A diferença entre a política nuclear alemã e a brasileira

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    Hoje, 1º de junho de 2011, no Globo on line há o artigo intitulado “Usina nuclear: ‘Não é bom para a Alemanha, não é bom para o Brasil’, diz parlamentar alemã”.

    O artigo traz uma interessante entrevista com a Deputada Alemã do Partido Verde Sylvia Kotting-Uhl que vale a pena conferir no endereço:http://oglobo.globo.com/economia/mat/2011/06/01/usina-nuclear-nao-bom-para-alemanha-nao-bom-para-brasil-diz-parlamentar-alema-924582507.asp?nstrack=sid:1946803|met:100|cat:3226255|order:3#ixzz1O1ceAsos

    Selcionei o seguinte trecho “a deputada alemã do Partido Verde Sylvia Kotting-Uhl diz que a decisão do governo de Berlim de fechar as usinas atômicas pode ter efeito também na exportação de tecnologia e de equipamento nuclear para o Brasil”. Em seguida ela afirma que o seguro-crédito da operação para construção de Angra 3 não ocorrerá mais e que se energia nuclear não é boa para a Alemanha, não é boa para o Brasil. Também diz que a Alemanha substituirá a energia nuclear pela eólica e solar.

    Gente, antes de enaltecer a ousada decisão do Governo Alemão e adotar essa decisão para o Brasil, de forma automática e impensada, como nossa mídia e nossos cientistas e políticos (que gostam de aplausos no exterior) tanto se esforçam por fazer, quero tecer algumas considerações.

    Como a Alemanha, quarta economia mundial, com pib de mais de 6 trilhões de dólares, vai substituir a energia de suas 20 usinas nucleares? Em que tempo? Por qual energia? Isso não vai aumentar os custos de sua produção industrial e de serviços e consumo individual de energia elétrica de suas famílias?

    Bem, mas a deputada alemã disse que o aumento de custo será compensado com subsídios e benefícios fiscais… sim, em uma economia que está com 80% de relação dívida/pib (Brasil está com 37%) e é a principal economia do combalido bloco europeu, que exige mais e mais empréstimos para não sucumbir à crise financeira internacional de 2008/2009?

    Ah não, Mário… mas ela disse que as energias eólica e solar substituirão a nuclear e que se beneficiarão dos desenvolvimentos tecnológicos… Pergunto: quais desenvolvimentos tecnológicos? Eles ainda não existem. Se não existem, e a energia substituta é mais cara, como ficarão, renovo a questão, os custos de produção industrial e de serviços? E a exportação alemã? Competindo com EUA e China que são os produtores mais sujos (ecologicamente falando, mas não só) do mundo?

    Já se sabe que quem pretende aumentar suas usinas nucleares será a França para vender energia elétrica para a Alemanha. Mas mais a frente na entrevista a deputada alemã entrega parte dos reais motivos para acabar com a energia nuclear na Alemanha: fuga do investimento desta natureza. Veja: “(…) quando Merkel assumiu, resolveu prolongar o tempo de funcionamento das centrais, uma forma de aumentar a sua rentabilidade e agradar ao lobby atômico. Mas a nossa decisão de não construir novas usinas ela não mudou. Sem um mercado interno, as empresas começaram a ter problemas. A exportação é uma saída, mas a competição aí é enorme.”

    Veja, não duvido que por princípio o Governo Alemão queira se desfazer de suas usinas nucleares. Mas eles não têm nem terão submarinos nucleares. Além disso, a Alemanha pertence ao Bloco Europeu, protegido pela OTAN, que têm submarinos e muitas mais armas nucleares. Além disso, com certeza estão contando com a importação de energia nuclear da França. E além disso, não se sabe em quantos anos farão esta transição que a curto prazo é infactível. Convém mencionar que a Alemanha possui engenheiros nucleares, domina a tecnologia e pode prover sua civilização dos benefícios medicinais e na agricultura da tecnologia nuclear.

    Não há como dizer que uma opção dessas se aplica ao Brasil. Nós precisamos de uma política própria para exploração da tecnologia nuclear porque isto nos dará autonomia tecnológica e produtiva, para usarmos em medicina nuclear, em agricultura nuclear e em defesa (o que não temos e não temos quem nos proveja). E o único jeito de isto acontecer de forma sustentável é criando usinas nucleares que criem demanda por urânio enriquecido para termos um mínimo sistema econômico-produtivo nuclear sustentável.

    A declaração alemã é bonita, mas é eleitoreira, dificilmente implementável a curto prazo, ainda mais nas condições econômicas e fiscais desfavoráveis atuais e que se perdurarão por pelo menos de sete a dez anos, e não tem qualquer aplicação ou utilidade para o nosso País.

    Estão incólumes minhas análises no artigo sobre política nuclear brasileira constatáveis no endereço: http://perspectivakritica.blogspot.com/2011/04/politica-de-energia-nuclear-por.html

    abs

    p.s.: Por que os estrangeiros gostam tanto de dizer o que acham que é bom para o Brasil? É comovente esta preocupação com o nosso bem estar e o nosso desenvolvimento…

    p.s. de 21/10/2013 – sobre a política nuclear brasileira declarada em 2013, acesse http://bricspolicycenter.org/homolog/uploads/trabalhos/6011/doc/1387267207.pdf

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