Análise Econômica Março/2013 – Inflação e Juros

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    A previsão do mercado para juros e inflação vem crescendo constantemente. A inflação cedeu bem de janeiro de 2013 para fevereiro de 2013. O s índices do IGP-DI, INPC e IPCA tiveram quedas de mais de 33% de um mês para o outro, como já informamos. Resultado da diminuição da tarifa de energia elétrica, contenção de correções de contratos administrados (aumento de ônibus em São Paulo e Rio de Janeiro, p. ex.), desonerações sobre IPI, PIS/Cofins, seja sobre linha branca (geladeira, ar condicionados, fogões, móveis), seja sobre carros, diminuição de juros bancários.

    Não foi pouca coisa que o governo tem feito para segurar a inflação. Incluindo segurar aumento de gasolina e diesel, que agora está sendo corrigido, a bem das finanças da Petrobrás. E com a resistência da inflação o governo ainda está tentando mais coisa, como a desoneração da cesta básica.

    Vejam, primeiro eu quero reconhecimento ao esforço do governo. Isso não é partidarismo. Isso é racionalização do problema e tem efeitos sobre conclusões sobre a evolução da inflação. O governo está se virando para controlar a inflação.

    Está certo o mercado ao dizer que a inflação não está cedendo? Mesmo tendo ocorrido queda de mais de entre 33% e 50% de índices de inflação? Infelizmente vou ter que concordar em termos. Dessa vez, apesar do apelo e da pressão do mercado por ver inflação maior para pressionar juros e receber valores fáceis através de juros selic, o IPCA fechou fevereiro em 0,60%. Caiu de 0,86% em janeiro/2013. Mas está acima de 0,45%, que é a meta que o BLOG PERSPECTIVA CRÍTICA entende bom para o País (o centro da meta de 4,5% ao ano exige meta do BC em 0,37% mensal).

    Só que há exagero do mercado na pressão por aumento de juros. Essa pressão até desesperada do mercado é porque todas as consultorias, ou a sua absoluta maioria (o Credit Suisse, do único Economista –Chefe que acertou dois anos contra previsões do mercado e do BC, Nilson Teixeira, está mantendo sua previsão de crescimento de 4% do PIB e Selic entre 7,25% e 7,5%), sugeriu inflação maior e crescimento menor, e estão confirmando, revisão a revisão, piora de cenário, nesse sentido. Se o quadro não se confirmar, a credibilidade delas fica como?

    Como a maioria está prevendo quadro de piora de inflação e de juros (aumento para ambos), se o quadro não se confirmar a incompetência ao menos ficará disseminada e a credibilidade individual fica protegida pela previsão de manada. Mas quem está certo, o Credit Suisse/BC/Governo ou o Mercado/Boletim Focus?

    Ao meu ver, o correto seria que a próxima reunião do COPOM de abril mantivesse o juros Selic em 7,25%, justamente para ver como a inflação real se comporta. A previsão de mercado é ruim. Ok. E isso influencia o ambiente econômico, previsões de investimento, etc… Ok. Mas previsão e confirmação de previsão são coisas distintas como estamos cansados de ver.

    Ninguém afasta o fato de que a safra recorde baixará preço de alimentos. Ninguém afasta o fato de que a redução da tarifa de energia ainda terá efeitos positivos sobre a inflação, apesar de o grande efeito ter sido no mês de fevereiro. Ninguém afasta o fato de que início de ano tem pressão inflacionária sazonal sempre pelo aumento com educação e outros serviços e contratos.

    O quadro é de que a inflação foi alta, mas que pode ceder. As causas de pressão da inflação podem estar em evolução de desaceleração. Só é possível se verificar com o índice de março/2013. A decisão de abril de 2013 do COPOM dependerá muito do índice de inflação que será apresentado em março de 2013.

    E isso é ruim, pois houve aumento de diesel e recentemente houve da gasolina. Isso vai repercutir em março. Nos EUA aumento de petróleo, se não me engano, fica de fora do cálculo da inflação.

    Outros elementos apontam baixa pressão inflacionária, como baixo aumento de salário mínimo para este ano. Isso arrefecerá pressão sobre a inflação de serviços que tem sido grande vilã nesses últimos anos, justamente pelo grande aumento do salário mínimo. Então, é mais uma pressão deflacionária.

    Mas nada disso está sendo enaltecido. A banca quer confirmar suas previsões cataclismáticas e tem que pressionar enquanto a inflação ainda se apresenta visível. Neste momento de início de ano, de ambiente inflacionário sazonal, e com alguns pontos reais de pressão novos, como aumento de gasolina e diesel.

    Veja que até a questão externa está favorável à baixa inflacionária: Europa não deslancha (Portugal, Grécia e Itália têm queda de PIB), EUA tem pífia melhora e continua com relação dívida/PIB recorde e desemprego alto (mas em vias de tímida melhora) e a China luta contra movimento especulativo imobiliário e não pretende aumentar seu crescimento previsto para 8% este ano, o que é um pouso econômico ou uma estabilização de pouso para uma economia que crescia a 11% ao ano.

    As famílias brasileiras continuam endividadas, a queda de juros bancários parou, artigo de hoje no Jornal do Commercio informa que as famílias paulistas estão e baixa histórica de intenção de consumo. Os aluguéis e prestações de aquisição de imóveis e carros estão estrangulando a capacidade de compra do brasileiro. Então de onde vem pressão inflacionária?

    Há mais um dado deflacionário: o nível de atividade industrial está em 84%, o que pressiona para investimento e aumento de capacidade de produção, o que pode elevar estoques e baixar preços. Então este ano pode ter um aumento de PIB por causa da necessária reposição de estoques que estavam alto em 2012 mas que diminuíram e exigem reposição.

    A inflação está resistente, sim. Mas ainda não dá para avaliar, ao meu ver, antes do fechamento do índice de março e até mesmo o de abril, que o momento de alta é pontual ou seja uma evidência e pressão altista inflacionária espraiada por toda a economia. Se a pressão fosse difusa mesmo, aumento de juros selic seria o ideal, pois não haveria mais como atuar pontualmente e obter efeito de controle inflacionário. Mas no momento, o que se vê é que há alguns motivos claros para a inflação de início de ano e que essas causas vão se desfazer, sem haver clara noção de motivo real de aumento de inflação que não a mera previsão de mercado, excetuado pelo Credit Suisse, em especial.

    A taxa inflacionária para os últimos 12 meses se aproxima de 6,31% e provavelmente excederá o teto de 6,5%, mas isto está acontecendo no primeiro semestre!! Ano passado isso ocorreu no segundo semestre e mesmo assim o índice de inflação fechou dentro da meta, o mesmo ocorrendo em 2011. Qual o desespero? A meta não é para todos os meses do ano, mas para o fechamento de dezembro de cada ano.

    Além disso, senhores, o dólar cedeu. Está em R$1,95 e assim ficará, o que tem viés de baixa da inflação, mais uma vez.

    O governo fica num impasse muito grande, pois tem que tentar estimular o crescimento e a criação de emprego, mas sem criar pressão inflacionária. Mas parece que o esvaziamento de estoques das indústrias ocorrido durante 2012 fará esse serviço pelo governo. Com necessidade de refazer estoques a indústria terá de produzir, contratar (apesar de os índices estarem baixos, já que demitiram pouco ano passado mesmo com queda de atividade) e, quiçá, até investir para aumentar parque industrial e diminuir o índice de atividade dos atuais 84% com tendência a aumentar, o que demonstra pressão para o limite de capacidade de produção para o parque atual.

    Enfim, há ainda uma dívida de 7% para o aumento da gasolina com a Petrobrás e o reflexo do aumento tardio de custo de transportes no Rio de Janeiro e São Paulo que ocorrerá durante esse primeiro semestre, mas as previsões para o segundo semestre são muito boas sob a perspectiva deflacionária. Seja internamente seja externamente.

    Sendo assim, apesar da resistência inflacionária, que poderia ter cedido mais, o tempo ainda é pouco para dizer que a inflação tem tendência de alta real, a nosso ver. As pressões atuais não são de longo prazo, são imediatas e o horizonte prevê perda de força de tendência inflacionária.

    Controlar a inflação é importantíssimo, mas aumento de juros selic não pode ser a primeira medida contra tendência não confirmada de alta inflacionária de caráter generalizado. Estão defendendo que a alta já é de caráter generalizado, mas vemos mais aumento de previsões, ao toque de 0,01% por vez (o que dá impressão de alta sem comprometer aqueles que prevêem esta alta ínfima), com pressões pontuais futuras (diesel, transportes) do que um quadro de tendência grave e permanente de inflação.

    Que usem medidas macroprudenciais antes de aumentarem juros selic, porque nós ainda temos uma das melhores remunerações de títulos da dívida pública em todo o mundo. E o dólar já está baixando. Aumentar Selic, neste momento, só criará problema, pois atrairá mais dólares, pressionará o câmbio artificialmente para baixo, prejudicará exportações e criação de empregos brasileiros e aumentará dívida pública (e lucro de banqueiros, claro). Baixará, lógico a previsão de inflação. Mas isso é necessário? O custo/benefício é favorável par esta medida? Achamos que ainda não.

    O Banco Central tem se mantido autônomo em relação ao Governo e ao Mercado desde julho de 2011, quando decidiu baixar a Selic e todo o mercado bradou contra. Depois foi reconhecido que estava correto o BC e todo o mercado estava errado!!

    Desejamos que o BC continue independente, não só do governo, mas também do mercado. E que tome medidas realmente necessárias para conter a inflação, utilizando aumento de juros selic sempre por último, como principal arma contra a inflação, usando antes medidas macroprudenciais e deixando primeiro a inflação real se mostrar com sua real tendência e não aumentando juros a toque de previsões interessadíssimas de mercado.

    p.s. de 14/05/2013 – texto revisto e rediagramado.

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