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Necessidade de Política Industrial, dívida pública confortável, câmbio independente de superávit primário, diz Economista da USP ao Globo

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Excelente artigo econômico o publicado pelo Jornal O Globo no dia 14/02/2014, página 28, intitulado “Economia continuará em ritmo modorrento”. É disso que falamos quando exigimos uma maior neutralidade do Jornal sobre o tema. Publique seus artigos de visão financista. Ok. Mas publique junto algo desse gênero e o crime informativo começa a se desfazer e a qualidade informativa disponível ao leitor a melhorar.

Esse artigo é subscrito pelo Blog em 100%. Neste artigo, José Francisco de Lima Gonçalves, professor da FEA/USP e economista-Chefe do Banco Fator emite sua opinião sobre o ritmo da economia para 2014, ressaltando que o Brasil não está mal nos principais elementos estruturais econômicos e financeiros, mesmo em comparação com a Turquia, que relatórios internacionais apontando piora do quadro fiscal, econômico e financeiro brasileiro estão defasados, que análises econômicas exigindo mais superávit para equilibrar o câmbio estão errados, pois o mundo está mudando e o câmbio é um reflexo desta mudança, e que precisamos de política industrial, como EUA, Itália e Coréia, em que o governo deveria, sim, ajudar grupos econômicos com capacidade de absorver tecnologia  e avançar, trazendo benefícios de inovação, emprego, inserção internacional da produção brasileira e crescimento econômico. Tudo em que acreditamos no Blog Perspectiva Crítica.

Selecionei os seguintes trechos:

– Quanto a dever o mercado optar em que investir ou dever o governo induzir crescimento em alguns setores:

” Não é possível ter uma economia dinâmica que produza só minério de ferro e soja, nem que se produza de A a Z. É uma coisa no meio do caminho. Se deixar para o mercado escolher, vai ser soja e minério. Sou contra, quero uma cadeia industrial. (…) Óbvio que não é carregar os caras no colo. É uma escolha de política industrial onde tem capacidade de atrair, absorver e desenvolver tecnologia. (…) (Isso) tem no Japão, na Coréia, na Alemanha, na França, na Itália e nos EUA, mas não pode ter no Brasil.”

Nós do Blog Perspectiva Crítica sempre defendemos que país rico é o país que tem indústrias. Turismo nõa gera cadeia de produção e nem os melhores e mais bem remunerados empregos do mundo. Indústrias, inovação, pesquisa, sim. Nós sempre defendemos que o mercado não pode determinar nada. O mercado deve agir em ambiente econômico livre, mas apoiamos que o governo incentive segmentos econômicos mais avançados e que possam gerar inovação em pesquisa e na economia, inserindo-se cada vez mais no mercado internacional. Não é escolher campeões, mas apoiar sim os melhores para atingirem seu máximo potencial econômico, com reflexo para a economia brasileira e para a sociedade brasileira.

– Quanto à exigência de mercado de mais superávit para compensar a pressão altista do dólar:

” (…) China anda mais devagar, o mundo também. (,,,) A situação lá fora está feia e é difícil cuidar do câmbio. Acho ridículo os colegas (economistas) cobrarem o dever de casa (do Brasil). Precisaria de 10% de superávit (fiscal) primário para cuidar do câmbio. Quando há pressão de desvalorização global, não se pode dizer que o problema é dos emergentes.”

O Blog Perspectiva Crítica sempre sublinhou que movimentos de capital de escala mundial não podem ter seus efeitos controlados internamente no Brasil por super arrochos fiscais e fantásticas altas de juros Selic. Sempre defendemos que diante de alterações nas condições de investimentos e crescimento econômico no mundo, seus reflexos negativos para a economia brasileira deveriam ser administrados por várias medidas fiscais e de política monetária sempre com a finalidade de garantir empregos, manter crescimento econômico, evitar recessão e manter equilíbrio fiscal. Compatibilizar tudo isso não é fácil e exige opções de escolhas a cada vez que as ondas de capitais internacionais vêm e vão circulando pelo Brasil e pelo mundo. Inclusive, depois da crise de 2008, pela primeira vez, desde que foi criado, o FMI defendeu contenção de fluxos de capitais… rsrsrs  Quer dizer, quando EUA e Europa estavam bem, os colapsos financeiros de subdesenvolvidos, dentre eles o Brasil, e as fugas grotescas de capital que desequilibravam a economia local não podiam legitimar políticas de contenção de fluxo de capital para estes países subdesenvolvidos… mas quando ocorreu o mesmo com os países do centro do capitalismo, aí pode… rsrsrsrs
As escolhas para gerência da economia do Brasil não devem satisfazer plenamente o mercado, pois o mercado quer dinheiro e não projeto de nação. O economista Gonçalves está corretíssimo em desconstituir esse pensamento único publicado de que o problema do câmbio atual é reflexo de incompetência econômica da política de governo e de dizer que a satisfação da exigência de mercado demandaria 10% de superávit fiscal… quem vai fazer isso?!?! E as demandas de investimento estrutural e na educação e saúde do País?!?! Devemos parar tudo e entrar em recessão porque o mercado assim exige? Claro que não. Temos de criar outros meios de financiamento para o País. Isso está sendo criado: um BNDES entre Rússia, Índia, Brasil e China (acho que África do Sul também. Isso será um instrumento que equilibrará melhor as necessidades de financiamento de nossos países, não independentemente do mercado, mas a par do mercado e do FMI.
Enquanto isso, entendemos as origens dos movimentos de capital e adotemos medidas razoáveis para diminuir impactos negativos sobre nossa economia, mas sempre tencionando favoravelmente para obter crescimento econômico, defesa de empregos, inflação controlada e responsabilidade fiscal, tanto quanto possível do melhor de cada um desses itens, colocados lado a lado e em efeito de pesos e contrapesos reflexivamente uns com os outros.

 – Quanto a visão do Banco Central dos EUA de que o Brasil é vulnerável:

“Relatórios desse tipo têm defasagem. Nem a reação da Turquia nem a do Brasil estão lá. (…) O Brasil está muito melhor (em geral e em relação à Turquia) do lado fiscal, de contas externas, de financiamento externo. Aqui há problemas de fluxo da dívida pública, não de estoque (que cai gradualmente – grifo do Blog Perspectiva Crítica). A situação da dívida é confortável se comparada com o resto do mundo.”

Bem, senhores e senhoras… o que me dizem? Essas palavras parecem ser sobre um Brasil à beira da bancarrota, como pregado diuturnamente pela grande mídia? O que sempre dissemos a respeito da condição fiscal e econômico-financeira do Brasil?

Nosso maior interesse é alertar pra o fato de que grande parte do que é publicado sobre economia na grande mídia está equivocado. Essa ótima publicação de um profissional conceituadíssimo da área econômica e que, não falando de juros, pôde expressar sua opinião de que devemos ter uma política industrial definida, que ela deverá passar pelo apoio a setores desenvolvidos de nossa economia e não somente pela produção e exportação de commodities, que a desvalorização do real se dá em um movimento mundial de desvalorização de moedas em face do dólar (sabemos que por conta da recente alteração do FED em deixar de injetar 20 bilhões de dólares mensais no mercado) e que alterações mundiais não podem simplesmente serem compensadas internamente em sua totalidade (não dá pra fazer superávit primário de 10% do PIB para compensar a queda de fluxo de dólar em direção ao Brasil). Também ficou claro que relatórios internacionais não estão nem atualizados nem tratando corretamente nossas imensas vantagens competitivas em relação à Turquia e aos demais países emergentes ou do centro do capitalismo mundial.

Enfim, tudo o que o Blog Perspectiva Crítica sempre defendeu foi corroborado por alto profissional de mercado. Fico feliz de antecipar para os leitores do Blog a realidade dos fatos que posteriormente acabam, mais cedo ou mais tarde, publicado, mesmo que porções homeopáticas, na grande mídia. Pelo menos em relação a esta publicação, devo parabenizar o Jornal O Globo.

Com publicações dessas, em que uma visão não financista mas econômica em amplo grau se apresenta, a dialética em sociedade é feita de forma mais honesta, clara, transparente, possibilitando o debate real e eficaz e a bem da sociedade e economia brasileira.

p.s. de 07/03/2014 – texto revisto.

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