Como ver o excesso de juros reais brasileiros? Simples: compare Brasil e Grécia. Crítica à opinião da redação do O Globo.

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    Tenho de criticar a opinião emitida pela redação do Jornal O Globo de 16/01/2014, na página 15. Veja seu conteúdo:

    “Erudição. Elaborou-se em hostes petistas uma explicação de conveniência para a alta dos juros: é devido à pressão dos “rentistas”, dependentes de lucros financeiros. Balela. Os juros sobem porque a inflação está em perigosa elevação. Simples assim.”

    Nesta mesma página, demonstra que os maiores juros reais pagos no mundo são brasileiros (4,25%) contra 0,75% pagos pela Grécia, o sétimo maior juros real mundial.

    Observem. Os juros reais existem para se contrapor ao risco de pagamento de dívida. O risco de pagamento de dívida é tanto maior quanto o país esteja economicamente frágil. A fragilidade de uma economia é medida por alguns elementos e índices, quais sejam, reservas internacionais, superávit fiscal, crescimento econômico, emprego e inflação (botei inflação por último, pois se falo de juros reais, já estou considerando que serão acima da inflação). E a ordem de importância é esta que apresentei.

    Agora, veja, são incomparáveis todos esses elementos entre Brasil e Grécia, em extremo favorecimento ao Brasil. Então o risco brasileiro é menor. Então como os juros reais podem ser maiores?!?!? Agora, sim, posso usar a frase final da opinião do Globo que ora critico: É simples.. é o interesse da ala financeira. E seu poder de pressão. Não de família de rentistas (de 10 a 20 mil obtém renda dos títulos do governo). Não há o conflito rentistas e trabalhadores, pois muitos rentistas também são trabalhadores; e que colocarão o dinheiro poupado onde render mais… e que assim seja… não dá para só estrangeiro obter renda de juros selic exorbitante.. o conflito é entre ala financista, de bancos, e a sociedade. É isso.

    Grécia não tem reservas internacionais na prática, pois faliu. Grécia tem déficit fiscal há anos, em torno de 8 a 15%. Grécia tem recessão econômica (contrário, bem contrário a crescimento econômico) com perda de pib há cinco anos!!! A Grécia chegou a ter quase 25% de desemprego e mais de 50% de desempregos entre jovens. Ainda permanece com desemprego em dois dígitos. Mas a inflação da Grécia não é alta… claro.. com grande parte da população desempregada, quem pressionará preços se ninguém compra?… rsrsrs O índice de inflação baixo também é resultado de política de austeridade que acaba com crescimento econômico e emprego para manter inflação baixa e fazer economias públicas para pagar dívida grega. Relação dívida/pib da Grécia, portanto, é uma das maiores do mundo. Mas seu juros reais é 0,75% e o do Brasil é de 4,25%.

    O Brasil tem em média 350 bilhões de dólares em reservas internacionais. O Brasil, tem superávit fiscal (1,8% em 2013), enquanto toda a Europa e EUA têm déficit fiscal. O Brasil tem crescimento econômico, apesar de não ser o que queríamos (2,2% em 2013). A Europa cresceu 0,4% em 2013. O Brasil goza de baixo nível de desemprego (5,2%, segundo dados do PME e 7%, segundo dados do PNAD contínuo). E inflação está há anos e anos dentro da meta governamental, apesar de mais ao topo da meta do que ao centro ou abaixo deste. Nossa relação dívida/pib diminui ano a ano e encontra-se em 34% – dívida líquida – ou 55% – dívida bruta medida pelo Bacen… a medição de 63% feita pelo FMI é errada como explicou Delfim Neto, pois os 8% de títulos de dívida que o FMI conta não circularam para o mercado privado, mas estão em custódia no Banco Central).
    Então como pagamos 4,25% de juros reais contra 0,75% da Grécia?!?!?!

    Viram o absurdo? A resposta, agora sim, nas palavras do Blog Perspectiva Crítica, é simples. Grécia está no centro do capitalismo. As políticas econômicas da Grécia estão sendo implementadas por representantes de bancos americanos e europeus, integrantes da Comissão Trilateral, o que dá confiança no pagamento, mesmo que em detrimento da qualidade de vida da população que sofre e sofrerá muito ainda com o desemprego e exclusão do mundo do consumo. Por isso, porque os bancos mandam na Grécia, é que ela paga juros menores. Só que o quadro geral da Grécia é absurdamente pior do que o do Brasil e eles aceitam pagar 0,75% pela dívida e pelo risco. Então o risco de pagamento para o quadro caótico da Grécia deve ser de 0,75%.

    Como pode aqui, com quadro infinitamente melhor e de menor risco para o pagamento de dívida soberana ter como necessário o pagamento de juros de 4,25%? Não há justificativa. A única, mais uma vez simples, é a pressão de bancos sobre o Banco Central e com apoio da mídia para alardear descontrole inflacionário e de gastos públicos – nunca comprovado em estatísticas oficiais ou privadas, veja bem -, exigindo, para qualquer aumento de inflação (sem avaliar se é de demanda ou de oferta, veja bem), um aumento de juros como resposta.

    A oposição vê isso, mas além de ser próxima a bancos, mesmo que não fosse, não atacará essa dinâmica mentirosa alardeada pela mídia, pois aumento de juros afeta o bolso do brasileiro concretamente e pode ser usado de argumento para evidenciar a “incompetência governamental petista em gerir a economia e a inflação”.

    Isso sim é simples. Enquanto não se questionar as verdadeiras razões da relação entre juros e inflação aqui e nos paradigmas no exterior, nunca será evidenciado o quanto somos roubados injustamente. Continuamos a ser o último “peru de ação de graças” como aclamado em uma reunião de banqueiros no exterior.

    p.s. de 28/01/2104 – revisto e ampliado.

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