Brasil e o Acordo de Livre Comércio EUA e União Européia – parte 2

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    É importante ainda, senhores, em complemento ao artigo anterior, mencionar que o eixo EUA-UE resume 1/3 do comércio mundial. Então existem 2/3 que ficarão de fora!! Por que não corrermos atrás desses 2/3?

    Outra coisa, o acordo EUA-UE ainda não é realidade. Será interessante ver como eles vão admitir a concorrência franca entre seus produtos agrícolas super-subsidiados e ainda entre suas produções manufaturadas. Não será fácil esse acordo. Será interessante ver as soluções adotadas. Mas a mídia está trantando como fato consumado. Não é bem assim.

    Veja, a construção da União Européia vige sob o pressuposto de que a indústria alemã, um pouco menos a francesa e um pouco menos a italiana vendam seus manufaturados para os outros 27 países que não têm tais indústrias e capacidade de produção. Os EUA, que faz o mesmo com o Nafta, portanto, em um acordo de livre comércio, entraria em conflito comercial aberto com a indústria alemã, francesa e italiana e com concorrência também na área de serviços… como seria resolvido? Ninguém quer perder mercado. Todos querem ganhar mercado. Não é nada de livre comércio.. quem repete isso é no mínimo ingênuo ou é mal intencionado.

    É importante deixar claro aqui que o argumento de defesa de livre comércio só tem sentido em três grandes e principais momentos: (1) com o nascimento do liberalismo de Locke e depois Adam Smith, ao lutarem contra a intromissão do Estado na atuação das empresas que prejudicava mesmo as empresas e a sociedade (esse período se estende até 1858, quando nasce o marxismo e a idéia de socialismo); (2) já após a segunda guerra como uma forma característica menor da defesa do capitalismo para não ser suplantado pelo comunismo/socialismo como filosofia político-sócio-econômica na Europa e na Ásia (Rússia, Japão e China e respectivas áreas de influência) e por fim (3) fortemente nos anos 90 (neoliberalismo) como receita propagandeada de sucesso capitalista do eixo trilateral como argumento real de impor filosofia político-sócio-econômica aos países periféricos (Ásia, África, Leste Europeu e Américas Latina e Central) do capitalismo de maneira a dominar seus mercados internos.

     Por isso, estou interessado em como o acordo vai se dar. Ele não me parece ser simples, a não ser que a ruína geral que ocorreu com a crise financeira de 2008/2010 que se estende até agora, tenha gerado investimentos, compras mútuas de participações entre tais economias ao ponto de descaracterizar a nacionalidade de empresas e mercados, o que posso dizer que não chegou a ser o caso com certeza.

    Nós no Mercosul, para compensarmos a falta de indústria dos países da América do Sul,  fazemos inúmeras parcerias, considerando o perfil de cada país, tentando aumentar o fluxo de comércio mútuo com cada um para que o crescimento seja mais equânime entre nós. Por exemplo: exportamos peças de automóveis para a Argentina e compramos deles o carro pronto. Em relação aos quatro países, cada um tinha um perfil econômico e a complementariedade de nossas economias já era histórica e o acordo somente acentuou a facilidade de comércio e plantou uma semente de aproximação institucional além do comércio.

     Nós incentivamos a complementariedade, inclusive com políticas públicas. Não é como EUA e México em que empresas americanas usam o México de plataforma de produção explorando os mexicanos e o Nafta vem a ajudar esse movimento trazendo aumento estatístico econômico. No Nafta mexicanos não são tratados em relação aos americanos como chilenos e argentinos e paraguaios o são em relação ao Brasil. O Nafta institucionaliza uma predação americana de mercado privado mexicano.

    Mas o que temos a dizer aqui é que o argumento de que acordos de liberalização do comércio existem para “melhorar a economia mundial e trazer riqueza para todos os envolvidos” é uma total palhaçada e sempre se pretende enriquecer predando o mercado de alguém.

    Alemanha, França, Itália (menos) e EUA podem estar em pé de semi-igualdade e podem discutir a abertura de seus mercados industriais e de serviços. Mesmo assim não será fácil compor esses setores e pior ainda o agrícola em que os EUA levam vantagem.

    E nós? Nós temos de analisar o que pode ser feito para melhorar nossa situação para poder discutir em pé de igualdade, obtendo acesso a mercados, seja na região EUA-UE, seja em qualquer outra região, mas que seja vantajoso para nós e não gere a predação de nosso mercado pura e simplesmente.

    Panamá pode fazer o que quiser, pois não tem indústria. Peru pode fazer o que quiser, pois não tem indústria. Chile pode fazer o que quiser pois não tem indústria. É duro ver a grande mídia enaltecer esses casos como se fossem de sucesso em relação à sua inserção na economia mundial e nesses acordos de abertura de comércio e, pior, comparando com nossa economia e nossa tipo de inserção econômica. Nós não podemos sair correndinho para participar de algo do que poderemos sair escalpelados.

    O acordo EUA-UE não é tudo, pois há 2/3 de comércio mundial fora dele. E mais, o acordo em questão não é realidade e nem é fácil de ser acordado. Além disso os emergentes juntos devem ser 50% do PIB mundial em 2050. Fiquemos atentos aos movimentos em torno do Acordo EUA-UE, mas não deixemos de ver os interesses brasileiros, do Mercosul, os riscos de acordos mal feitos, a proteção de nosso mercado, com foco na realização de acordos vantajosos para o País e as pessoas e não somente para um punhado de empresas brasileiras que ganharão muito dinheiro com a realização de acordo que não contemple acesso real brasileiro a uma multiplicidade de setores na EUA e UE.

    E claro, não vamos dizer que esses acordos têm o interesse benigno de concretizar a liberalização da economia mundial e que isso será tranquila e indiscutivelmente bom para todos os envolvidos… por favor.

    O senso de urgência que a grande mídia imprime no sentido de dever o Brasil fazer algo para participar dessa “onda benfazeja de oportunidades e negócios fantásticos trazidos pelo início da discussão do acordo EUA-UE” simplesmente não existe. Não é um trenzinho que temos de entrar para não perder. Essa abordagem dessa forma é desinformativa e sensacionalista em prejuízo ao interesse verdadeiramente nacional.

    P.s. de 06/03/2013 – texto revisto e ampliado.

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