Perguntas Complexas, Respostas Publicadas 8 – Sìndromes de Brasileiros – Resposta ao Daniel

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    Pessoal, Daniel fez excelente pergunta que gerou boa resposta que complementa o artigo sobre Paradigmas Sócio-culturais -comportamentais”, acessível em http://www.perspectivacritica.com.br/2012/02/paradigmas-socio-culturais.html?showComment=1363694099042#c3889032877498871122.

    Sendo assim, como ficou uma resposta gigante enviada via emial e o assunto ficou ótimo, compartilho com vocês.

    Pergunta do Daniel Positivo:

    “Bom dia, Mário Cesar.

    Parabéns pelo seu artigo, muito esclarecedor e informativo, além de ser leitura necessária para nossa população.

    Poderia elencar as síndormes da cultura brasileira que tem conhecimento?

    Ministro workshops para o desenvolvimento de líderes e abordamos muito a questão cultural do brasileiro em relação ao tema, em especial as características do paternalismo, do “amigão”, que não consegue ser assertivo nem dizer “não” e do coletivismo, no qual pessoas evitam se destacar para não sair do grupo.

    Caso queira podemos conversar mais à respeito, meus contatos daniel@dimensaohumana.com facebook: danielpositivo

    Abs!”

    Resposta do BLOG:

    Amigao, vou compartilhar a resposta que dei a você por email, pois acho que ficou bem legal e todos os leitores deveriam ter acesso.

    “Daniel, para falar sobre todas as síndromes de brasileiros seria difícil. Se você for procurar muitas, encontrará muita síndrome completamente natural em todo ser humano, em especial todo ser humano oriundo de sociedade ocidental, cristã e capitalista. Vale a pena ler “Como fazer amigos e Influenciar pessoas” de Dale Carnedgie para os temas que você ministra (tenho certeza que você já conhece). “Auto-Engano” de Eduardo Gianneti (não tenho certeza do autor, não estou com o livro aqui) e “Tornar-se pessoa” de Carl Rogers.

    Mas sobre síndromes de brasileiros, posso te dar as seguintes dicas: somos latino-americanos. Somos descendentes de ibéricos, negros e índios. Negros e índios foram aculturados e seus mitos e lendas praticamente apagados do arcabouço imediato brasileiro. Quem conhece cultura africana? E cultura indígena? Quais são seus valores que são irradiados na sociedade brasileira?

    De pronto digo que dos indígenas parece que o asseio (banho em desproporção a outros povos) e o culto ao coletivo e à amizade parecem ter impregnado nossa cultura. O tema é difícil pois você não acha muitos livros sobre isso. Posso te indicar “Brasil na América” de Manoel Bonfim. Ele conta uma história brasileira que considera a psicologia dos povos que formaram a sociedade brasileira e compara com a psicologia dos povos que integraram a américa espanhola, por exemplo. A escrita sobre a história considerando aspecto psicológico é difícil de ver. Um exemplo excelente deste exemplo de abordagem da história pode ser encontrado em Tito Lívio, no livro “A Monarquia”, publicado pela Editora Crisálida.

    Tento fugir de te dar conceitos fechados, como você percebe. Mas te darei algo concreto. Fujo, pois não posso dar os conceitos fechados, pois são sempre uma leitura minha, assim como você pode ter a sua. Assim, as leituras para exercício da visão do espírito social é importante, como naturalmente você sabe.

    Mas considerando nosso arcabouço cultural, posso dizer que as síndromes mais claras são a do “fidalgo”, já explicada; a da inversão da postura da vítima (você é culpado porque te assaltaram, pois você deveria ter fechado o vidro do carro no sinal – isso é um absurdo pois o bandido é que não deveria te assaltar); o culto ao coitadinho (deriva de nossa educação cristã, é um grande mal junto com as máximas “dê a outra face”, por exemplo), e a síndrome de vira-lata (não se crê que o brasileiro possa ir além, fazer mais, inovar, ser líder, apontar o caminho e dominar).

    Os casos que você deu, sobre o amigão e o do coletivismo, como você denomina, na verdade, como todas as síndromes humanas podem se manifestar de certa forma aqui, mas não vejo como síndromes próprias do brasileiro. São reflexos naturais do ser humano que quer ser aceito. Isso é semelhante em muitas sociedades. É o mesmo caso pelo qual em nossa sociedade que cultua o magro, o gordinho ser obrigado a vestir a roupagem de simpático, alegre e amigo para ser aceito. E o avesso pode ser o caso da menina bela que não sorri. Não sorri porque não precisa ser amável para atrair simpatia e às vezes sendo amável até atrai problemas!! É muito interessante isso. Tanto a simpatia do gordinho quanto a sisudez da bela podem ser atitudes defensivas. Mas sobre isto estamos numa seara mais psicológica humana normal e comum do que síndrome eminentemente brasileira, a meu ver.

    Para você falar de síndrome brasileira, você deverá buscar um traço cultural brasileiro que justifique a síndrome e conseguir mais ou menos de forma tranquila demonstrar que isso ocorre no Brasil diferentemente do que ocorre em outros países. Mas toda síndrome humana é válida para seu tipo de palestra sob a perspectiva de atuação no trabalho, conhecimento pessoal sobre limites, e são todas importantes. Mas você me pediu as síndromes brasileiras e tento ver as somente de brasileiros e não as normais que você já com certeza viu e ponderou. Foi o que você me pediu.

    Assim, a questão do fidalgo, como expus, creio ser síndrome brasileira. Como você pode abordar isso em sua palestra, é contigo pois você é quem faz o roteiro da abordagem, define finalidades e objetivos didáticos. Toda a síndrome dá margem a muitos reflexos na seara pessoal, familiar, cívica e no trabalho. Abordar tudo isso aqui seria extenuante e você pode fazê-lo. Se quiser um encontro sobre o assunto também estou à disposição.

    Um caso grave é a influência da educação cristã que acaba influenciando muito fortemente nosso comportamento e tornando inaceitável você poder por exemplo discutir sobre aumento de salário e aumento de salário de servidores, pois “dinheiro é sujo”, como a bíblia diz. A bíblia diz que você deve viver com o suor do seu trabalho e não cobrar juros, por exemplo. Isso acaba limitando nossa sociedade de querer mais como as sociedades protestantes não experimentam, já que o lucro é justificado pela religião cristã protestante.

    “Dar a outra face” também é outro conceito cristão de boa conduta que é generalizado e tornado valor absoluto,  e impede reação e cria toda uma sociedade de vacas de presépio, que somos nós, aturando abusos, absurdos de políticos e não exigindo nada, não fazendo passeatas como europeus fazem não participando de sindicatos…

    O culto cristão à “figura do humilde” é outra lástima que paralisa e dá substância à síndrome do culto ao coitadinho, incentivando que todos sejam menores e que sejam admirados por essa falta de ambição. Como são admirados, não há incentivo a crescer, pois no fundo, todo homem busca admiração. Se a tem, nada mais fará para que possa tê-la. Lógico que não se quer transformar nossa sociedade na americana que é o oposto a tudo isso que escrevo e que é nosso e que nos faz mais felizes.. mas nem tanto ao mar e nem tanto à terra!!

    O culto à lenda de Golias e David também acabou deturpada na compreensão popular, através de pregações e se admira tanto o pequeno ter quebrado o grande que não se admira mais quem é grande!! O grande é corrupto, como Golias. O grande é inimigo. O grande não pode ser admirado. E Eike é odiado por muitos. Mas isto esconde o fato de que os que o odeiam muito mais o invejam e o fato é que sua grandeza ofusca o invejoso e traz à tona para ele mesmo, o invejoso, o quão pequeno ele é. E a maioria dos que gostam dos humildes, gostam porque o humilde é menor do que ele e assim ele se sente superior e podendo exercer sua magnanimidade reconhecendo que o outro “é humilde” , “que bonitinho”. O humilde, que talvez não tenha muita chance de ser outra coisa, é identificado socialmente como “o humilde” e admirado por essa característica, então forma-se a simbiose e os dois vivem felizes em sociedade.

    Enquanto isso os de grande espírito, mesmo que nunca tenham realizado grandes coisas, admiram os grandes realizadores, não os invejam. É preciso ter grande espírito para admirar alguém maior do que você. É preciso ter coração puro e não ser invejoso. Veja que a Bíblia também cultua os de coração puros e condena a inveja, mas não é essa a leitura que prepondera em nossa sociedade. Prepondera a condenação ao lucro, ao aumento de salário, a desejar algo maior. Prepondera o culto a ser cordeiro de Deus, vítima, conduzido, coitadinho.

    É muito uma distorção social da visão dos exemplos de conduta bíblicos sob uma ótica paralisante cristã. A ótica não é paralisante porque é cristã, mas é uma ótica cristã paralisante que influencia nossa sociedade. Agora, vai falar sobre a influência da religião sobre o comportamento social!! É muito delicado.

    Quer fazer algo novo? Quer indicar síndromes eminentemente brasileiras? Procure na Bíblia e pense no reflexo paralisante de vários modelos de lendas e parábolas. Retire o conteúdo religioso, pois é tabu na nossa sociedade e ninguém te entenderá se você falar como eu falo, monte as síndromes de forma laica e você estará tratando as síndromes eminentemente brasileiras, além do que já disse, ao meu ver.
    Espero ter ajudado.
    Abs
    Mário César Pacheco”

    Daniel, foi fantástica a oportunidade de troca de idéias!! Obrigado por acrescentar ao Blog amigão!

    Fique sempre à vontade.

    p.s.: naturalmente os negros contribuíram para formar arcabouço cultural brasileiro. Samba seria inimaginável sem a contribuição negra, ou a umbanda.. mas o tema é sobre síndromes comportamentais, desvios de condutas negativos.. nota-se que os valores sociais que levam a estas “condutas e psiquês prejudiciais ao brasileiro” nada têm a ver com contribuições culturais indígenas ou africanas. Neste sentido, a abordagem minimalista da influência indígena e africana sobre a formação de Síndromes e Paradigmas Sócio-Culturais-Comportamentais brasileiros, sob perspectiva negativa destas mesmas síndromes e paradigmas. A influência positiva no comportamento do brasileiro, que há, seja da cultura indígena, africana ou da própria religião cristã, não é objeto do artigo e do estudo apresentado.

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