Sobre a inflação de 5,99% em janeiro de 2011: Inflação de demanda x inflação de oferta

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    Demorou, mas chegou? A economia desandou? É o fim do mundo? É a demonstração de que está tudo errado e só depois da eleição ficou patente?

    Pessoal, vejo os comentários no Globo on line e vejo que o trabalho de se manter bem informado vai muito além de ler jornalzinho em determinado dia. As pessoas ficam maluquinhas com manchete e entram fácil no clima que o jornal quiser criar. É impressionante.

    Parte da culpa é dos jornais, que não informam imparcialmente e tentam fazer alarde com fatos totalmente compreensíveis. Mas parte é do leitor que se acomoda em somente ler um jornalzinho e transferir a responsabilidade da compreensão dos fatos para quem cria a manchete, a qual existe para incentivar a venda do jornal. Mas, pelo menos a vida dessas pessoas é mais emocionante, não é?

    Serei brevíssimo e colocarei aqui o que postei no Globo on line, na esperança de colocar os pingos nos “is”.

    A inflação de 2010 somente foi de 5,6% por causa da inflação de 10% dos alimentos no ano passado. Só que alimento depende de clima e isso nada tem a ver com inflação de demanda; tem a ver com oferta. Sem contar a inflação de alimentos, a inflação de 2010fechou em 4,6%, exatamente na meta. Isso foi publicado em jornal, mas a manchete ficou com o 5,6%, pois dá a impressão de que tudo desanda, cria pânico e vende jornal.

    Subir juros, controlar a inflação, isso é sempre para a inflação de demanda. Inflação de demanda depende de haver dinheiro na mão das famílias para consumo. Portanto, aumentar juros Selic, encurtar prazos de contratos de empréstimo, exigir aumento de compulsório de bancos e aumentar exigência de capital próprio de bancos em operações de empréstimo diminui dinheiro na mão das famílias, encarece crédito e diminui inflação de demanda.

    Mas nada disso adianta se o aumento do petróleo deriva de guerra ou clima de guerra no Golfo Pérsico, ou queda de produção de petróleo por decisão da Opep, ou desastre e quebra de produção por sabotagem industrial ou por furacões no Golfo do México. Nesses casos, há o aumento do preço do petróleo, ele repercute na inflação, mas é passageiro e só adianta esperar que seu efeito suma nos números, com o tempo.

    O mesmo acontece com produção agrícola. Se houve seca ou geada ou se as chuvas destruíram as colheitas, o que acontece? Haverá menos oferta desses alimentos e como a procura é a mesma de antes, pois a população não diminuiu na mesma proporção em que morreram os pés de alface, o preço dos alimentos aumenta. Essa inflação não é passível, como no caso do petróleo acima mencionado, de controle via Banco Central, ou diminuição de gastos do governo. É claro que se o Bacen diminuir prazos de empréstimo ou tomar as medidas mencionadas mesmo em caso de inflação aumentada por problemas com a oferta, pode haver uma diminuição de inflação, mas será sacrificando a demanda desproporcionalmente à necessidade, já que o problema foi a oferta! Inflação de oferta se resolve aumentadno a oferta: importando e/ou incentivando maior produção.

    A inflação de 5,99% referente aos últimos 12 meses, incluindo janeiro de 2011 tem embutida muita inflação de alimentos, petróleo e minério de ferro. O primeiro por problemas climáticos que afetaram a produção na China, Brasil, Austrália e Argentina; o segundo por tensão no Golfo Pérsico (Irã e agora esse problema com Egito se espalhando pelo Oriente Médio gerando dúvidas sobre regularidade de fornecimento de petróleo) e o terceiro com a contínua demanda de minério de ferro pela China, Índia e Brasil e recuperação de preços do minério de ferro no mercado internacional. Isso é inflação de oferta, portanto, não demonstra descontrole inflacionário no Brasil e não exige mais aumento de Selic ou medidas do Bacen. É trabalhar para normalizar a oferta.

    Em janeiro ainda há, todo o ano, acostumem-se, reajuste das escolas e dos contratos públicos de transporte (concessões de transporte público), portanto, isso ajuda a aumentar o índice de janeiro. Mas não ocorrerá de novo durante o ano. POrtanto, não alterou a curva inflacionária de médio prazo, mas só do mês de janeiro, com um pequeno reflexo em fevereiro.

    Em março (ver p.s. 09/05/2011), com a medida de corte de 50 bilhões do Governo Federal ou não, os índices de inflação começarão a diminuir, a não ser que haja mais desgraça climática ou guerra ou degradação de condições políticas no golfo Pérsico que prejudiquem a produção petrolífera.

    Agora, como o mercado trabalha só com números e os jornais, exceto o Jonral do Commercio, não tratam o tema de maneira mais objetiva, alimentando o pânico somente pela perspectiva de gastos de governo e descontrole inflacionário, o governo tem que anunciar medidas que desfaçam a desinformação causada pela mídia sobre inflação, pois esse tipo de desinformação, se não for combatida, pode alimentar a espiral inflacionária, pois pode mudar o comportamento das pessoas que achando que a inflação sairá do controle passaria a comprar e fazer estoque alimentício, por exemplo, gerando aí sim, inflação de demanda. Aí transforma-se inflação de oferta, que normalmente sumiria com a normalização das coisas, em inflação de demanda e, nesse momento, o jornal tendencioso que plantou vento, colhe tempestade e vira o jornal de visão de futuro, o Mr. Apocalipse, que sempre disse que tudo estava errado e que agora se confirmou.

    Então senhores e senhoras, não se alarmem. E anotem aí: inflação de oferta, ataca-se com mais oferta. Somente o núcleo de inlfação de demanda é que deve ser atacado com repressão de demanda, Bacen e contenção de gastos de governo. Resolver um problema com a solução do outro problema alivia, mas não resolve e sacrifica o lado econômico que está saudável.

    p.s.: Isto tudo sem contar a desvalorização do dólar que ocorre em todos os mercados mundialmente. Como quase tudo, principalmente commodities (soja, petróleo, carne e minério de ferro), é lastreado em dólares, se esse se desvaloriza, gera inflação em todos os mercados que negociam e consomem estes produtos. Para saber a real inflação brasileira, deve-se excluir o impacto da desvalorização do dólar, e o aumento pontual de alimentos e petróleo, fora da curva por problemas climáticos e políticos. E para janeiro, além disso, deveria se separar o impacto de reajuste de contratos de transportes e o reajuste de educação. Tem que haver a descamação da inflação, considerando o que é fora da curva e sazonal ou pontual com o que é inflação de demanda real. Não que se ignore os efeitos pontuais, mas para que se saiba as causas de aumento e se admita entender e tomar a atitude correta entre esperar passar o efeito inflacionário de causas excepcionais ou atacar causas de reais efeitos de demanda.

    p.s. 09/05/2011: A queda da inflação (índice mensal) começou em fins de abril, como apurado e publicado em início de maio de 2011. O IPCA marcou 0,77%, quando era esperado 0,89%. E a previsão para os próximos meses é de contínua queda do índice mensal até 0,45%, estabilizando aí. Nossas informações anteriores foram confirmadas, juntamente com Mantega, George Vidor e o Presidente do Banco Central Alexandre Tombini. Não se confirmou previsão do Boletim Focus (previsão do mercado condensada em Boletim do Banco Central)nesse mês abril de 2011, ou informação em mesmo sentido de recrudescimento inflacionário como apregoado por outros jornalistas econômicos do apocalipse. O Boletim Focus terminou corrigindo também a previsão para o final do ano de 2011 de 6,39% para 6,33%. Parece que terão de fazer outras correções durante o ano.. rsrs Mantega ganhou de novo contra o mercado. E nós, blog e cidadãos, idem.

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