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Entrevista com o historiador Daniel Araujo dos Santos

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1. Qual(is) foi(ram) sua(s) inspiração(ões) para estudar História?

As inspirações foram meus professores do CAP ― UERJ, que desde o início mostraram-se muito criativos nas provas, aulas e projetos. Chegando no terceiro ano, fiquei muito admirado com a trajetória do Daniel Aarão Reis Filho, que depois veio a ser meu orientador na UFF. Luis Antônio Simas, hoje autor consagrado, me deu aulas no curso pré-vestibular também. Acho que tive boas fontes de inspiração. : )

2. Em 2014 você coordenou o curso “Futebol e Relações Internacionais”. O futebol e os esportes são muitas vezes usados como forma de criar vínculos entre países ou de apaziguar a relação entre eles através de um conceito conhecido como “soft power” (“poder brando”). Mas o futebol também pode ser e já foi usado para compreender a competitividade e a disputa entre nações. Uma questão, porém, é que as Relações Internacionais são fundamentalmente compreendidas como um regime anárquico, pois não existe um governo universal acima de todos os países. Nesse caso, quem seria o juiz ou talvez o VAR das Relações Internacionais?

Acredito que instituições como a FIFA, UEFA, CONMEMBOL e o COI, ao longo das últimas décadas, ganharam muita força. A FIFA tem mais membros que a própria ONU. E muitas vezes regular essas instituições é muito complicado ― como vários escândalos de corrupção nos mostraram ao longo dos últimos anos.

3. Você fez uma especialização em História da África e do Negro no Brasil e ensina História Mundial em colégios e cursos, onde, quase sempre, a história europeia é apresentada como representando o mundo inteiro. Como é possível inserir a diversidade de narrativas no ensino de História e, inclusive, no livro didático que você está produzindo?

A Lei 10.639, de 2003, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de “História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional”, foi muito importante para que os colégios de Ensino Fundamental e Ensino Médio incluíssem, mesmo que de forma tímida, o continente africano em seus currículos, deixando de ser um apêndice na história europeia (em aulas como Imperialismo e Lutas de Libertação Afro-Asiáticas). Mas temos uma dificuldade: grande parte dos professores de História não tiveram História da África em sua formação acadêmica e se sentem pouco à vontade trabalhando tais conteúdos. Acho que, com o tempo, isso vai mudar.

4. A História já foi contada de muitas formas, desde narrativas mais míticas e espiritualizadas até formas mais dialéticas e materialistas. Qual seria na sua opinião a melhor forma de narrar a História?

Eu não acho que existe uma forma melhor e outra pior de se narrar a História. Mas sempre vou defender que é uma obrigação dos historiadores falar com a maior quantidade de pessoas possível. Ir para além dos muros dos centros acadêmicos. É muito fácil falar para os seus pares. Difícil é se fazer entender para um número maior de pessoas. Então, se o historiador se fizer entender para um número cada vez maior de pessoas, está ótimo: use a narrativa, forma ou recurso que for disponível.

5. Quais rumos você enxerga para o Brasil, para o mundo e para a sua própria vida?

Rapaz… que pergunta difícil. Vivemos um momento de regresso. Acredito que avançamos muito em determinadas pautas caras ao pensamento progressista e que isso, no mundo, gerou uma contundente reação conservadora. O Brasil, que é um país muito conservador, é um dos principais pilares desse regresso conservador e vamos levar alguns anos ainda nessa lógica. Para mim? Sobreviver a esses tempos sem muitas sequelas, né?! Já está ótimo!

6. Qual(is) mensagem(ns) você gostaria de deixar para os leitores?

Tem muita coisa boa sendo publicada. Muita coisa boa sendo filmada. Muita coisa boa sendo gravada. Não podemos nos deixar abater nesses tempos! Vamos correr atrás disso, apoiar a galera que luta contra tudo e todos para fazer cultura no Brasil. Já já isso tudo passa.

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Daniel de Araujo dos Santos é graduado em História pela Universidade Federal Fluminense (2005), realizou pós-graduação em História da África e do Negro no Brasil na UCAM (2007) e cursou o mestrado em História Política e Bens Culturais no CPDOC/FGV entre 2010 e 2012. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Contemporânea e História das Relações Internacionais.

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