solucionar o problema assistênciais de sua clientela. E que acreditam que facilmente vão encontrar médicos dispostos a credenciar seu consultório para assistir seus clientes, quando cada vez menos médicos atendem pacientes em consultório de planos de saúde. E emergências abarrotadas por clientes de plano que utilizam-na para driblar a impossibilidade de marcar consultas pelo plano de saúde em tempo hábil (para alguns planos dura-se 3 a 4 semansa para marcar consultas no mínimo), e que ainda reclamam que as abarrotadas emergências tem que ter mais estrutura para atender ao invés de questionar e denunciar seu plano de saúde.
    Cooperativas médicas que se vendem como planos de saúde, escapando das regulamentações da ANS.
    ANS dominada por diretores de planos de saúde.
    Não somos mais vidas, avós e pais de família, irmãos, amigos, pessoas. Somos cifras na mão de intermediários, que ainda colocam e tem interesse em colocar pacientes contra hospitaise médicos. E o que mais me deixa triste como ser humano é ver a perda da dignidade humana ocorrer num ambiente em que teoricamente, por ser pago, tudo deveria funcionar.
    Rogo a Deus para que essa farsa acabe, e que desse apocalipse as coisas realmente comecem a mudar mas a mudança tem que passar por nossa sociedade.
    Precisamos parar de pensar que nada de ruim pode acontecer conosco! As coisas estão acontecendo neste exato minuto e problemas de saúde todos teremos em alguma fase da vida.
    Precisamos parar de pensar que somos melhores que os outros!
    Precisamos lutar por nossos DIREITOS como clientes, e principalmente SERES HUMANOS.
    Não se iludam, não é economizando com serviços humanos, em todos os níveis que obteremos serviços de qualidade. Em nenhum setor!!!!!!!! Isso é princípio básico de gestão, mas o provincianismo brasileiro e principalmente carioca vende o contrário como política gestora de sucesso!
    Valorizar recursos humanos em qualquer setor de prestação de serviços é investimento e não gasto, com retorno incalculável! Como esperamos por um bom atendimento médico sem poder remunerá-lo bem para poder estudar?
    Nossa sociedade precisa estabelecer suas reais prioridades e lutar por elas e por seus direitos!!!!!!!!!!!!
    Fica aqui o grito, o protesto, o desabafo de um médico e, principalmente, de um ser humano, que se sente na necessidade de lutar pela dignidade humana.”

    Quero deixar patente todo o apoio do Blog Perspectiva Crítica à causa médica. Sugiro fortemente que todos vejam o filme “$O$ $AÚDE” de Michale Moore. Vocês poderão ver e perceber o que está tentando ser feito no nosso próprio sistema de saúde privado, na tentativa de se depauperar a classe médica, prejudicar a qualidade de serviços médicos em função da “lógica de mercado” e da “maximização dos lucros”.

    Da minha parte, a única maneira de se melhorar esses quadros definitivamente, a bem dos médicos e da população, é aumentando drasticamente o investimento na área pública de saúde (criando concorrência pelos médicos e pelos clientes), criar legislação protetiva dos médicos e manutendora de qualidade de serviços médicos privados à população e investir na área privada com tecnologia de gestão e até com benefícios tributários, de forma a viabilizar cada vez mais a melhoria da qualidade de vida dos médicos, a melhoria da prestação de serviço médico à população, assim como manter um ambiente amigável para o crescimento responsável de redes prestadoras de serviço médico, em concorrência com a saúde pública e não substituindo-a.

    Qualquer leitor que queira publicar seu manifesto, é só me direcionar através do endereço mcpdg.blog@gmail.com, ciente de que o Blog reserva-se o direito de publicar somente após a análise de oportunidade e de acordo com a política autônoma e irrecorrível da Redação do Blog Perspectiva Crítica.

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