Início Mundo Análise e crítica do ataque de Trump à Síria: ataque ao multilateralismo...

Análise e crítica do ataque de Trump à Síria: ataque ao multilateralismo internacional

109
0

Senhores e senhoras, é muito, muito grave o que Trump fez. O ataque à Síria foi ovacionado como ato solidário internacional, defesa da civilidade… mas foi tudo menos isso. Explicamos.

Qual foi a decisão da ONU sobre um ataque à Síria em virtude de violação à regra internacional que proíbe uso de armas químicas contra a população ou em atos de guerra? Nenhuma. E qual foi a decisão do Conselho de Segurança da ONU em relação ao mesmo tema? Nenhuma. Como saiu a ação de ataque à Síria, então?!?!?! Simplesmente porque o Trump, sem mesmo ouvir o Congresso americano, quis.

Gente, isso é muito grave. A máquina de guerra americana está agora solta à vontade de uma pessoa pouco razoável, que age ao seu alvedrio e à revelia da comunidade de nações e mesmo sem pedir apoio do Congresso Americano! Isso significa que, com alguma legitimidade internacional, esta máquina pode se virar a qualquer um do Globo. Vamos à análise.

É um clássico. Quando presidentes americanos têm problemas internos que não conseguem contornar, faz-se a guerra contra algum país distante sobre o qual se tem pouca ou nenhuma informação. Foi assim já três vezes, nos últimos 20 anos.

Com Bill Clinton, ao tomar vulto em noticiário nacional o caso do “abuso/assédio sexual” de Clinton em relação à sua estagiária, Monica Lewinsky, em 1998, o que ocorreu? Foram lançados mísseis no Sudão (ver artigo “EUA atacam bases terroristas no Sudão” – http://www.diariodecuiaba.com.br/arquivo/210898/brmundo2.htm). Por qual motivo? Foi dito que era resposta a ataques a bomba a Embaixadas norte-americanas no Quênia e na Tanzânia. Mas um país da África, em guerra civil ou governado por um ditador sanguinário sempre tem um motivo pelo qual legitime alguns mísseis, em nome da segurança preventiva dos EUA e em defesa de mulheres, crianças, pobres, população civil, meio ambiente, liberdade política ou liberdade religiosa ou de expressão, não é mesmo?

Com George Bush, ao passar por problemas econômicos e de desemprego, em comparação com o período anterior de governo democrata, ao ter protagonizado várias gafes e estar sendo acusado de incompetência, recebe de presente os aviões de “grupos terroristas” (há teses conspiratórias dizendo que foi o próprio governo.. mas sem comprovação definitiva – ver filme “Zeitgeist” no Netflix) que destruíram as torres gêmeas e fez-se a guerra contra o Iraque, em 2001, sob a acusação de que ele teria armas químicas de destruição em massa, as quais, ao final, restou provado que não existiam.

Com Trump, já tendo que ouvir a palavra “impeachment” depois de adotar diversas medidas graves (não entraremos no mérito se boas ou ruins para os EUA e o mundo) no setor econômico, bem como criticar a mídia, criar e publicar “fatos alternativos” pela comunicação oficial da Casa Branca, misturar atos de governo com atos que beneficiam a administração de suas empresas no mundo e nos EUA, e de estar sendo acossado por talvez ter uma ligação forte com a Rússia e Putin, enfim, criar vários fatos e efetuar atos que de todo modo são contestados pela mídia e por pessoas influentes nos EUA e no mundo, um ataque de mísseis à Síria ocorreu, em nome da defesa de crianças e mulheres sírias afetadas pelo gás Sarin (não se sabe se pelo governo oficial da Síria ou se por rebeldes), ou seja, em nome da civilidade, das regras internacionais que proíbem o uso de armas químicas contra a população e na forma de defesa preventiva a ataques aos EUA com gás por armas terroristas.

O método, vocês podem ver, é o mesmo. Nos três casos houve problemas internos que prejudicavam a popularidade do Presidente norte-americano, e a saída é sempre efetuar guerra contra alguém, o que baixa a guarda daqueles que ofendem o Presidente e une todo o povo em torno dos esforços de guerra pelo bem do mundo, da civilidade e tal… ridículo. Só um cego não vê.

Agora, porque a mídia e os governos da Alemanha e da França, que foram contra a invasão do Iraque, por exemplo, foram a favor deste ato unilateral dos EUA, neste caso? Porque antes seus governos estavam com alta popularidade, com economia vigorosa, com desemprego baixo. Agora, Alemanha e França não estão tão bem e ainda há ataques terroristas em mais países, baixa de popularidade política por conta do grande contingente de exilados das guerras do Oriente Médico que estão se refugiando na Europa. Há muitos problemas internos que baixam a popularidade dos governos acossados pela oposição a seu governo, pelo avanço da direita radical… então, nesse momento, apoiar guerra dos americanos pela civilidade tem legitimidade mínima e distrai os cidadãos dos problemas imediatos do desemprego, problemas econômicos, aumento de dívida do governo, aumento de violência interna, atos de terrorismo, choques da população local com refugiados, etc..

Trump conseguiu fugir do debate sobre os problemas internos. Alemanha, França e outros países europeus podem fugir de problemas internos ou simplesmente dar uma resposta pública interna de estar fazendo algo em resposta aos atos de terrorismo que sua população sofreu recentemente (Berlim, Estocolmo, Nice..). Trump ainda dá um tapa na cara de quem disse que ele é amigo dos russos, pois a ação colocou em risco a relação com a Rússia que estava administrando a guerra no local e apoia o governo Sírio.

Mas, senhores e senhoras, não se enganem. O ato foi pensado para tirar Trump de um problema interno muito mais do que para defender o bem de alguém ou de crianças e mulheres sírias que sofreram com o abusivo e criminoso uso de bombas Sarin por quem quer que seja.

E a legitimidade disso ao argumento de que a defesa foi por humanidade e por “defesa preventiva”, é possível de ser usada contra qualquer país, a qualquer momento, desde que seja oportuno. Amanhã pode ser porque o “tirânico Brasil ataca desumanamente seus índios”, ou melhor, “nações indígenas” oprimidas em território amazônico. Amanhã pode ser porque a Amazônia é o “pulmão do mundo” e esse território importantíssimo para o ecossistema mundial deve ser administrado por organismos internacionais a bem do mundo e dos próprios brasileiros, claro (ninguém diz que as árvores de coníferas – região norte – pode ter um terço das árvores no mundo e que o oceano pacífico faz grande retirada de carbono da atmosfera através de plâncton). Amanhã pode ser contra a Rússia por oprimir os muçulmanos na Chechênia. Amanhã pode ser contra a China por impedir que o Tibete se torne independente. Quem não apoia que o país de Dalai Lahma, invadido em 1959 pela China,  seja independente?

Há motivos para se recriminar todos os países, principalmente os grandes e ricos, mas também os pobres e violentos. Mas admitir-se que os EUA decidam quem está errado e quem deve pagar, à revelia de processo internacional e investigação internacional com reunião de todos os países para proferir essa decisão é um absurdo e seria a tirania dos EUA, sob risco de todos.

O que pode impedir esse abuso unilateral dos EUA é o respeito à multilateralidade e aos organismos internacionais e suas instâncias decisórias. Nem sempre serão rápidos. Nem sempre decidirão o que achamos certo. Mas fora desse sistema vigora a lei do mais forte. E isso gera conflitos e possibilidades de mais guerras, desestabilizando o mundo.

Achamos uma lástima que o ataque tenha ocorrido. Queremos que os responsáveis pelo uso de gás Sarin paguem. Mas nos parece um pouco esquisito, mas não impossível, que depois de quase ser morto, exprimido em um fiasco do território da Síria, acossado por rebeldes a seu regime e por integrantes e avanços do Estado Islâmico, Bashar- Al- Assad não tenha usado o gás Sarin antes e o use agora, depois de obter amplo apoio tático e operacional russo que devolveu grandes partes do território Sírio.

Mas quem poderia elucidar isso? Uma comissão de investigação da ONU. Mas Trump não quis correr o risco da perda de tempo do procedimento, não ouviu sequer a ONU ou o Conselho de Segurança. Simplesmente atacou, motivado por seu sofrimento pessoal com o uso de armas químicas… como não se vê que ele se aproveitou de uma oportunidade para sair da berlinda nos EUA?!?!?! Simples assim.

Esse apoio que alguns dão ato de Trump é mal prenúncio. É o prenúncio de que os EUA estão autorizados, mediante alguns fatos publicados na mídia internacional (75% da produção de imagens internacionais são inglesas ou americanas), a passar por cima de análises, investigações e decisões internacionais multilaterais. O mundo está mais perigoso, desde então, para países sem capacidade de defesa militar.

A continuar isso, pode até chegar a ser necessário o desenvolvimento de bomba nuclear no Brasil, porque esses (os detentores de tecnologia nuclear) são os únicos países em que os EUA não entram, mesmo que todos os males do mundo esteja ocorrendo lá… vide a Coréia do Norte.

P.s. – Texto revisado.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui