Bolsa Família não influencia eleição no Brasil

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    Importantíssima essa notícia e informação. Veja o título da matéria publicada no Jornal O Globo há poucos dias: “Bolsa Família não garante mais votos ao PT em cidades com programa”.  Desde 2002 já foi publicado que o Bolsa Família não influenciou sequer a re-eleição de Lula (li um único artigo neste sentido). Isso era algo sobre o qual já falei muito, com base em um artigo do Globo e sobre o qual nunca escrevi.

    Vejam. Primeiro e mais importante: a informação do artigo recente de que o Bolsa Família não influenciou a última eleição é ótima pois não impede a continuidade de um programa que resgata uma dívida social do Estado brasileiro com todos os pobres abandonados intelectualmente pelo Estado por falta de garantia de acesso a todos à educação gratuita de qualidade, falta de assistência social, falta de política de valorização do trabalho, falta de assistência médica, ou seja falta de toda a infraestrutura possível a essas pessoas para que pudessem se organizar, educarem-se e realizarem-se como cidadãos autônomos, estando hoje no total ostracismo social sem previsão de resgate. Refiro-me aos brasileiros deseducados acima de 40 anos (no ano de 2002).

    Voltando para o tema da não influência do programa de governo nas eleições, acessem o útlimo artigo em
    http://oglobo.globo.com/pais/bolsa-familia-nao-garante-mais-votos-ao-pt-em-cidades-com-programa-6634611

    O viés foi de dizer que não há “mais” influência, admitindo que, segundo o artigo “uma grande parte dos que estudam o tema não tem medo de assegurar que os programas sociais do governo Lula angariaram importante apoio e garantiram a reeleição do presidente Lula em 2006 e a eleição da presidente Dilma Rousseff em 2010”. Sim, há a continuidade de afirmação de que o Programa reelegeu Lula e elegeu a Dilma. Mas isto é mentira. Ajudou, claro como qualquer grupo de votos, mas não garantiu eleições; o que é diferente.

    Um antigo artigo publicado no Globo ou Jornal do Commercio (creio que foi Globo mesmo!) dava notícia de que as 11 milhões de famílias ou de brasileiros assistidos pelo Bolsa Família somente geraram três milhões de votos na reeleição de Lula. Ou sejam, como votaram 61 milhões de pessoas em sua reeleição  num universo de 102 milhões de votos à época, pelo que me lembro, informava-se que se fossem excluídos os votos dos beneficiários do Bolsa Família, mesmo assim Lula teria sido reeleito e mais, grande parte dos beneficiários votaram na oposição!! Isso tudo só pode ter sido verificado por pesquisa de intenção de voto, lógico. Mas foi publicado em jornal.

    Parece uma imbecilidade alguém que é contemplado pelo governo com Bolsa Família (e sem muitas opções de melhoras de vida por meios próprios) não votar em quem criou o programa, mas isso não é tão fantástico quando se sabe de duas coisas: (1) tratam-se de pessoas de baixíssima escolaridade e formação crítica política (óbvio) e (2) há um sentido na identificação imediata do povo com partidos que não é o de alinhamento político-partidário-programático e isso ainda não é bem conhecido e (2.1) pobre foge da imagem de pobre, como em qualquer lugar no mundo, se isso for possível. Eu explico.

    O item (1) é claro e autoexplicativo. Se a família é paupérrima e de baixíssima escolaridade, grande parte analfabeta, muitas vezes não há a percepção clara para essas pessoas de que o benefício do Bolsa Família somente continuará se houver reeleição de alguém. Esse contingente vive em condições abjetas e sub-humanas, muitas vezes. Na época da reeleição O programa Luz para Todos ainda não tinha atingido seu potencial total e saibam que antes disso, no interior do Nordeste não podia ter estoque de vacinas e as pessoas salgavam comida para conservá-la, como feito na Idade Média!!

    Então, esse é o contexto de muitas famílias que recebiam Bolsa Família desde 2002. É compreensível a falta de entendimento e engajamento político para qualquer coisa, inclusive para manter o Bolsa família que os beneficiava e compreensível os dados de relativa baixa votação na reeleição do Lula deste contingente, à época.

    Mas o mais impressionante são os itens (2) e (2.1). Vocês sabiam que beneficiários do Pro-Uni ou Fies, que talvez não pudessem cursar uma universidade sem o programa social de financiamento de educação superior para pobres, muitas vezes quando passam a frequentar as salas de faculdades e entram em contato com os filhos de camadas mais ricas da população adotam os argumentos e modos de pensar da camada mais rica?

    Fiquei sabendo disso há pouco tempo. Um professor universitário estava discutindo programas de governo que resgatam pessoas da pobreza e o próprio Bolsa Família em determinado curso universitário, e, não me lembro bem dos detalhes, mas do grupo de alunos mais conservador (que era maioria na turma) que estava sendo contra a continuidade dos programas, constava um aluno que era beneficiário do Pro-Uni ou Fies. O professor falou que um exemplo de acesso e de resgate era aquele aluno e perguntou porque ele era contra já que era beneficiado. O menino se ofendeu e disse que o professor adotou conduta de segregação em relação a ele. A história que nos interessa morreu aqui.

    Vejam, isso é chocante, mas é compreensível. O ser humano quer se agregar. Se uma pessoa está em um grupo conservador, ainda mais adolescente ou muito jovem, não adianta imaginar que ficará bradando contra o grupo com o qual quer se agregar e em que está em minoria. Alguns simplesmente adotam as idéias para serem aceitos no grupo e não digo que seja por má-fé. Esta pessoa e seu subconsciente funcionam no sentido de garantir que ela progrida no meio social e isso requer aceitação social.

    E veja que esta pessoa beneficiária do Pro-Uni, normalmente é a primeira da família a ir à faculdade e sua opinião política gozará de credibilidade ante seus familiares. Ou seja, esta pessoa multiplicará seu voto em sua família e seio social.

    Então, esse fato comportamental do ser humano, pouco ou nada avaliado, é responsável pelo fato de que muitas pessoas beneficiadas por programas de governo, mesmo sendo muito pobres, mesmo devendo, a nosso juízo de classe média, gratidão ao governo e dever até mesmo cerrar fileira com ele, em um grande curral eleitoral, simplesmente não votam no governo!

    E há outro dado interessante. Talvez pela sabida miscelânea de partidos e falta de clareza sobre programas de partidos políticos, os partidos não sejam muito valorizados pelo brasileiro em geral e também pelo pobre beneficiado por programas de governo. Fato é que a “marca” de alguns partidos (“PSDB para ricos” e “PT para pobres e servidores públicos”, por exemplo) que é cultuada pela mídia e faz parte da cultura sócio-política brasileira, mesmo que em mutação constante, aliado a outro fato social brasileiro interessante de que “ninguém gosta de perder”, resulta em que há pobres sim votando em “partidos de ricos”.

    Trato desta questão de forma direta e meio ridícula assim, porque é isto mesmo de que se trata a questão, é ridículo mas não necessariamente ruim. Isto se dá pela mecânica da multiplicação do voto. Quem sustentar bem seu voto para pessoas com menos educação tem razoável chance de convencê-la de que sua opção é melhor. Então pobres em contato com ricos ( o que é ótimo) podem sim serem convencidos a votar em partidos que não têm programa que beneficiem os próprios pobres.

    Nada disso que estou falando é estudado ou objeto de estudo, porque chega muito na carne social, trabalha com conceitos simples, mas reais e graves (pobre/rico, letrado/iletrado, influente/infleunciado), e tratado abertamente pode gerar desconforto e rusgas sociais. Mas é isto.

    É melhor (para a sociedade e assim é abordado socialmente e pela mídia) ver o quadro de forma mais natural, como se assim fosse, e o quadro é o seguinte: para o mal ou para o bem (hoje penso que para o bem) não há alinhamento político imediato de ricos e pobres a partidos com programas partidários que beneficiem mais suas respectivas classes. Isso é bom, pois evita o que esquerdistas cultuam como confronto de classes e mantém mais coesa a nossa sociedade.

    A consciêncioa social de ricos que votam em partidos com programas partidários que beneficiam pobres e a propensão natural dos pobres de quererem se mesclar às camadas mais abastadas ou simplesmente por serem convencidos por parte da camada rica a votar em partidos com programas que não beneficiam tanto os pobres (ou seja pobres que votam contra seus próprios interesses sem entender que assim o fazem), cria esta realidade assombrosa e interessante para nossa sociedade: temos exercício democrático e pluralidade de votos entre pobres e ricos de forma mesclada em partidos com programas partidários que beneficiam ricos e pobres.

    Isso tudo para eu dizer o que já vinha dizendo há muito tempo e que agora é confirmado, mesmo que por razões apresentadas no artigo com as quais não concordo, que o Programa Bolsa Família não influencia diretamente nas eleições e não cria curral eleitoral para o PT. Não foi assim na reeleição do Lula, não foi assim na eleição de Dilma e não foi assim na recente eleição municipal.

    Graças a Deus. Podemos resgatar dívida social sem criar problemas eleitorais e mecanismos de posse do poder pelo Governo. Tudo do melhor. Mas os jornais de direita, a mídia de mercado e o próprio PSDB devem ter ficado tristes em perder essa retórica para justificar derrotas eleitorais ou incentivarem  a troca de voto dos eleitores petistas para combater o “domínio da máquina eleitoral através de concessão de bolsas de assistência social”. Tadinho deles. Mas uma hora a verdade acabaria sedimentada.

    p.s.: texto revisto e ampliado

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