Quem disse que brasileiro quer ser funcionário público? E quem disse que se quiser não pode sê-lo?

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    Senhores e senhoras, uma frase recorrente, da qual acho sempre graça, é a seguinte: “coitado do País em que os cidadãos tenham como objetivo serem funcionário públicos”. A outra é a seguinte: “o crescimento da economia e da sociedade tem que ser capitaneado pelo setor privado”. Adoro chavões. Eles são tão simples. E quem os recita o faz sempre com tanta certeza do absolutismo e inconstestabilidade do que diz, que sempre presencio um momento interessante e memorável.

    Paulo Guedes, entre julho e agosto de 2010, no Jornal O GLOBO escreveu um artigo sobre a primeira frase. Mas pergunto: quem disse que o brasileiro quer ser funcionário público?! O brasileiro, senhores, como qualquer pessoa normal em qualquer mundo, civilizado ou não, quer viver bem, o que pressupõe, no ideário comum, previsibilidade de fluxo financeiro (renda) e uma rotina que lhe garanta liberdade para conduzir sua vida pessoal, familiar e social. Por um acaso, isto, hoje, e não somente no Brasil, é obtido através do ingresso em carreira pública.

    Quem leu “Pai Rico, Pai Pobre”, escrito por Kiyosaki e Lerner, verá que o tema central se desenrola a partir da comparação que o autor Kiyosaki faz entre seu pai, titular de cátedra em Universidade Pública americana, servidor público, e o pai de um amigo, comerciante. A comparação se dá justamente sobre a previsibilidade da vida de um e as incertezas da atividade empreendedora do outro, culminando com a admiração da segunda, que leva o pai de seu amigo de uma condição inicialmente pior do que a do professor público, a uma situação infinitamente superior, sob a perspectiva material. O autor tinha dúvida entre as duas “carreiras” e se decidiu pela segunda, mais emocionante e com muitas possibilidades, as quais, naturalmente, ele realiza em sua plenitude, para o deleite dos admiradores do selfmade man.

    Mas a verdade, senhores é que se você perguntar a muitos empregados públicos bem posicionados se eles largariam seu emprego por um convite para ganhar o triplo em uma carreira semelhante da área privada ele aceitaria. Fiz essa pergunta a alguns amigos e eles aceitariam. Estão cientes de que correriam mais risco, mas com a diferença do valor recebido poderiam poupar e em 10 anos talvez não precisassem mais trabalhar para manter fluxo de renda de forma a manter o estilo de vida obtido.

    Todos querem é isso: previsibilidade de estilo e qualidade de vida no futuro. Quantos não querem simplesmente acertar na Loto? Quantos não alimentam a esperança de participar do Big Brother e virar um “Bam Bam”? Um Alemão? Bam Bam e Alemão querem ser funcionários públicos? Não. Todos querem dinheiro e previsibilidade de vida.. de preferência boa vida. Pessoas ricas querem ser servidores públicos? Normalmente não, a não ser quem tenha vocação.

    Portanto, o que ocorre é que todos vêem que as empresas pagam mal, aproveitando-se do excesso de pessoas bem qualificadas no mercado e que aos 45 anos estarão na rua! Essa é a realidade. Pois é mais fácil pagar a dois recém-formados para fazer o trabalho de um senior. A perda de qualidade é mais do que compensada pelo aumento de produtividade dos dois novos empregados que não têm filhos para manter.

    Mas o serviço público tem outro objetivo. Seu interesse precípuo não é espoliar o máximo o trabalhador ao mínimo custo. Tem de manter a continuidade dos serviços públicos e manter os funcionários de qualidade porque é difícil repô-los. O procedimento de concurso público é longo, caro e desgastante e um bom funcionário é mais do que difícil de conseguir, justamente porque a falta de limite de remuneração na área privada, além do glamour alimentado por filmes e mais filmes americanos (A Firma, Wall Street, Homem de Família…) em que todos têm sucesso, atrai muitas pessoas de qualidade para a área privada. Essa semi-ilusão da área privada muitas vezes atrai até funcionários públicos que alimentam às vezes a idéia não de permanecer nos quadros, mas usá-los de degrau em sua carreira. Mas muitos percebem que poucos têm sucesso meteórico na área privada, e muitas vezes são preteridos por parentes de chefes ou por conhecidos de círculos da rede de negócios da empresa, além do risco de desemprego aos 50 anos, independente de sua competência. Estes concluem que, se ingressarem no serviço público, podem ter uma remuneração razoável e não serão descartados ao ficarem mais velhos e com filhos para criar. A carreira pública tem limites, mas é mais estável.

    Por que ao invés de reclamar dos investimentos na melhoria dos quadros do serviço público, os grandes homens da área privada não investem em atrair os brasileiros para a área privada? Por que não oferecem salários melhores? Por que não aceitam investir mais pesado e agressivamente em seus funcionários? Por que não passam um mínimo de consideração quando seus funcionários ficam mais velhos e mostram que eles têm uma carreira pela frente? Por que ficam chorando que o mercado está com poucas pessoas qualificadas, quando desprezam jovens de 30 anos com doutorado que não têm experiência e jovens senhores de 50 anos que têm muitíssima experiência mas não têm pós-graduação? Se a pessoa com 30 anos tem doutorado, é óbvio que não trabalhou, certo? Se nos anos de hoje a pessoa tem 50 anos de idade ou 35 anos de carreira, isso deve ter algum valor mesmo que a pessoa não tenha tido a oportunidade de fazer pós-graduação, não é mesmo?

    Querer ser servidor público ou da área privada não é fator de pena para País nenhum. Pena é não haver investimento em funcionários públicos e privados. Pena é não haver respeito pela idade dos trabalhadores. Pena é exigir condições inexigíveis e impossíveis de serem satisfeitas por milhões de brasileiros. Pena seria se além de não ter esperança de alguma previsibilidade e dignidade em trabalhar na área privada, o trabalhador brasileiro não tivesse também na área pública. Lucro todos querem, mas dividir o resultado com os trabalhadores não. É triste.

    E quanto a dever o setor privado levar adiante a Nação, eu digo: onde estava a área privada entre 1940 e 1970? Neste período, em que precisávamos de usinas de aço, mineradoras, petrolíferas, empresas de telefonia, empresas de energia elétrica, centros de desenvolvimentode pesquisa, bancos que financiassem essas obras e construções, onde estava a área privada que deve levar e encabeçar o desenvolvimento da Nação Brasileira?

    Pois é, gente. Tudo foi construído com verbas públicas, com empresas públicas, pelos governos federal e estaduais… a área privada é necessária onde possa ou tenha o interesse de investir. Ninguém quer investir em algo de custo elevado e retorno baixo por longos anos ou décadas, mas a sociedade precisa desses serviços e bens de custo alto e de retorno baixo por décadas.

    Então, vamos parar de endeusar a área privada e cobrar dela o que é possível e respeitar a área pública e entender a sua importância. Todos devem trabalhar juntos, cada um dentro do que pode e do que deve, com reconhecimento das particularidades que cercam cada esfera (pública e privada), a bem de todos e do País.

    Por que a Petrobrás não tem aqui a concorrência da Shell e Exxon Mobil? Por que eles não querem investir para competir, só. Por que o Banco do Brasil é o maior Banco do Brasil? Por que a Caixa Econômica é a maior financiadora de aquisição de casa própria? Os bancos particulares não poderiam baixar seus lucros e juros e concorrerem mais por market share? Sim. Mas não o fazem. Área pública não é refúgio de incompetentes, senhores. É mérito para quem deseja seguir a carreira pública, procurando dignidade de vida e com bons salários e previsibilidade de manutenção de emprego a seus funcionários. Em troca da existência dessa opçao de carreira, hoje ainda interessante, temos comprometimento dos servidores e funcionários que resulta em bons serviços e crescimento das instituições. Cada um na sua.

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