Entrevista Póstuma de Adam Smith: Aquilo que os liberais não leram ou não dizem das idéias de Adam Smith

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    Este artigo foi estimulado a partir da acusação de Rodrigo Constantino, presidente do Instituto Liberal, de que “esquerdistas” não leram Marx (publicado no Jornal O Globo no primeiro semestre de 2014), porque, se lessem, veriam suas incongruências e suas posturas politicamente incorretas (de 1850, diga-se) nos dias de hoje.

    Ao contrário das críticas a idéias completamente temporais de Marx, como suas afirmações a favor de imperialismo sobre a África e a inferioridade de africanos em relação a europeus (visão curta e de poucas luzes com certeza), mas isso nada tinha a ver com a construção da sua teoria socialista, os liberais se lessem Adam Smith naquilo que contradiz suas teses atuais de expansão ilimitada do liberalismo, seriam forçados a admitir que Adam Smith os repreenderia hoje na própria condução de políticas econômicas e de reformulação de Estado.

    Smith era realmente genial e quem o lê sem preconceito é obrigado a admitir isso. E sua genialidade é maior ainda no equilíbrio de suas posições, na crítica da exploração do homem pelo homem, sendo a favor de que o trabalhador pudesse ter melhores salários, na crítica da vinculação de economia e política, na crítica do excesso de privatização e na crítica sobre protestantes votarem em seus próprios pastores (se bem que se isso gerou a Suíça de hoje.. é um caso a se pensar.. rsrsrs). Ele era um filósofo de alto grau. Era crítico até mesmo do imperialismo britânico, em especial em se manter os EUA, à época ainda treze colônias, como colônias, por razões mais econômicas até do que políticas. Muito interessante.

    Então, vou enunciar os trechos que pincei da obra “A riqueza das Nações de Adam Smith – Uma biografia” escrito por P.J. O’Rourke, escritor, jornalista e comentarista político do periódico Atlantic Monthly, da coleção “Livros que mudaram o Mundo” da Editora Zahar/Jorge Zahar Editor. E por que não ler o original? Por pressa. Mas muitos outros motivos existem para você não ler o original de Adam Smith e ler essa aula sobre a obra “A riqueza das nações”. Não vou enunciar aqui essas razões, mas se você ler o livro que indico acima, talvez tenha muito mais proveito em ler 250 páginas objetivas com excelentes comentários ricos de O’Rourke, do que ao ler 900 páginas da obra original, das quais grande parte são devido à inexistência da econometria e necessidade de Smith legitimar suas análises econômicas, além de estilo mais floreado de escrever em uma época sem televisões e novelas, além de mais de 200 páginas sobre a oscilação de valor do trigo e da prata… rsrrsrsrs. O’Rourke me convenceu em parar a leitura por aqui, em seu livro, apesar de não sugerir isso.

    Bem, além de esse nobre homem ter criado a sagrada lei da oferta e da demanda, ter dado fundamento e criado a teoria liberal econômica de cujas fontes o liberalismo bebe até hoje (e continuará bebendo), ter criado a idéia de divisão do trabalho (a especialização) como forma de aumento de eficiência no trabalho e ter defendido a diminuição do Estado, ele também defendeu limites entre economia e política, na forma como acima apregoamos. E vamos apresentar trechos nesse sentido.

    Importante notar, ainda, que sua defesa de uma diminuição do Estado sobre a economia deriva da experiência vivida em 1750 de que a onipresença do Estado inglês prejudicava a evolução e crescimento de empresas e da economia. E é incrível como suas constatações temporais são repetidas por pessoas cultas liberais sem qualquer modulação para os dias atuais, assim como cristãos ortodoxos o fazem com qualquer coisa que esteja escrita na Bíblia, por exemplo. É uma espécie de fanatismo econômico que em alguns casos são de boa fé, mas em muitos sou obrigado a ver má-fé em deturpar o que Smith disse para justificar um avanço da economia sobre a política e de empresas sobre a Administração Pública muito além do que Smith mesmo admitia. É uma bandeira política e não mais um interesse pela saúde da economia o que move esses senhores ortodoxos, a meu ver.

    Senão vejamos. Vamos à entrevista do Blog Perspectiva Crítica a Adam Smith.

    Blog Perspectiva Crítica – O que Smith teria a dizer sobre o interesse de empresários e comerciantes em relação ao interesse público? A lógica empresarial é a salvação do mundo? Colocar megaempresários em altos postos políticos é bom para a política e para o interesse público? Se há sucesso no mundo empresarial, esse sucesso não pode ser reproduzido no Estado? Seria bom que Antônio Ermírio de Morais (falecido e nobre e nacionalista empresário) ou Eike Batista fossem Presidentes da República?

    Smith – “O interesse dos comerciantes… em qualquer ramo do comércio ou das manufaturas e em alguns aspectos é sempre diferente e até oposto ao do público.” (ob. cit., citação de Smith, pg. 64)

    Blog Perspectiva Crítica – O lobby exercido por empresas no Congresso é atividade que ajuda em realização de programas e políticas públicas com interesse público e propalação do bem em nossa comunidade? Afinal, o que for bom para empresas deve ser bom para toda a sociedade, não é mesmo, Adam?

    Smith – “A proposta de qualquer nova lei ou regulamento do comércio (vindo dos comerciantes ou manufatureiros) deve ser ouvida sempre com toda precaução e jamais ser adotada antes de longo e cuidadoso exame.. com a mais desconfiada atenção.” (ob. cit, citação, pg. 64)

    Blog Perspectiva Crítica – Hum.. Adam, talvez se os EUA tivessem prestado atenção nesse seu comentário, não teriam desregulamentado tanto o mercado de títulos e não existiriam o subprime e a crise financeira internacional de 2008.. interessante. Mas você não acha que a privatização de funções do governo tornaria o governo mais eficiente? A lógica empresarial usada no governo seria algo fantástico, não? Veja em sua época  a administração em Bengala, território colonial inglês, exclusivamente pela Companhia das Índias Orientais.

    Smith – ” O governo  de uma companhia exclusiva de mercadores é, talvez, o pior de todos para qualquer país.” (ob. cit. , citação, pg. 64 – O’Rourke  aqui cita literalmente, sobre Smith, que “ele não era entusiasta da privatização das funções governamentais”)

    Blog Perspectiva Crítica – Mas e a relação entre patrões e trabalhadores, entre o lucro e o salário, entre a riqueza e a pobreza? O que você pode nos dizer em relação a estes temas?

    Smith – “a opressão dos pobres deve estabelecer o monopólio dos ricos” e ” (o lucro) é sempre mais elevado nos países que caminham para a ruína” (ob. cit. , citação, p.62). “Os patrões estão, sempre e em qualquer lugar, numa espécie de combinação tácita, constante e uniforme para não aumentar a remuneração do trabalho”. “Nossos mercadores e mestres manufatureiros se queixam muito dos altos salários sobre o aumento dos preços… das suas mercadorias, tanto aqui quanto no exterior. nada dizem a respeito dos efeitos ruins dos altos lucros. Ficam calados quanto aos perniciosos efeitos dos próprios ganhos. Só se queixam dos ganhos dos outros.” (ob. cit., citação, pg. 63)

    Blog Perspectiva Crítica – Hum.. deve ser por isso que sempre estão contra criação de cargos públicos (concorrência por mão de obra qualificada entre o público e a área privada que aumenta salários na área privada), aumento de salário minimo, a favor de terceirização na área privada e na pública e nunca comentam que a inflação no Brasil também é resultado do fato de que o lucro aqui é três vezes maior do que nos EUA e Europa… interessante, Adam. também são contra o pleno emprego. pois assim não haveria sobra de mão-de-obra que pressionasse para baixo o salário do trabalhador. O que você acha do pleno emprego, Adam?

    Smith – “Se a sociedade empregasse anualmente todo o trabalho que pode anualmente comprar,… o produto de cada ano bem-sucedido teria valor muito maior que o do ano precedente,” “(Como Thorsten Veblen resmungava) Não existe , porém, nenhum país cuja produção anual integral seja empregada para manter a indústria. Os ociosos aqui e ali consomem grande parte dela”.(ob. cit. citação, pgs. 62/63)

    Blog Perspectiva Crítica – Entendo.. quanto mais pessoas trabalhando, mais a produção anual seria maior e mais valorizada, gerando crescimento econômico.. talvez o pleno emprego não deva só ser enfocado como custo de produção.. interessante.. mas então, para finalizar, você acha que empresários deveriam ser governantes? Você não deixou isso muito claro na pergunta anterior. Você acha que o ideal político mundial seria o de dever criar um grande mercado econômico mundial, um mundo reinado pela lógica de mercado?

    Smith – “A indigna voracidade, o espírito monopolizador dos mercadores e dos fabricantes, que não são e nem deveriam ser os governantes da humanidade, talvez não possa ser corrigida: pode muito facilmente, entretanto, ser impedida de perturbar a tranquilidade de qualquer pessoa , além das deles.” ” A violência e a injustiça dos governantes da humanidade é mal antigo, contra o qual, temo, a natureza dos negócios humanos dificilmente admitirá algum remédio.” (ob. cit., citação, pg. 179)

    Blog Perspectiva Crítica – Rsrsrs.. muito boa Adam.. realmente, é melhor a política ficar com a política e a economia e seus senhores, banqueiros e empresários, ficarem no seu quadrado a bem de todos. Muito boa essa conclusão. Obrigado por sua participação.

    Encerrada a entrevista, rsrsrrs, tecemos a última consideração.

    Por fim, Smith também segue incompreendido em algumas conclusões que fez à época de 1750, a partir de observações e informações disponíveis à época, e gerou idéias liberais aberrantes que são verdadeiras mentiras propaladas pelos liberais e que prejudicam a economia e os cidadãos.

    Uma dessas mentiras que hoje acabaram sendo cristalizadas é a de que servidor público é gasto. Veja. Adam Smith ponderou isso. Como? Ele avaliou que uma lojinha produz, gera arrecadação ao Estado e lucro ao indivíduo. Isso é exemplo de produtivo. Mas um policial, por exemplo? Ele não produz nada. Ele não gera arrecadação ao Estado, pelo contrário, gera a despesa de seu salário. E não gera lucro para ninguém pois não produz. Ele, assim como servidores públicos, seriam pesos mortos necessários devido às necessidades da vida e deveriam existir em número mínimo possível ao contrário de empresas. Entendeu?

    Mas em 1750 não existiam pesquisas sociais avançadas e nem era possível se avaliar o impacto da segurança para a a atratividade do investimento, de uma eficiente máquina fiscal para a agilidade da burocracia e melhora do ambiente de negócios. Não se avaliava qual o retorno em dinheiro para a economia do investimento em saúde e educação, que o IPEA afirma ser maior do que o investimentos em exportação, por exemplo. Então, algumas conclusões de Smith também devem ser relativizadas e atualizadas. Investimento em serviço público gera riqueza para a nação, para a economia e para o cidadão, como mostra a comparação da lista dos países de maior IDH no mundo se comparadas à lista de países em que o índice de participação de servidores públicos na força total laboral desses países é muito maior, em regra, do que no caso dos países de baixo IDH (veja detalhes sobre este fato no artigo de link do p.s. de 16/09/2014, abaixo).

    Por tudo isso, sugerimos que todos leiam Adam Smith, mas que os liberais também o leiam, para atualizá-lo e respeitar sua genialidade mais do que justificar suas idéias de política econômica sem comprometimento com o bem da economia, do ambiente de negócios e da qualidade de vida do cidadão.

    p.s.: todas as citações de Adam Smith tem a menção ao texto original por P.J. O’Rourke, no livro citado.

    p.s. 2: Quando Adam menciona comerciantes e manufatureiros, hoje deve ser entendido como grandes empresários e banqueiros. Na época, os centros financeiros mundiais não eram os donos da economia e do mundo como hoje.

    p.s. de 16/09/2014 – Para verificar que países de maior IDH no mundo têm maior proporção de servidores públicos em todo conjunto de trabalhadores de seu país, acesse http://www.perspectivacritica.com.br/2014/08/ocde-comprova-paises-de-maior-idh-e.html

    p.s. de 19/12/2014 – Texto revisto e ampliado.

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