Tropa de Elite 2 e o tema Corrupção x Ética

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    Pessoal, ontem, em um jantar, tive um debate muito interessante com dois casais amigos sobre o novo filme Tropa de Elite 2 e a corrupção. Me sugeriram abordar o tema no blog, mas inicialmente recusei abordar o cerne do tema. Para vocÊ entrar no cerne deste tema vocÊ mexe com valores muito fortes. A sociedade está acostumada ao maniqueísmo bem versus o mal, o mocinho e o bandido, o corrupto e honesto. Mas tipos estanques assim infelizmente não existem na realidade. Normalmente se vocÊ tentar entender porque alguém fez algo contra valores socialmente entendidos como bons, vocÊ imediatamente é rotulado de malévolo, fraco, corrupto. Mas como corrupção é tema político, com certeza, terminei por aceitar o desafio.

    Mas para ser sério, tenho que escrever um artigo diferente aqui. O texto terá de ser mais reflexivo e terei de te colocar um pouco contra a parede. Pode ser que não seja bonito, pode ser que não seja agradável, mas quem quiser tocar nesse assunto com seriedade vai ser incômodo. Mas acho que tem um grande valor realmente, principalmente no sentido de amadurecimento pessoal e esclarecimento de que a vida não é simples. Quem pensa o contrário ou é muito ingênuo ou está se enganando.

    Naturalmente esses meus amigos ficaram chocados com a forma direta sobre como a corrupção graça à solta, visível, contundente, profunda e ficava a questão da reflexão sobre a impotência do cidadão comum em relação a isso. Inclusive questionando-se quem não seria corrupto. E se todos são corruptos ou sempre quem entra para a política tende a ser corrompido, qual a saída para a construção de uma sociedade ética?

    Eu acho que a melhor frase para explicar uma flexibilidade na ética está na entrada do filme “Tropa de Elite 1”, de um filósofo americano, de cuja frase não me lembro exatamente mas que informava o seguinte: algumas condições do meio terminam por definir a concepção social e pessoal do que é ético.

    Claramente lendo até aqui já temos alguns que devem ter me condenado: “flexibilidade na ética?!?!? Que absurdo!”. Vamos em frente, então.

    Todo ato de escolha é um ato político. Como “política” advém de “polis” em grego que quer dizer cidade, a política é algo intrínseco das cidades, das aglomerações humanas. É a arte de convívio, de comunicação e de realizar o possível. Otto Von Bismark, político alemão do século XIX, responsável pela unificação do Estado Alemão Moderno, dizia “Leis e salsichas. Melhor não saber como são feitas”.

    O possível nunca é o ideal, infelizmente. POrque quando se realiza algo se mexe com o interesse de alguém e deverá haver uma composição. Não cabe aqui fazer uma abordagem sobre a corrupção em várias sociedades, o que seria interessante, pois falar de outras sociedades ajuda na perspectiva de distanciamento, mas o fato é que, repetindo uma amiga que estava nesse jantar conosco, “quando há duas pessoas, há política”.

    O que é bem e mal, certo e errado, a princípio todo mundo sabe. Sabe? Então eu pergunto:

    1 – Eu sou contra a pena de morte. Mas se estupram a sua filha, mãe ou irmã? Não posso matar, lógico, é crime, mas se o fizesse, seria anti-ético?
    2 – No filme “Cidade de Deus”, o Zé Galinha teve namorada estuprada e familiares mortos por bandidos. Apesar de ser homem correto e ético, terminou entrando para o tráfico como forma de punir os bandidos locais e garantir alguma segurança à sua família e à sua comunidade. É corrupto? Estava errado? Tinha outro jeito, se não havia segurança pública que chegasse à sua área para garantir a sua vida, de seus familiares e de sua comunidade? Ele não deveria entrar no tráfico, lógico, mas foi anti-ético?
    3 – Quando o Capitão Nascimento, no Tropa de Elite 1, ao flagrar Policiais Militares vendendo armas para traficantes, armas essas que amanhã seriam usadas contra ele, seus policiais do BOPE, todos os demais policiais militares e civis e contra toda a sociedade, resolve matá-los ao invés de prendê-los na saída do morro, ele estava de todo errado? Não podia matar, óbvio, mas foi anti-ético?
    4 – Quando o tenente, no Tropa de Elite 1, amigo do André (tenente policial negro que estuda Direito), decide roubar o “arrêgo” do tráfico que era do Comandante para poder consertar as viaturas policiais e poder voltar a patrulhar as ruas, ele agiu mal? Agiu, lógico, mas foi anti-ético?
    5 – Os tributos no Brasil são escorchantes. Há algum empresário que possa pagar todos os impostos e continuar com seus negócios? Mas se o negócio falir, é menos emprego e tributos para a sociedade. Sonegar, nessa hipótese de tentar sobreviver, é anti-ético? É crime, claro, mas vocÊ pode condenar? Se o negócio já é de sucesso, com certeza a sonegação é anti-ética pois rouba a sociedade e verbas para hospitais e educação etc.. mas a maioria dos estabelecimentos do País são pequenos e para estas a tributação é bem pesada… esta pessoa que sonega para manter seu negócio, enquanto não é possível permancer aberto e pagando tributos, age de forma anti-ética?
    6 – Você está no bateau mouche que afunda, há uma senhora com colete salva-vidas e o seu filho de 5 anos está sem. Você está longe da praia e não nada tão bem. A chance do seu filho é aquele colete porque não há para todos. Se vocÊ tirar o colete da senhora, você é anti-ético? Ninguém vai te aplaudir, você com certeza terá problemas pessoais e responderá criminalmente depois mas você agiu de forma anti-ética?
    7 – VocÊ é diretor de um hospital e tem de decidir se com a pouca verba do governo abre uma sala de cirurgia ou um setor pré-natal. Você não abre a sala de cirurgia e morre uma pessoa precisando de cirurgia na frente do hospital. A culpa é sua?
    8 – VocÊ é médico e há duas emergências. Só é possível salvar um dos bebês. VocÊ escolhe um. É assassino do outro? Não há crime, aqui, mas você vai viver com a sua escolha? E a outra vida ceifada por escolha sua?
    9 – Você é sindicalista de esquerda, ou melhor, comunista. Está negociando no Congresso apoio político para que o projeto que beneficia a sua categoria profissional seja aprovado. Você tem de beijar a mão de Antônio Carlos Magalhães, José Sarney, Maluf e Collor. Você beija a mão ou volta para dizer para o grupo que você representa que não podia fazer isso e que por isso não foi aprovado o projeto? E se beijar, é venal em relação às suas convicções?
    10 – Você é a Marina, candidata à Presidência. Saiu do PT por conta de decepção com várias questões programáticas de governo e por causa dos mensalões e degradação real e de imagem do Partido dos Trabalhadores, mas sua origem é dali, você é de esquerda. Apóia Serra e o PSDB, com casos de corrupção em seu histórico também (mas menor que o mensalão do PT, segundo a idéia geral) e de direita, ou apóia a esquerda e a continuidade de um projeto que ela ajudou a construir? E se escolher para um lado ou para outro, traiu suas convicções? É uma pessoa anti-ética?

    Gente, eu penso da seguinte forma: você deve ter suas convicções. Elas devem ser claras. Você deve ser ético. Na medida em que você pode preservar o seu cerne ético e moral não tendo que decidir e não tendo responsabilidade pela vida de outros, ótimo. A vida é mais fácil para você. Mas quando você tem vidas que dependem de você, se você é líder, você terá de fazer escolhas. Escolhas pressupõem concessões. Quando as fizer, elas terão de ser as possíveis e não as ideais. Se você não consegue conviver com suas escolhas, não assuma responsabilidades. Mas se você vai julgar o ato de escolha de alguém, para ser justo ou ao menos entender, terá de visualizar quais as opções ela teve em relação à escolha que fez e qual foi a finalidade do ato “anti-ético” que teve de fazer.

    Espero que você possa sempre se manter incólume das leviandades do mundo. Espero que a sua imagem de você mesmo possa ser sempre bonita e sem máculas. Espero que todas as escolhas que você faça não possam ser reprimidas ou condenadas por ninguém. Espero que você não tenha de transigir com chefes, subordinados, clientes.

    Como acho que isso é impossível, espero que você amadureça sua perspectiva sobre a vida e viva da melhor maneira possível, nunca prejudicando o próximo e nunca, nunca mesmo, se omitindo quando tiver de tomar uma decisão que repercute na vida de outras pessoas. E que quando o fizer, seja pensando no bem, e realize com coragem. Porque os bandidos sempre são audazes. Cabe aos homens de bem também o serem. Meu grande professor de Direito Processual Civil, Leonardo Grecco, em minha formatura disse uma frase que eu nunca esqueci: “Para decidir, tem que ter coragem. Se você não tem, por favor, para o seu bem e a bem da sociedade, nunca seja Promotor de Justiça ou Juiz”.

    Quem precisa decidir sempre encontrará o dilema. Se puder contorná-lo, ótimo. Se não puder, terá de decidir mesmo assim. Que você faça boas escolhas e possa ter orgulho em contá-las aos seus amigos, familiares e aos seus filhos, mostrando que a adversidade existe, foi enfrentada e você continua íntegro moral e eticamente. O erro é tomar decisões injustificáveis, que normalmente são as fáceis e as individualistas, egoístas e egocêntricas. Agora, não quer decidir? Não quer se responsabilizar pelos que dependem de você? Não quer enfrentar dilemas? Então pede pra sair.

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