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Entrevista com a professora e estudiosa de Letras Clássicas Miriam Sutter Medeiros

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1. Qual(is) foi(ram) sua(s) inspiração(ões) para estudar Letras e para se tornar professora?

Desde a infância, a leitura e a literatura sempre foram minha paixão particular. Nenhuma data comemorativa era festiva se faltasse o presente de um livro. Aos quinze anos, já com direito a uma modesta “mesada”, escolhi o livro mais volumoso exposto na vitrine da Livraria Blumenauense: o Montanha Mágica, de Thomas Mann. Assim — pensava eu — vou ter o que ler por uns quinze dias, pelo menos! Não foi uma leitura fácil; mesmo assim li o livro inteiro, pelo puro prazer de ler, pois não tinha ideia àquela época da importância do autor na história da Literatura. E assim foi meu batismo de fogo. Já adulta e mãe de família, me associei ao Círculo do Livro, e continuei a ler os grandes clássicos da literatura, ainda pelo puro prazer de ler: Camões (Lusíadas); Edgar Allan Poe (Histórias extraordinárias); Émile Zola (Germinal); Charles Dickens (Oliver Twist); Franz Kafka (O processo); Gustave Flaubert (Madame Bovary); Molière (Escola de mulheres); Friedrich W. Nietzsche (Assim falou Zaratustra); James Joyce (Ulisses), e outros. Até hoje estes livros têm um lugar especial em minha estante. Após estas leituras e muita vida vivida (que inclui um Curso de Atualização, oferecido pela CCE da PUC-RIO, nos anos 70 do século passado), resolvi retomar meus estudos. E creio ter ficado claro o motivo de ter escolhido graduar-me em Letras, mesmo sem a aprovação consensual de meu marido, segundo quem, àquela época, eu deveria ter optado por uma formação na área das ciências jurídicas.

Já a segunda parte da pergunta: o que me levou a tornar-me uma professora. Graduei-me em Português-Literatura Brasileira, curso cujo objetivo é justamente o de formar professores. Não que tivesse àquela época a intenção de exercer a profissão de docente. Posso dizer que foi a profissão que, de certa forma, me escolheu, pois recém-graduada, fui indicada para lecionar na antiga Faculdade de Pedagogia e Letras Notre Dame e, no ano seguinte, na PUC, como professora horista. Assim teve início minha vida profissional, já muito influenciada pela área dos estudos clássicos. A língua latina (que tinha estudado ainda no antigo Ginásio, lá em Blumenau), e as disciplinas eletivas da Graduação, tais como Mitologia; Literatura clássica greco-latina; Língua grega me fizeram entender o porquê daquela antiga menina gostar tanto de ler. E foi assim que me pós-graduei em Língua e Literatura Latina pela UFRJ.

2. Juvenal, em suas Sátiras, faz um comentário muitas vezes reproduzido ao se falar da política em geral: “Há muito, desde quando não vendemos mais os votos, diminuíram os cuidados; pois aquele que outrora oferecia a magistratura, o poder consular, as legiões, tudo enfim, agora sofreia-se e, ansioso, apenas escolhe [ofertar] duas coisas: pão e espetáculos circenses.” Em um mundo de pandemia, de privilégios persistentes e de violências contra diversos grupos populacionais, quais demandas podem ser relevantes, em termos de discurso e de prática, para a população como um todo, além do pão e do circo? Há ainda algum espaço para a universalidade?

Juvenal (55-130 d. C.) poeta satírico e autor de eloquentes sátiras sócias que datam de 100 – 130 d.C., época dos imperadores Trajano e Adriano foi o criador da expressão panem et circenses (“pão e circo”). A referida citação encontra-se na Sátira 10,81, mas a emprega ainda em outras composições, conforme Sátira 3, 223 (si potes avelli circencibus: “… se podes, tira à força os jogos circenses”) e ainda a Sátira 8, 117 (Parce et messoribus illis / qui saturant urbem circo scaenaeque vacantem: “… e respeita aqueles ceifeiros / que alimentam a cidade, entregue ao circo e ao teatro”).

Mas Juvenal não nos conta nenhuma novidade. Desde sua origem, com Rômulo, a auctoritas do Estado romano, mesmo durante a República, já se afirmava e se legitimava por um tipo de código “teatral” manifesto nos trajes que as diferentes classes sociais usavam. O censor usava a toga púrpura, os cônsules e os magistrados superiores vestiam o chamado laticlavo ou a toga guarnecida de uma larga banda de púrpura e vinham acompanhados dos lictores (oficiais às ordens dos magistrados) que portavam os fasces (feixe de varas com um único machado, símbolo da autoridade dos magistrados e sacerdotes romanos). Os cavaleiros tinham direito de usar a toga com a faixa púrpura mais estreita. Na rua, distinguiam-se os homens livres dos que vestiam a toga, os candidatos às eleições tingiam a toga no giz a fim de torná-la branca. O povo em geral usava túnicas marrons; as prostitutas usavam a toga das cortesãs. Enfim, Tito Lívio atribui a Rômulo a invenção deste aparato que cerca o poder (I, 8). O que pretendo salientar é que o aparato “espetacular ou teatral” do poder era, por assim dizer, inerente à política romana em sentido amplo, incluindo aí a eloquência dos oradores nas assembleias, no Senado, nos comícios, nos tribunais do Fórum. A arte oratória, tão bem explicitada por Cícero, bem o comprova. E, no entanto, foi a sua exímia capacidade oratória que acarretou sua cabeça e mãos terem sido ostentadas no mesmo Senado sobre uma bandeja, marcando, por assim dizer, o fim da época republicana em Roma.

Quanto à questão da universalidade, depende do ponto de vista em que situamos este conceito ou fundamento. A universalidade é um dos fundamentos que subjaz à criação, no Brasil, do Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo, criado em 1988 pela Constituição Federal Brasileira, durante o governo de Luiz Inácio da Silva, defendendo o direito universal à Saúde a toda a população brasileira, e uma das maiores realizações do governo Lula, no meu entender. No mundo das ideias, portanto, a universalidade é um dos fundamentos de instituições públicas em uma sociedade democrática. São as ações humanas, no entanto, que legitimam ou não legitimam qualquer fundamento, o que pressupõe o comportamento ético do ser humano.

Outra área em que este fundamento está presente é na da instituição de ensino superior, a Universidade, instituição que data do final do século XII.

No Brasil, a instituição da Universidade do Rio de Janeiro, data da década de 1920 e, em 1937, foi criada a Universidade do Brasil, durante a gestão do ministro Gustavo Capanema. Destinada a formar as elites pensantes brasileiras, a Universidade muito evoluiu desde sua criação sob a perspectiva sócio-política em geral.

A Universidade de São Paulo, criada em 1934, foi pioneira ao criar a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras no Brasil. O que se entendia, então, por “e Letras”? Obviamente, o estudo de línguas: a nacional e línguas estrangeiras e respectivas literaturas. E o que tem a ver a literatura com a questão da universalidade?

No meu entender é justamente a ciência da literatura que tem como característica indiscutível problematizar a universalidade. Não importa de que época histórica, de que etnia ou nacionalidade sejam os autores de uma obra literária, esta é sempre atual, pois, como já afirmava Terêncio, o Africano, no século I a.C.: “sou homem: nada do que é humano me é alheio”. [TER. Heaut, 77: homo sum: nihil humani a me alienum puto].

Como afirma Silvina Rodrigues Lopes, em A legitimação em literatura. Lisboa, Edições Cosmos, 1994. p. 484; 485.

10. …recai actualmente sobre a teoria literária uma responsabilidade de não separar o estudo da literatura das questões que ela permite levantar. Isto implica que não se importem modelos das ciências exactas ou da hermenêutica, que não se subordinem os estudos literários a ideais de estabilidade, mas se defenda a sua vocação problematizadora e de relação com o acontecimento no seu acontecer ou instabilidade. Embora afaste a possibilidade de se constituir na busca de um fundamento a partir do qual estabelecer critérios que determinem a “literariedade”, ou na análise empírica do campo literário com vista à determinação de categorias universais, a teoria da literatura não se pode reduzir a uma teoria da leitura.

Apenas a interrogação da institucionalização do literário e do funcionamento das instituições literárias (portanto uma análise empírica, histórica, do campo) permite que se se suponha em cada momento do texto literário uma dupla vertente de universalização/perturbação da universalidade, ou seja, que se faça justiça a esse texto reconhecendo nele a precariedade de estar exposto à própria lei que dele emerge. Esta é afinal uma subversão do universal, que não o nega mas diz infinitamente a sua insuficiência. Toda a teoria como universalização é posta em causa por esse dizer, mas desse abalo ela não pode dizer nada senão em novas teorias, o que nos permitiria concluir que a teoria é não só, mas segundo a famosa expressão de De Man, “resistência à teoria”, mas também, e sobretudo, necessidade de teoria. Cada texto constrói alegoricamente a sua própria teoria, mas essa construção é apenas um dos efeitos da leitura (que implica códigos e convenções, realidade histórica), sendo outro efeito a ilegibilidade, que perturba a suficiência da teoria original e constitui também um apelo à teoria. [Grifos nossos]

3. Sua produção bibliográfica inclui estudos sobre linguagem, discurso, filosofia e política, instâncias que, historicamente, costumam excluir a participação de mulheres. Seguindo o título do conto de Tolstói que também intitula um dos seus estudos, “De quanta terra precisa um homem?”, o quanto a linguagem, o discurso, a filosofia e a política necessitam das mulheres?

A resposta à questão anterior já responde à presente pergunta, pois, ao citar a obra de uma Autora e Professora universitária, deixo evidente que considero o pensar teórico e/ou ficcional uma capacidade própria da espécie humana. A questão de gênero implica hodiernamente questões muito mais complexas do que a da oposição masculino adversus feminino, ou a de macho adversus fêmea ou a de homem/mulher inicial. O gênero neutro (<lat. neutrum, “nem um, nem outro” e que designava os seres inanimados na língua latina) me parece estar novamente em pauta, mas sob aspectos bem mais complexos que os da antiga concepção sexual masculino adversus feminino e diz respeito principal e primordialmente à noção de pessoa em sua realidade psíquica, emotiva, subjetiva e também jurídica.

4. Vivemos em uma época em que se está buscando a diversidade, pelo menos em termos de discurso, e, ao mesmo tempo, com grande frequência se pronunciam falas arcaicas e totalizantes, muitas vezes excludentes e preconceituosas. Como compreender este aparente impasse e quais são seus pensamentos acerca disso?

O presente processo de globalização — que implica uma pretensa integração econômica, política, social, cultural de nações, resultante da revolução tecnológica dos meios comunicacionais desde o final do século passado — tem muito a ver com a diversidade ou com a heterogeneidade cultural que hoje se busca ou se manifesta. A afirmação da diversidade se faz necessária a fim de preservar nossas identidades regionais, nossa cultura brasileira em seu todo: seja a das comunidades indígenas, seja a das periferias dos grandes centros urbanos, seja a da cultura afro-brasileira, seja a da tradição judaica, et caetera. As falas totalizantes que se manifestam contra a diversidade são, a meu ver, ou fruto da ignorância e/ou estão a serviço dos interesses econômicos de grandes conglomerados industriais e financeiros.

5. Quais rumos você enxerga para o Brasil, para o mundo e para a sua própria vida?

A educação de base é o único meio para qualquer país se desenvolver como uma nação. Reconheço e agradeço ter recebido esta educação quando criança e adolescente, em uma época em que o ensino ainda era estadual ou regional. Como aluna do Curso Normal (formação de professores primários), aprendi até como se faz uma fossa, já que a rede municipal de esgoto não atingia os bairros da periferia da cidade, e era justamente nas escolas da periferia que as “normalistas” começavam a lecionar. A educação vai além do alfabetizar; ela implica a interação da comunidade como um todo: ela implica leitura de mundo(s).

6. Qual(is) mensagem(ns) você gostaria de deixar para os leitores

Mensagem propriamente não tenho a transmitir. Desejo a todos os leitores saúde, vacinação, bom senso, pois a vida do brasileiro comum não está nada fácil, e principalmente muita leitura: de livros, mas também das ruas e muros da cidade com seus grafites e murais; ou então os Infopoemas ou Contrapoemas de Avelino Araújo, por exemplo. [Vide abaixo]

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_visual/avelino_araujo.html.

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MIRIAM SUTTER MEDEIROS

É graduada em Letras — Português e Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1983), possui mestrado em Língua e Literatura Latina (Letras Clássicas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1990) e Doutorado em Língua e Literatura Latina (Letras Clássicas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1994), Departamento de Letras Clássicas. Atualmente é professora adjunta da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e orientadora da área de Letras Clássicas. Ministra as seguintes disciplinas: Latim I, Latim II, Literatura Latina, Mitologia I, Cultura Greco-latina, Oficina de Teatro Antigo, Imagens, mito e literatura; Mito e Cinema, além de disciplinas junto ao Cursos de pós-graduação em Filosofia Antiga, oferecidos pela CCE da PUC-RIO.

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