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Meu Livro Favorito — parte 4 [por Ana Lúcia Merege]

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Muitos livros marcaram minha vida de um jeito ou de outro, mas se eu tiver de citar apenas um será “A História Sem Fim”, de Michael Ende. Seu herói é Bastian Baltazar Bux, um menino gordinho e solitário que não resiste à tentação de “pegar emprestado” um livro na loja do misterioso Sr. Koreander. Conforme avança na leitura, vai se envolvendo nas ações do herói, Atreiú, que deve salvar o reino de Fantasia de ser engolido pelo Nada. Por fim, o próprio Bastian entra na história e salva o reino da destruição.

Essa primeira parte do livro, que foi adaptada para o cinema, é muito gostosa de ler, mas a continuação (que nada tem a ver com as duas sequências feitas para as telas) foi o que realmente me tocou. Bastian é convidado a formular uma série de desejos, a partir dos quais aquela terra mágica vai sendo reinventada, mas ― a exemplo do que acontece com os irmãos de Wendy e os Meninos Perdidos, em Peter Pan ― cada um daqueles desejos vai apagando sua verdadeira identidade. Recuperá-la é um trabalho difícil, mas Bastian finalmente consegue ― e volta para seu próprio universo, deixando que Atreiú, desde sempre habitante de Fantasia, viva por ele as aventuras que lhe restam por viver.

Para mim, que a li na adolescência, a história serviu como uma espécie de despertar. Eu conto histórias desde pequena, jamais deixei de criá-las, mesmo em períodos em que, por uma razão ou por outra, não as escrevia. Já fui, por isso, rotulada de “louca”, “infantil” e até mesmo “esquizofrênica” em mais de uma ocasião. A alegação era a de que eu “vivia em outro mundo” e “não separava a fantasia da realidade”, coisa que, olhando para trás, posso afirmar com naturalidade que não acontecia. Mas gerava pressões, mesmo que bem-intencionadas, por parte da família; e ao mesmo tempo muita agitação interna e indagações que eu fazia a mim mesma. Valia a pena insistir em criar histórias e, principalmente, em escrever? Eu estava perdendo tempo? Será que algum dia eu escreveria alguma coisa que “prestasse”?

Ao ler o livro de Ende, eu tive uma espécie de insight: a consciência de que um mundo fantástico, maravilhoso, existia dentro de mim, e que eu podia criar o que quisesse, isso não me impediria de ter uma identidade própria e uma vida no “mundo real”.  Foi um convite e um incentivo a me amar e a me respeitar mais, e a buscar aquilo que eu queria, mesmo que fosse o melhor de dois mundos.

E foi o que eu fiz.

***

Ana Lúcia Merege é escritora e bibliotecária. Publica pela Editora Draco a série de fantasia Athelgard, iniciada por O Castelo das Águias (2011). Na mesma editora, organizou as coletâneas Duendes, Excalibur e Magos e coorganizou Medieval, sendo a primeira vencedora do Prêmio Le Blanc 2020 e as duas últimas vencedoras do Prêmio Argos 2017 e 2018. Ganhou o I Prêmio  Odisseia, na categoria Narrativa Longa Juvenil, por Orlando e o Escudo da Coragem (2019). Tem contos em coletâneas e revistas. Como pesquisadora, publicou Os Contos de Fadas: origens, história e permanência no mundo moderno, pela Editora Claridade (2010), além de vários artigos. Contatos pelo blog http://estantemagica.blogspot.com/

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