Grande mídia fica órfã de seus modelos estrangeiros

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    Estou penalizado. Com os países centrais do capitalismo mundial indo para o buraco, como ficará nossa grande mídia brasileira? Como poderá a grande mídia comparar o Brasil e apontar todos os seus “recorrentes”, “eternos”, “naturais”, “endêmicos” e “inafastáveis” erros em relação ao “mundo rico”?

    Como ficam nossos jornalistas americanófilos? E os eurocentristas? Como ficam nossos analistas econômicos e políticos que nunca viram o Brasil como ele é e nunca tiveram o foco em ajudar o desenvolvimento do país mais do que vender notícia com fáceis comparações diretas entre os números das economias centrais e da nossa economia?

    Essas comparações nunca foram de nível. Essas comparações nunca dissecaram nossa situação diferente de necessidades em investimentos públicos. Essas análises nunca tiveram o foco na melhoria da qualidade de vida da população a ser obtida no menor tempo possível, no resgate da pobreza. Era sempre “controle inflacionário” a qualquer custo e comparação com os números de pib, renda percapita e inflação com países que já tinham feito todos os investimentos em serviço público, que já ofereciam a seus cidadãos qualidade de vida..

    Essas comparações eram sempre superficiais e a autoridade que a situação visivelmente melhor daquelas civilizações, frente à nossa, garantia à pretensa correção de seus argumentos, sempre emprestou grande credibilidade e lógica às suas primárias conclusões apresentadas de “controle de gastos” e “controle da inflação”.

    É claro que nós sabemos que jornalista não é economista (George Vidor, exceção, é.. e o nível é outro da sua informação porque ele considera sua imagem de economista). Mas eles têm responsabilidade em incentivar o fluxo de informações e o debate em relação a como o país poder atingir suas metas em ser maior, mais rico e melhor para todos, sejam indivíduos, sejam empresas.

    Bem, o trabalho fácil para as empresas de mídia, principalmente da grande mídia, acabou. Seus magnânimos, lindos, brilhantes e estrangeiros modelos de países sucumbem à maior crise econômica mundial desde 1929, iniciada em 2008 e com reflexo forte neste ano de 2011 (culpa da quase total desregulamentação de mercado praticada por lá).

    Pibs europeus e americano ficarão estagnados por anos. O Japão, ao atingir 100% de relação dívida pib nunca mais apresentou crescimento econômico considerável e nunca mais baixou sua relação dívida/pib, estando hoje em 250%. Como eu já falava há meses, limpar a relação dívida/pib dessas economias demorará uns 10 anos, com toda a certeza, a não ser que os bancos que carregam essas dívidas aceitem calote, como ocorreu com a Argentina. Aí é mole descer relação dívida/pib à metade. Isso não foi o que o Brasil fez. O Brasil pagou tudo. Modelo.

    Espero que mais do que chorar por seus países-modelos, os jornalistas e analistas da grande mídia finalmente possam se desapegar dessas economias vacilantes, parem de admirar estrangeiros (além, muito além do que mereçam) e passem a olhar mais criticamente o Brasil. O olhar crítico pressupõe apontar reais erros e enaltecer os acertos. Significa não entrar na onda da visão estrangeira sobre o Brasil, como sempre fizeram, e dar crédito à própria visão brasileira sobre nossa situação. Significa não querer repetir automaticamente aqui o que ocorre no estrangeiro. Será não escrever com o foco em ser entendido pelos estrangeiros sobre a nossa realidade, segundo a perspectiva deles, mas apresentar a nossa, para que nós entendamos a nossa realidade, entendam eles ou não.

    A minha impressão muitas vezes era a de que os nossos “jornalistas” no exterior tinham grande interesse que suas perspectivas fossem compreendidas pelos jornalistas e analistas estrangeiros, para ele ser admirado lá fora. Noticiar como os estrangeiros nos vêem é uma coisa, fazer análises e apresentá-las a nós, segundo a perspectiva estrangeira, como se fosse análise sua, ou seja, de um brasileiro para nós brasileiros, é triste.

    Agora, órfãos de seus ídolos americanos e europeus, talvez esses jornalistas passem a olhar mais o Brasil como é, já que não poderão apontar a luz estrangeira. A luz agora é nossa. O modelo agora é o Brasil. E melhor, já que a correção de visões pessoais maduras é mais dífícil: os novos jornalistas não terão mais o centro do capitalismo como modelo e se desenvolverão em ambiente mundial em que o Brasil somente tende a crescer e ser cada vez mais admirado e modelo para todo o mundo capitalista. Uma geração de jornalistas com autoestima em ser brasileiro está sendo fermentada nas universidades.

    Não acredito que os antigos jornalistas admiradores de estrangeiros o fossem por falta de brasilianidade. Acho que queriam que o Brasil fosse como os países estrangeiros de primeira linha, mas erraram em abandonar uma perspectiva autônoma brasileira sobre nossa realidade.

    Espero que corrijam e ajudem o Brasil nessa nova fase. Ajudem-nos a prestar serviços públicos de nível a todos os brasileiros, como ocorre na Europa. Ajudem-nos a atingir metas de crescimento do PIB, de diminuição da relação dívida/pib, aumento de salário-mínimo aos níveis europeus, de profissionalização dos servidores públicos, de diminuição de juros Selic e tudo de melhor, com controle inflacionário.

    Esses novos tempos exigem mais de nossos jornalistas. Já que ficaram órfãos de seus modelos, por favor, adotem o Brasil.

    p.s. 14/08/2011: texto revisto e ampliado

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