Paradigmas sócio-culturais-comportamentais de Brasil e EUA que atrasam estas nações

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    Pessoal,

    este tema é importantíssimo.

    Existe em sociedade uns vetores condutores de comportamento do indivíduo que na verdade são impressos em nosso consciente e nosso subconsciente pela própria sociedade, de acordo com o arcabouço de valores morais, religiosos, éticos que caracterizam a sociedade, considerada esta como um resultado de todo um processo histórico, de experiências próprias, o que no final se resume a padrões sócio-culturais que influenciam o comportamento individual.

    Tudo tem seu prós e seus contras, claro. Esses padrões geram, por exemplo, uma propensão a nos EUA e do Brasil as pessoas normalmente quererem ser empreendedores, enquanto os padrões portugueses criam a propensão para que a população admire a vida financiada por rendas (um especialista português em entrevista falou que é um problema de consciência social consolidada desde a expansão marítima). Mas paradigmas sócio-culturais-comportamentais americanos também levam a este ser o único país no mundo em que crianças matam amigos de escola de forma quase corriqueira e no Brasil uma pessoa assaltada em sinal de trânsito é comumente “culpada” pelos amigos por ter sido displicente e ter deixado a janela do carro aberta, por exemplo (hipótese que entendo até menos graves do que outras que serão tratadas).

    Não há estudos,de que eu tenha conhecimento, sobre o comportamento da população como reflexo do seu arcabouço cultural, mas muitas vezes é possível ver um padrão e um link entre cultura, padrões sócio-culturais e conduta comportamental individual. Esse é o objetivo do artigo: explicitar (ou tentar explicitar) essas relações.

    Muitos padrões entre países distintos são semelhantes por haver uma identidade histórica e cultural e hoje em dia a globalização, os filmes, a televisão e a internet aproximam muito as culturas e mais padrões comportamentais se aproximam justamente por estreitamento e facilitação de identidade de valores morais, religiosos, culturais e sociais, além de troca de experiências através dessa intensa comunicação entre povos. Isso entretanto não impede a manutenção de parâmetros próprios de identidade desses países. Veja um exemplo: os países ocidentais têm uma aproximação de identidade de valores e comportamental mais semelhante entre si do que se compararmos essas condutas individuais e esses valores com os de povos asiáticos. E dentre os povos ocidentais, latino-americanos terão mais em comum entre si do que se compararmos a conduta dos indivíduos desses povos com os povos ocidentais de origem anglo-saxã, como americanos e ingleses.

    Mas mesmo que haja uma aproximação cultural e social, em que o comércio tem importância ímpar, o fato é que cada povo tem sua história e esta cria paradigmas sociais que refletem valores culturais únicos desse povo e muitas vezes alguns desses paradigmas podem levar a uma propensão comportamental do indivíduo de efeitos negativos para a sociedade; negativos considerando-se as limitações que impõem à própria população para resolver problemas em sociedade que se apresentam justamente por conta da adoção involuntária e inconsciente do tal paradigma sócio-cultural-comportamental.

    Então, assim como o indivíduo faz coisas em sua vida particular que o prejudicam, simplesmente porque não perceber as causas e consequências de algumas opções que acaba por fazer de forma inconsciente, como uma expressão de sua natureza, o cidadão também age em sociedade de forma inconsciente e sem ter a noção de que poderia agir diferentemente se entendesse porque faz essa escolha comportamental inconsciente. Assim como se pode tratar o indivíduo de preconceitos comportamentais em análises e terapias, este artigo se propõe a explicitar dois parâmetros essenciais brasileiros e norte-americanos que prejudicam o avanço de nossas sociedades e a melhoria de vida de nossas populações e, desta forma, propiciar a auto-crítica a essas populações.

    Naturalmente a questão é complexa e não pretendo esgotar (como se fosse possível) a questão, ainda mais em um artigo do Blog, mas creio que posso apresentar esses dois paradigmas básicos do Brasil e dos EUA com total convicção e com base em muita observação, análises de estruturas de roteiro de filmes e leitura. Explicarei os paradigmas e explicarei como eles influenciam o comportamento de brasileiros e americanos, mais pelo aspecto negativo, o que é o objetivo do artigo, justamente para se compreender esses comportamentos, suas causas e tentar, através da obtenção da consciência da existência destes comportamentos, mudá-los, para que nos permitamos, e às nossas crianças, ser mais felizes.

    Os dois paradigmas sócio-culturais-comportamentais dos EUA

    É importante dizer que esses são dois paradigmas que pude constatar com segurança e explicitá-los-ei a vocês. É importante que seja entendido que todo paradigma comportamental, como reflexo cultural, está atuando no subconsciente do cidadão e o impele a agir, mas isto é certo para a maioria das pessoas, sendo certo que muitas têm consciência de que certos comportamentos típicos e até comuns em sua sociedade têm causa errada e até lutam contra isso, seja pessoalmente seja socialmente.

    O Parâmetro Winner/Loser americano

    Este é um dos maiores males que assolam os norte-americanos como pessoas. A causa da adoção deste paradigma demandaria uma análise antropológica profunda, além de ser necessária análise histórica e sociológica sobre a formação da sociedade americana. Só isso dá um livro ou uma série. Freud, em se livro “O Mal-estar na Civilização”, no capítulo V, in fine, diz que a sociedade americana sofre de particular mal, mas que é um capítulo próprio e merece atenção especial (citação livre – a referência escrita aos americanos, quando Freud tece suas considerações, é lacônica e breve, mas dá a noção que eu exponho aqui).

    Para mim o maior mal americano deriva da adoção da crença de que alguns nasceram para ser vencedores (“winners”) e outros nasceram para ser perdedores (“losers”). Este termo é maciçamente repetido em vários filmes americanos. Veja dois filmes importantíssimos sobre o tema: “Jerry Maguire” e “Tiros in Columbine”, este último de Michael Moore. (Veja o poder dos filmes de Hollywood na pedagogia sobre o modelo de herói e influência comportamental em http://www.curriculosemfronteiras.org/vol10iss1articles/fabris.pdf)

    No primeiro, Tom Cruise vive a personagem de Jerry, agente esportivo que depois de obter sucesso em sua carreira sendo um amoral profissional que visa exclusivamente o lucro da empresa em que trabalha, vivendo, portanto, o parâmetro absoluto do “winner” que tudo tem e tudo pode, tem uma crise de consciência e passa a pensar na saúde de seus clientes desportistas e sugere oficialmente que sua empresa tenha menos clientes para cuidar melhor deles e de suas famílias. Nesse momento é demitido e passa a conviver com as frustrações dessa escolha moral repentina e da qual se arrepende, incorporando todos os problemas daquele que será tido por todos como o clássico “loser”. Mas o filme ao fim dá vitória empresarial (e moral) a Jerry, que consegue, mesmo contra as expectativas do mercado e de todos que o conhecem, ter sucesso e dar a volta por cima, obtendo sucesso em uma empreitada (abaixo do sucesso material anterior, bom que se diga) que, além de tudo, se pauta pelos parâmetros de uma moral e ética abandonadas pelo mercado.

    Esse filme é excelente e mostra que milhares de americanos sabem que o que se prega no “mercado” e o que leva a um sucesso material nem sempre está acompanhado do respeito ao que é certo, moral e ético. É evidentemente uma crítica. Por que todos devem ser amorais? Por que o enfoque total no resultado, à custa da vida de pessoas, ou de sua saúde ou de suas famílias?

    Bem, a resposta é a causa do filme: critica-se o paradigma winner/loser que está entranhado na sociedade americana. Não é preciso ser amoral para ser feliz e muitas vezes abandonar a busca do parâmetro “winner” americano é mais ético e traz mais felicidade.

    A crença efetiva neste paradigma sócio-cultural do “winner/loser” faz mães americanas esforçarem-se para que suas filhas sejam, até desde crianças, campeãs seja no que for, e temos milhares de menininhas que vão participar de concurso de misses mirins, sendo submetidas ao stress totalmente incompatível com uma vida infantil que deveriam ter.

    A mesma crença faz com que crianças tímidas americanas sejam consideradas “losers” e sejam escurraçadas nos colégios e escolas por todo o País, sem ajuda dos próprios pais, os quais, muitas vezes, acreditam na segmentação da sociedade neste parâmetro psicológico e virtual de winner/loser, nada podendo fazer por seus filhos, já que provavelmente passaram pelo mesmo e “assim é a vida”.

    Esta condenação prévia do sucesso e do insucesso de crianças é tema absoluto do filme “Tiros in columbine” de Michael Moore. Ele pergunta em seu filme porque crianças de onze anos matam 15 amigos do colégio “Columbine” e a resposta que encontra é que a sociedade americana pauta as pessoas no que têm e em pré-conceitos de quem é “winner” e de quem é “loser”. Se você é considerado no colégio “loser”, você nunca será “winner” e todas as crianças se afastam de você. Você não namorará. Você não é considerado por ninguém e quem se aproximar de você será “loser” igualmente. Todos querem ser “winners” e estes são os meninos ativos, extrovertidos, de grupos de jaqueta comum, mas que poucos vestem, pois só o grupo de winners veste essa roupa e somente os integrantes deste grupo podem aquiescer com a sua entrada no grupo ou não.
    Assim, a criança “loser” vive uma tortura ao ir à escola, não cria laços de amizade com os amigos e a existência de todos é um tormento em sua vida do qual não vê escapatória nem tem esperança de sair, por toda a sua vida (essa é sua impressão). Alguns se rebelam e matam a causa desse mal que, em suas confusas cabecinhas, são os coleguinhas que os desprezam. Outros não fazem isso e tornam-se adultos frustrados. Não há estatísticas, mas poucos devem conseguir sair desta prisão psicológica e ter sucesso. É desmotivante ser tratado e reconhecido como loser por toda uma sociedade.

    E esta perspectiva é fortalecida em sociedade na faculdade. Em toda a faculdade há irmandades, as frátrias. Bill Clinton e George Bush são de frátrias de suas faculdades. Como na Holanda e na Inglaterra, as frátrias são mini-sociedades em que você pode ou não ser aceito. Se você for aceito em uma frátria importante, do Bill Clinton, por exemplo, você terá acesso a Bill Clinton. É como a maçonaria, organização que muito influenciou a formação dos EUA. Portanto, somente por ser de uma frátria você já é percebido como “winner” ou “loser” e será tratado assim por todos. Isso é muito diferente com o que ocorre no Brasil, por exemplo, se você quiser ingressar ou ingressar em qualquer agremiação ou associação civil, como até mesmo a própria maçonaria, o Rotary Clube, clubes sociais etc..

    Alguém de uma frátria rica ou famosa mais dificilmente se relacionará com outra pessoa de uma frátria menos rica e menos distinta, pois isso não fortalece relações sociais e seria percebido como uma talvez fraqueza ou uma diminuição das possibilidades de realização do futuro “winner” daquele que é da frátria “grife”. Na Holanda é diferente porque o limite para entrar é somente a jóia que se paga e você paga de acordo com sua capacidade econômica, o que já te classifica sócio-economicamente naquela sociedade universitária e assim para a sociedade holandesa, mas é melhor do que nos EUA em que é mais difícil entrar nas frátrias “boas” já que é totalmente subjetiva a escolha dos integrantes e a indicação familiar ou de amigos é essencial. Para contornar a evidente discriminação entre colegas, hoje em dia faculdades renomadas determinam que cada frátria deva satisfazer uma cota mínima de hispânicos ou negros e asiáticos para permanecerem regulares no campus universitário (Exemplo explícito desta prática é visto no filme “Facebook”, e que Eduardo, o brasileiro protagonista e originário sócio de Mark Zuckerberg, informa que entrou para uma boa frátria para satisfazer a exigência de cota de latino-americanos na mesma, em que o próprio Zuckerberg não teve acesso).

    Estas organizações de clubes não teria problema algum se não se revertesse em uma prévia condenação social do “loser”, daquele que ficou de fora. No Brasil isso não existe dessa forma. Se você frequentou boa faculdade, não importa de onde veio, você é igual a qualquer um que está na faculdade, independente de cor, altura, peso, e dinheiro. Não há uma marca facilmente identificável. Nos EUA há: você é winner ou loser, dependendo da frátria em que está e isso mexe imediatamente com os relacionamentos que você terá em sala de aula, imediatamente. Na UFRJ, na Faculdade de Direito o máximo que existiu na minha época, e que nem de longe chega nisso que acontece nos EUA, é a existência de Núcleos de Estudos para os quais há vagas limitadas e você deve entrar por concurso entre alunos. Isso não dá nem para início de comparação pois o foco é exclusivo na atividade de estudo, apesar de serem grupos seletos. Não existe nada comparável no Brasil a esta segregação e segmentação social como existe nos EUA.

    Nem mesmo clubes sociais distintos são comparativos, pois clubes são áreas comuns de recreação e o acesso especial a alguém é menor exclusivamente por frequência de tal clube. Se você é de uma frátria norte-americana você é um indivíduo com acessos especiais a membros do grupo, você é realmente VIP, isso altera sua vida. E é usado para fazer diferenciação social mesmo.

    Observe o dano da adoção do sistema “winner/loser” nos EUA. Como ele prejudica os americanos?
    Este sistema sócio-cultural prima pelo resultado e não questiona nem debate o processo de crescimento pessoal, seja educacional, seja pessoal, seja social. O culto às aparências é importantíssimo nesta principiologia e à medida em que você demonstra possuir certas qualidades, a aparência de sucesso lhe garante o status societatis de “winner”. Neste sistema fama, dinheiro, bens materiais (roupas caras, mesmo que seja uma camiseta, carros grandes e caros, casas amplas e o último Iphone, Ipad ou qualquer coisa que consiga demonstrar que você não está para trás), aparência (botox, cirurgias plásticas em exagero), tudo que possa ser visto como alcance de uma etapa ou mais uma etapa de sucesso é importante e o mantém na ordem-do-dia como um “winner”. Frequentar ambientes de frequência limitada (humilhar-se na fila de prazo indeterminado para isso, inclusive, com pessoas sendo escolhidas antes de você, mesmo que tenham chegado depois)… tudo enfim para criar a imagem de distinção é importante.

    Por outro lado, o “loser” é o coitado que não consegue se adequar a este sistema de exigência de demonstração de capacidade financeira ou de inserção social. O Facebook foi idealizado, e isto é dito no filme, como sendo a idéia de Zuckerberg, como um meio de você mesmo criar o seu grupo exclusivo. Um brasileiro quando vê filmes americanos acha que alcança todas as nuances do que o filme passa, mas não entende, porque para isso teria de viver sob a adaga da pecha social “winner/loser” americana.

    Esta perspectiva casa perfeitamente com os parâmetros de uma sociedade consumista, o que é bom para empresas e para os negócios. Também casa bem com uma sociedade criada a partir da imigração de pequenos burgueses que perderam seu espaço de trabalho e comércio para as indústrias, desde 1750, na Inglaterra da revolução industrial. Produção e consumo.. e uma crença social que enalteça e propicie a continuação de produção e consumo. Existir coisas boas e caras não é ruim. Desejá-las e trabalhar para obtê-las também não. Coisas especiais e/ou exóticas são caras mesmo. Frequentar bons lugares também é ótimo e a procura por eles aumenta os seus preços. Isto não é problema. O problema é que nos EUA, em especial, há uma ansiedade social por demonstrar isto e afastar-se da pecha de “loser”.

    O sistema “winner/loser” praticamente se contrapõe à idéia de processo de crescimento pessoal e mesmo material. Se você é “winner”, você não é “loser”. Então a avidez por atingir esses parâmetros demonstradores da imagem de winner é quase uma compulsão que se reflete em compulsão por consumo, por coisas caras, por sempre mais. É importante ser especial e distinto dos demais e principalmente dos “losers”.

    Agora veja. Diminua isso para a realidade de uma família. Um filho que está bem materialmente é um “winner”. O que não está é um “loser”. Além da privação material que ocorre em um momento na vida do filho, ele ainda carrega uma pecha social (e familiar) de “loser”. Em uma empresa, o presidente é “winner”, os diretores são “winners”, mas enquanto os trabalhadores normais não se destacarem, são “losers”. Hispânicos, em geral, são losers. Nerds e feios são losers. Os Nerds têm uma saída, o sistema Merlin que explicarei depois.

    Isso estamos falando ainda na esfera privada e a imensa carga psicológica negativa que afasta americanos de americanos e que é grande sofrimento para os que não conseguem se encaixar no ideal “winner”. No Brasil nós não vemos a sociedade e indivíduos assim. Qualquer um pode ter sucesso a qualquer momento e você não é vencedor ou perdedor de nascença. O crescimento é um processo pessoal e cada um determina o que quiser fazer, como, quando e onde quiser. Todos têm potencial inato. Uns menos outros mais. Mas você não ter alguns bens ou frequentar alguns ambientes não diminuem sua condição social e pessoal. Diminui seu círculo social e sua imediata qualidade de vida, segundo parâmetros sociais, mas não te diminuem como pessoa.

    No aspecto mais amplo, e isso é mais grave, o “loser” não quer ser reconhecido e portanto, para fugir dessa pecha, além de você ter de se esforçar para apresentar troféus de status de “winner”, você não pode reclamar. Quem reclama é porque não se adaptou ao sistema e portanto é “loser”. Veja que dessa forma fecha-se o cerco: a sociedade tem um modelo de “winner”, isto pressupõe o atingimento de metas visíveis de sucesso (troféus do winner) e o “winner” se adaptou bem ao sistema. Não se questiona esse parâmetro. O loser não quer ser reconhecido e portanto não pode reclamar. Quem reclamar do sistema é loser. Assim, o parâmetro se perpetua, com todo o potencial negativo de criar psicoses e paranóias em seus cidadãos, em virtude do fato de que a maioria não atingirá o parâmetro “winner”. E enquanto isso não ocorrer você é um exemplo do loser. É duro.

    Eu já ouvi em Nova York um americano, em uma van que conduzia estrangeiros para aeroportos, em um debate sobre os EUA entre mim, minha esposa, o americano e um casal francês e um casal alemão, o americano defendeu que nada se fizesse pelo sem- teto, sob o argumento de que cada um tem a liberdade de fazer o que quiser e que nem todo mundo vence neste mundo. Ele era contra ajuda aos sem-teto pois a pessoa deve se virar sozinha. Eu coloquei para ele que algumas pessoas estão naquela condição porque tiveram pais bêbados, falta de estrutura familiar e portanto não tiveram a mesma oportunidade escolar, familiar que uma pessoa normal e por isso deveria ser ajudada, já que é uma cidadã igual a ele. Os franceses e alemães concordaram comigo e o americano ficou pensativo. Em seguida, falei que por este mesmo motivo estava correto Obama querer reformar a saúde e garantir acesso gratuito a tratamento da saúde de miseráveis e pobres, porque alguns têm dificuldades pessoais para obter esse tratamento por si só, mas em uma guerra todos lutam pelo mesmo país, com o mesmo sangue a ser derramado no campo de batalha. E então ele comentou que “realmente algumas coisas estamos revendo”.

    Vejam, a adoção do sistema winner/loser aliena o americano do questionamento do processo de crescimento pessoal de cada indivíduo, condena imediatamente cidadãos à casta de “winner” e “loser” e leva a milhões de americanos a não enxergar as dificuldades pelas quais seus concidadãos passam, nem acham necessário medidas para ajudar essa população a crescer, pois quem for winner, se erguerá sozinho e quem for loser não tem solução mesmo. Assim, os EUA têm hospitais públicos que não são gratuitos e os pobres que não têm emprego não têm como pagar por qualquer tratamento de saúde. São 40 milhões de pessoas nessas condições. Mas eles não devem ser ajudados, segundo a maioria americana, Pois se forem winners se virarão sozinhos e se forem losers, não cabe à população levar nas costas os losers. Veja o filme “$O$ $AÚDE – $ICKO” de Michael Moore e estarreça-se com a realidade da saúde norte-americana. Veja o filme “À procura da felicidade”, com Will Smith, no talvez maior clássico da demonstração do culto ao parâmetro Winner/Loser da produção cinematográfica americana. Ninguém precisa passar pelo que a personagem de Will Smith passa no filme; um europeu que veja o filme ficará chocado porque a assistência social européia nunca deixaria alguém ficar naquela situação de abandono. Mas Will termina virando, por esforço próprio e mais do que exclusivamente seu, sua condição de loser e se emprega bem, tornando-se, ou deixando fluir o que sempre foi, um “winner”, chegando à felicidade.

    OBAMA e, graças a deus, seus eleitores se esforçam para aprovar a modificação no sistema de saúde americano e dar o que milhões não conseguem obter sozinhos. Mas o importante aqui é como há argumento sócio-cultural para manter o abandono de milhões de americanos, ao invés de pensar-se em sistema de assistência social, educacional e de saúde que crie ambiente para que todo americano possa se desenvolver ao máximo, educacionalmente, pessoalmente e socialmente.

    Quem está bem é tentado a pensar que “eu estou assim porque fiz por onde e sou winner; cada um que faça o seu”. Assim, quem está mal ou ainda não está tão bem tem privado de si meios sociais para ajudá-lo a crescer, tem dificultado meios de se desenvolver a seu mal e a mal da própria sociedade americana que podia ter mais pessoas felizes, saudáveis e menos pobres. Entender o sistema “winner/loser” é o primeiro passo, e definitivo, para uma alteração comportamental norte-americana que os prejudica a mais do que a qualquer outro país no mundo.

    O padrão de reconhecimento de status social é nos EUA muito diferente do que se observa em qualquer outro país que também é influenciado pelo efeito Veblen (classe C quer adquirir bens da classe B que quer adquirir bens da classe A, que quer adquirir bens que ninguém possa adquirir). A maior diferença entre todos os países é a criação de uma casta fluída e mutante de dois tipos de cidadãos americanos “winner” e “loser”, que é aplicada desde que nasce (branco ou negro/hispânico? família boa ou família ruim?), passando por quando entra em escola, acompanhando-o enquanto se forma na faculdade e ainda por toda a vida enquanto tenta se firmar profissionalmente e à medida em que obtém ou não troféus de winner, para fugir da pecha de loser.

    Isso é o sistema “Winner/Loser”.

    Importante salientar um outro efeito importante de fragmentação social que deriva da adoção do parâmetro “winner/loser”. Como forma de adaptação social ao padrão “winner/loser”, aqueles que não se encaixam nos parâmetros clássicos de “winner” (bem nascido, rico, bonito, alto, loiro de olhos azuis… coisas do gênero) criam seus próprios grupos dentro dos quais pode ser “winner” ou não assumir o padrão “loser”. São as criações de grupos sociais fragmentados que existem como reações à esta aparência de fraqueza social. É uma reação social que alimenta uma divisão social. Assim, enquanto no Brasil todos são brasileiros, mesmo sendo descendente de negro, branco, índio ou asiático, nos EUA há bairros negros, bairros chineses e de hispânicos, há toda a forma de compor grupos que possam se proteger e possibilitar uma convivência social e pessoal mais gratificante, já que estas pessoas são excluídas da sociedade americana. Isto também prejudica a noção de cidadania que se transforma em uma identificação com uma imagem do País, já que o país é um grande “winner” global e todos são cidadãos. O filme “Gran Turino” de Clint Eastwood é ótimo para você ver como Clint tenta resgatar um excluído “loser” asiático e tenta inseri-lo na sociedade americana, fazendo-o mudar de atitude, até que ele “merece” receber um troféu de um verdadeiro “winner”: seu carro Gran Turino.

    Para estudar este parâmetro sócio-culutral-comportamental norte-americano veja o filme “Tiros in Columbine” (o mais didático e importante). Em seguida, assista “Jerry Maguire” (a transformação de winner em loser e depois a grande virada para apresentar um novo tipo de sucesso – o mentor de Jerry em um momento diz “Na minha vida eu perdi tanto quanto ganhei. Mas eu amo minha esposa, eu amo minha família e desejo a você o meu tipo de sucesso“) e “Gran Turino” (a inserção de um asiático na sociedade americana e a demonstração de que a transformação de loser em winner é possível a qualquer um).

    O tema é sensível. Podem me acusar de criar modelos genéricos que não refletem a realidade. Mas o mesmo foi feito por uma especialista em comportamento, Lilian Glass em seu livro “Eu sei o que você está pensando”. O objetivo dela é mais específico: interpretar o pensamento e desejo humano através da interpretação dos sinais corporais (rosto, postura de mãos, braços e pernas, posições de formas das sobracelhas e direcionamento do rosto e da cabeça etc..). Ela elenca 14 modelos de “pessoas” ou “padrões comportamentais”. Criar modelos é duro. Exige análise e estudo. Mas quem os faz deve submeter à sociedade e defender sua tese. Ela apresentou e aprovou a dela em doutorado. O meu está aqui para você pensar se merece crédito.

    A Síndrome de Merlin

    Não fui eu quem cunhou este termo, infelizmente. Li que um estudioso norte-americano questionando algo do comportamento do americano típico, não me lembro em que ocasião, explicou o que era a síndrome de merlin.

    A síndrome de Merlin é o culto à imagem de que pessoas difíceis e enigmáticas podem ser especiais, extremamente inteligentes ou brilhantes. É um culto sobre a imagem do cientista maluco. Einstein. Sua foto mais conhecida é descabelado, de cabelos brancos, com a língua de fora. Mas ele é gênio. Ele pode. Esta postura não seria admissível como foto de Donald Trump ou mesmo do simpático Barack Obama, mas Einstein pode.

    A adoção do conceito da síndrome de Merlin é ruim e é uma evidência de mais um preconceito social. Sabemos hoje que muitos gênios são simplesmente normais. Gostam de beber, jogar futebol, ir à praia e de ter uma família. Mas não é esta a concepção por trás da adotada síndrome ou parâmetro de Merlin na sociedade americana.

    Através da adoção deste princípio, uma pessoa pode fazer uma viagem e voltar outra completamente distinta. Distinta pelo conhecimento que adquiriu. Pode ser diferente dos padrões de “winner” clássico, sem ser loser. Esta figura tem aceitação e respeito na sociedade americana. É uma pecha social, mas de menor degradação. Se é para não ser winner, é melhor ser Nerd do que ser loser. Os nerds (ou geeks) são a personificação perfeita em sociedade da adoção do parâmetro sócio-cultural-comportamental Merlin.

    Por que isso é ruim? É um identificador social forte. Você sendo nerd, não deixará de ser tratado e identificado como tal. É visto como um tipo de ser humano americano. A maior prova do que digo é um reality show degradante em que se observa se Geeks e Patricinhas (meninas bonitas e descoladas equivalentes às winners femininas) podem conviver e até, quem sabe?, namorar. Não sei o nome do reality americano, mas vocês devem saber do que estou falando.

    Os rapazes aceitavam a classificação de geeks. E aceitavam que elas eram algo superior e inalcansável. Elas exerciam uma magnânima e surpreendente experiência, concedendo a eles a oportunidade de se relacionarem. Isso é um absurdo, mas era tratado como uma experiência de convivência entre classes de indivíduos. Não como se fosse aqui, por exemplo, feios e bonitas. É diferente. Não existe isso no Brasil. Só você vendo o reality para entender.

    Eles eram admirados por serem inteligentes, mas já estavam rotulados como um grupo especial: os geeks. Viveram sempre nesta condição e assim são reconhecidos em sociedade americana. É uma saída social para o aparente “loser” e uma justificativa lógico-social para o fato de alguns aparentemente losers poderem se equiparar e muitas vezes sobrepujar, materialmente e em troféus, “winners” clássicos. Bill Gate é um exemplo. Mark Zuckerberg do Facebook é outro.

    A síndrome de merlin também é uma fuga para o que não conseguiu ser “winner”. Sumindo, viajando e reaparecendo com uma novidade comportamental você pode obter uma redenção social da pecha de loser. Bebendo e adotando comportamento excêntrico você pode adotar o perfil do cientista ou filósofo excêntrico e obter redenção social para sua situação aparente de loser. Sendo difícil de lidar, sendo impenetrável, sendo ríspido, você não se permite ser conhecido e na dúvida, você pode estar escondendo uma pessoa magnífica para a sociedade. É importante que esses excêntricos sejam vistos com atenção, pois podem ser gênios, indicaria a “síndrome de merlin” a um americano comum. Isto tudo ocorre inconscientemente, gente, mas é evidente e constatável.

    A adoção deste ideário estimula a instrospecção. Afasta indivíduos. Isso é ruim pois estimula em sociedade esse preconceito e esta rotulação e isto não estimula inserção social, mas mero enjeitamento de losers através de adoção de comportamento evasivo. Mas um clássico “Merlin” é aquele que tem sucesso. Seu potencial fica escondido, mas ele tem ou terá sucesso. A personagem do Oficial do Exército cego e reformado vivido por Al Pacino é um bom exemplo. Ele apresenta-se difícil, indômito, grosso, intratável no início do filme, mas o rapaz (ou a jovem, não me lembro) que terá de ajudar a cuidar dele por convivência aprende sobre suas virtudes e aprende a admirá-lo. No início do filme você o imagina um loser. E no final ele aparece como um verdadeiro winner. É a exploração da “síndrome de merlin” que o redime.

    Ele chega nessa de condição de winner através do argumento do parâmetro de merlin. Esse artifício é extremamente comum nos filmes americanos. Isto existe no ideário americano. Todo tipo de rotulação comportamental que o cinema precisa realizar para facilitar o reconhecimento da trama, no caso dos parâmetros sócio-culturais-comportamentais que apresento vão muito além disso na sociedade americana. Rotulam-se as pessoas subconscientemente, de forma normalmente expressa e há consequências sociais e pessoais destas rotulações, transbordando para a própria sociedade como um todo. E isto é um problema que deve ser tratado. A continuação desses rótulos prejudica e muito a vida dos americanos oprimindo-os moralmente, dia-a-dia e espero que com esse artigo isto fique mais evidente.

    Deixo aqui minhas homenagens a todos os americanos que ajudam a tratar esse mal psico-social que assola esta sociedade: a existência de parâmetros sócio-culturais-comportamentais “winner”, “loser” e “merlin”. Michael Moore por excelência, com o filme “Tiros in Columbine”, mas também os envolvidos nos filmes “Jerry Maguire”, por tentar mostrar que há outro tipo de sucesso além do clássico winner americano e também Clint Eastwood com Gran Turino. Este último filme não adota o melhor meio de combater o sistema winner/loser, ele na verdade o reforça dizendo que todos os excluídos nos EUA podem ser assimilados pela sociedade americana, mas tem o mérito de tentar conciliar a sociedade americana sugerindo a inserção social, mesmo que sem questionar o parâmetro loser/winner.

    Agora os parâmetros prejudiciais brasileiros.


    Parâmetros Sócio-Culturais-Comportamentais do Brasil

    Well, well, well, .. digo, bem… o problema brasileiro é menos grave. Muito menos grave. Mas também temos parâmetros sócio-culturais-comportamentais que prejudicam nossa sociedade. Um que está praticamente obsoleto é a Síndrome do Vira-latas. Até o sucesso do plano real nossa autoestima estava baixa e culpávamos a ditadura pelos males do País, não vendo saída para as desgraças sociais que nos assolavam. Os ricos se identificavam mais com as elites européias e americanas e não se voltavam para as necessidades do Brasil e dos brasileiros.

    Nossos empresários, em geral, flertavam com a liberdade negocial americana e os resultados em qualidade de vida dos governos estrangeiros europeus e americanos. Tudo de fora devia ser copiado e empresários brasileiros não teriam capacidade para competir com estrangeiros. Só de ser estrangeiro o cidadão já gozava de um status societatis superior no Brasil (europeus e americanos, claro), nossas meninas eram atraídas por estrangeiros, nossos rapazes pelas meninas estrangeiras e um vácuo de cidadania brasileira era sentida até pela falta de qualquer serviço público de qualidade, fora alguns centros de excelência (universidades públicas, BACEN, BB, BNDES, Embrapa…).

    Isto tudo gerava uma desesperança e alimentava a síndrome do vira-latas no brasileiro. O brasileiro não se sentia um ser humano com pedigree, como poderiam se imaginar europeus e americanos. Mas isso mudou com o fim da inflação e o resgate do valor da moeda brasileira, seguida das políticas de transferência de rendas e diminuição da pobreza, de políticas industriais mesmo que fracas, no governo FHC e Lula, e no crescimento vertiginoso econômico, principalmente após o início do Governo Lula em 2002.

    Quando eu era adolescente, havia sempre uma piada automática quando você era obrigado a se desviar de excrementos de cachorro na calçada… hoje ninguém fala mais isso. Fatos econômicos e políticos geraram o fim da Síndrome de Vira-Latas.

    Agora há outras síndromes que devem ser tratadas e falarei das mesmas a partir de agora.

    Síndrome do Fidalgo

    Esta é a mais grave síndrome que ainda assola nosso país. De forma diferente da época entre os anos 30 e 80, cujo modelo personificador deste comportamento posso apontar como sendo Jorginho Guinle.

    A síndrome do fidalgo deriva de nossas raízes lusitanas e do modelo econômico e político de ao menos o século XV. A expansão marítima criou um grupo de portugueses aguerrido, criativo, que abriram rotas comerciais para o Oriente, a partir da impossibilidade de poder continuar a negociar especiarias que vinham via Constantinopla, tomada pelos turcos em 1453 e hoje denominada Istambul, capital da Turquia.

    Mas ao mesmo tempo criou uma grande classe de nobres e comerciantes que com o passar do tempo viviam exclusivamente dos tributos e dividendos que o comércio de especiarias, do oriente e depois do Brasil, juntamente com a exploração de metais preciosos e pau-brasil novamente do Brasil, proporcionavam.

    Deste período em diante, em Portugal, viver de rendas era tido como algo nobre. As guerras e o espírito criativo e aguerrido dos portugueses, que retomaram suas terras dos árabes muçulmanos e reergueram aquele país, aos poucos cessaram e acomodaram o espírito do português que passava a viver dos benefícios conquistados por seus antepassados. Portugal, que mesmo do tamanho do Estado do Rio de Janeiro, criou um império gigante mundial, praticamente dividindo o mundo com a Espanha nos séculos XV e XVI, antes da sobrevinda e expansão do império inglês, agora descansava. Vivia da exploração vegetal e mineral e mero comércio básico desses produtos. Não havia incentivo à criação, à produção, à criatividade, mas o estímulo ao ócio, considerado nobre e digno de que fosse “filho-de-alguém”, “filho-de-algo”, “FIDALGO”.

    Assim, senhores, este espírito em parte remanesceu por aqui. O apego à tradição é comum em qualquer sociedade. A criação de camadas sociais também, já que a organização política e econômica não pode ser protagonizada por todos em sociedade, nem que quisessem ou pudessem. E a despeito de nós termos sido agraciados com milhares e milhares de imigrantes criativos e trabalhadores (ler o livro “Brasil na América” de Manoel Bonfim), principalmente portugueses no início,naturalmente, e muitos sendo judeus ou cristão-novos, o espírito da languidez e da identificação com valores nobres portugueses remanesceram por aqui e o pior deles: a síndrome do fidalgo.

    Naturalmente, a evolução dos tempos altera perspectivas e formas de como se pronuncia em sociedade esta síndrome, mas o pior que posso perceber é que esta síndrome, apesar de não atacar nosso ímpeto em construir e empresariar (Graças a Deus), leva, hoje, a uma rejeição à participação de movimentos reivindicatórios.

    Só reivindica quem precisa. E como não se quer demonstrar que se precisa de algo, não se reivindica e assim temos a prostração social. Reclama-se, mas não se reivindica. A classe média não pode, por exemplo, participar de greve, como ocorre na França e na Alemanha. Greve, segundo a ótica do “fidalgo”, é coisa de operário, de plebe, de pobre, de pessoas que passam necessidade.. e o integrante da classe média, aspirante a algo em sociedade, não poderia compor essa “bandalha” (rsrs..), pois nada o atinge, ele não sofre como os grupos que reivindicam, ele está acima disso, ele é o FIDALGO.

    Então veja, muitos movimentos de greve, como dos professores e dos médicos, não contam com ele. Os sindicatos não podem ser experimentados por seus pés, pois um verdadeiro fidalgo não frequenta “isso”, mas os clubes e festas finas da sociedade. O fidalgo tem tempo para seu ócio e não laboraria em causas, principalmente reivindicatórias de mais salário ou qualidade de vida, pois como todo fidalgo, ele já tem isso. Mas se apieda dos que ainda não conseguiram e apóia, de longe, os movimentos,.. tadinhos. Mesmo os movimentos da mesma classe a que pertença.

    Assim, os sindicatos são mobilizados muitas vezes por pessoas com espírito aguerrido, mas normalmente de origem humilde, não representante da classe média clássica/tradicional brasileira, e portanto, também não poderá contar com a presença e participação do FIDALGO… afinal, como ele pode se misturar a esta plebe? Mesmo que sejam eles os que lutam pela melhoria real de salário e qualidade de vida do próprio “fidalgo”, ele não engrossará as fileiras reivindicatórias de sua classe.

    Agora pergunto: não é psicótico? Tanto quanto o problema winner/loser americano, apesar de não causar mortes entre crianças, não é um absurdo? Essa síndrome é oposta a do winner/loser, pois eleva a alma do cidadão que se vê maior e o exterior não o atinge. No sistema winner/loser há uma repressão psicológica constante e isso deprime o indivíduo. Mas o efeito de nada fazer e nada reivindicar é semelhante.

    O importante é que isso imobiliza a sociedade e esta síndrome deve acabar. Temos de participar de movimentos reivindicatórios, integrar sindicatos, associações profissionais e associações de uma maneira geral. Esta síndrome também prejudica a agregação social na forma de grupos, clubes e associações civis, das quais o sindicato é apenas um exemplo. Isto porque um verdadeiro “fidalgo” não depende de ninguém; e, sendo assim, por que se associar, sindicalizar-se?

    Nós, brasileiros, somos muito gregáveis, talvez os mais gregáveis em todo o mundo. Adoramos amigos e a família, mas pecamos muito nas organizações sociais e de classes. E isso é reflexo da síndrome do fidalgo.

    Resta assim evidenciada a síndrome, seus reflexos negativos e nossa necessidade de combater esse paradigma sócio-cultural-comportamental brasileiro para o bem de nossa sociedade.

    Agora, mais uma síndrome: o culto ao coitadinho.

    O CULTO AO COITADINHO (desenvolvido em janeiro de 2020)

    Importante que nós possamos ter noção desta síndrome social. É algo facílimo de perceber e, como a síndrome do fidalgo, também não é nada grave que se compare com os efeitos devastadores da síndrome americana “winner/loser”, mas prejudica a sociedade.  Em parte prejudica aqueles indivíduos que obtém grandes resultados em nossas sociedades, fazendo com que não sejam tão estimulados como poderiam e deveriam ser, assim como estimula a conduta subserviente e servil de outras, para que continuem a obter as graças que a sociedade brasileira cultiva em relação àqueles que “nada podem”, “que são humildes”, “que precisam de nossa ajuda” que são “os coitadinhos”.

    O tema é um pouco sensível porque pode aparentar que estamos recriminado os coitados ou desafortunados, incluídos aí os mais pobres, os menos inteligentes, os menos capazes de toda sorte e que devem ser ajudados. Não é nada disso. Toda sociedade no mundo possui pessoas que são menos capazes em várias áreas, que têm muitas necessidades de toda sorte e que devem ser ajudadas. Somos a favor do sistema de bem-estar social europeu e mesmo qualquer sistema de bem-estar social, sendo que o europeu e nórdico são os melhores. Não é nada disso.

    O que criticamos é o comportamento patológico-social. Aquele que leva o indivíduo e a sociedade a agir de forma irracional em seu prejuízo e de seu cidadão, mesmo aquele a quem pretensamente se pretendeu ajudar. O melhor aqui talvez seja exemplificar antes de teorizar.

    Por exemplo, Jorge Paulo Lehman, empresário suíço-brasileiro importantíssimo, já comentou/reclamou junto com seus sócios mais conhecidos, Beto Sicupira e Marcio Teles, que nos Estados Unidos aqueles que “vencem” não são estigmatizados e nem têm dificuldades de avançar naquela sociedade. Os acionistas de empresas sobre as quais eles avançaram, tomando a liderança de empresas americanas, como Heinz, Budwaiser, não os viram como vilões, mas como pessoas vencedoras, capazes e que estavam substituindo os gestores que não tinham conseguido se manter por não conseguirem se demonstrar mais capazes do que os “brasileiros”. Eles se ressentiam de que aqui, de alguma forma, quem tinha sucesso era mal visto. Isso é interessante. Isso é o desvio.

    Outros exemplos mais corriqueiros são até mais elucidadores. Um condomínio de residências de que temos conhecimento há anos era mal servido por uma pequena empresa de jardinagem. Essa pequena empresa na verdade era praticamente uma empresa individual. Mas sigamos. O jardineiro praticamente não ia efetuar seu serviço, não cuidou da qualidade da terra de mais de 1000 metros quadrados de jardins do condomínio e a terra empobreceu, assim como a vegetação praticamente se acabou.

    Com a contratação de uma paisagista profissional, o subsíndico teve a ideia de entender a razão do problema e obter sugestão para revigorar os jardins, ganhando em beleza, qualidade de uso de 1000 metros quadrados por todos os condôminos, valorização do imóvel, diminuição do calor ambiente e ter a manutenção disso. Foi constatado o abandono do jardim e falta de atendimento técnico em jardinagem básica, sugerindo-se um projeto de revigoramento, com abordagem paisagística, indicação de vegetação específica para as condições de cada área do jardim. A paisagista era de alto nível e com currículo de altíssimo gabarito, tendo participado de programas de televisão, atuado em Shopping Centers de elite.

    O Condomínio gostou muito da proposta mas considerou que o projeto poderia ser tocado pelo jardineiro, já que ele menos capacitado, mais pobre, que precisava mais do serviço do que a paisagista, além de fazer mais barato. Vejam, bem… o jardineiro que destruiu o jardim do condomínio não iria ser destituído por ser um coitadinho em relação à paisagista que avaliou o problema, indicou a causa da destruição do jardim, sugeriu a intervenção que obteria o máximo de vantagem em beleza e durabilidade da intervenção paisagística e valorizaria o condomínio garantindo uma nova área de lazer de 1000 metros quadrados para os condôminos, a qual seria, por esse grupo de condôminos, e quase ocorreu, dispensada por ser altamente profissional, especializada e “não precisar daquele serviço tanto quanto o jardineiro medíocre. 

    Nesse exemplo, os condôminos sofrem o prejuízo por anos com os serviços do jardineiro inapto e ao se depararem com a solução, quase resolveram continuar com o prejuízo, beneficiando um serviço e um profissional pior, com justificativa de índole social, estimulando o mal serviço do jardineiro e desestimulando a especialização da excelente profissional. Isso é exatamente o tipo de problema que o “culto ao coitadinho” cria em nossa sociedade.

    O correto seria, como é fácil de perceber, que os estudos da paisagista, sua capacidade de avaliar o problema e sugerir solução de alto nível positivo de benefícios duradouros para o condomínio fosse recompensada com a obtenção do contrato de prestação do serviço. Da mesma forma, o mal jardineiro teria uma lição prática do que seu desleixo ocasionaria e, talvez, isso pudesse fazer com que ele crescesse, passando a investir em sua carreira, profissionalizando-se e reorganizando seus métodos de trabalho. Mas, não. A paisagista teve a sensação de perda de tempo, que quase perdeu a concorrência para um jardineiro que, justamente, tinha sido o causador do mal pra o qual ela tinha sido contratada para intervir.

    De onde vem essa nossa forma de pensar? Nós entendemos que esse problema complexo tem duas facetas: uma religiosa, em que somos influenciados pela parábola de David e Golias, um pequeno e impotente judeu que resolveu enfrentar um gigante e poderoso fenício em uma guerra bíblica. Todos se identificam com o pequeno David e querem que ele vença. Mas todos são David, senhores? Não. Todo mais fraco é David? Não. Há que se ponderar. Ter méritos em nossa sociedade deve resultar em algum benefício, ao menos aquele que a sociedade promete ao cidadão que resolve investir em sua carreira.

    Mas não se trata somente disso. Nós merecemos ter os benefícios de uma melhor prestação de serviço vindo de uma pessoa que se preparou mais. Mas aquela identidade com o “mais fraco”, aquele reconhecimento do “coitadinho”, vem nos dizer que tudo devemos fazer pelo menos capaz, inclusive a sacrifício próprio. É uma distorção.

    Ninguém disse que você não deva fazer ações sociais. Ninguém disse que você não deve se doar, doar seu patrimônio, doar seu tempo pelas pessoas que precisam de ajuda, mas há uma distorção nessa síndrome de que falamos. Toleramos administradores ruins, profissionais ruins, temos inesgotável paciência porque de certa forma queremos dormir com uma consciência limpa de que nenhum mal fizemos a um coitadinho, mas a verdade é que muitas das vezes esse coitadinho está abusando de nós. E se não estiver, sem nossa atitude de exigir que ele melhore, ele não melhorará nunca.

    O problema é um mal que distorce as coisas como devem ser, o sistema natural de ação-reação, de sacrifício-retorno, bem como desestimula bons profissionais, ao negar-lhes seu lugar no mercado, ao mesmo passo em que desestimula os mal profissionais e pessoas que se conduzem mal de uma forma geral, e ainda impede a sociedade de se beneficiar da melhor capacidade dos maiores e melhores.Pelo menos maiores e melhores naquele momento de comparação, porque o pior hoje poderá vir a ser o melhor amanhã, mas nunca o será se todos o protegem de seus concorrentes.

    Naturalmente, o tema é complexo e aqui oferecemos, como nos outros casos, somente uma análise imediata superficial para que tenhamos a noção de que esse comportamento psicossocial do brasileiro deve ser entendido e objeto de reflexão para que revertamos esse mal que nos assola.

    (A continuar – Ver a inversão da posição de vítima.)
    Brasil – Síndrome do Fidalgo, Culto ao Coitadinho e a Inversão da Posição de Vítima

    p.s. de 28/01/2020 – O conteúdo do Culto ao Coitadinho foi desenvolvido em janeiro de 2020 e ainda está em construção, mas com contornos básicos fechados nos termos do texto acima. Muitos outros exemplos do culto ao coitadinho existem e devem ser denunciados para nossa reflexão, mas, como sempre uma pessoa que se demonstra incapaz estará sendo objeto de crítica, transforma-se  em um tema bastante antipático para nossa cultura. Anglo-saxões leriam isso como se fosse óbvio. E corremos o risco de sermos interpretados como frios, maus e sem coração. É um risco de se dizer a verdade. Corremos esse risco outras vezes, quando dissemos que empregadas domésticas não poderiam ter os mesmo direitos que celetistas pois seriam desempregadas, o que de fato aconteceu. E também quando dissemos que hoje, retirar sacos plásticos de supermercados é pura enganação social, pois somente deixamos de obter de graça os sacos de lixo que continuam a ser de plástico. Soa antiecológico, mas somente aponta a verdade para que foquemos na real solução e não em atitudes com teor de “bondade social” mas que é um engôdo e prejudica todas as pessoas envolvidas, até aquele que se tenta proteger com essas “atitudes generosas”.

    p.s. de 29/01/2020 – corrigida a data da queda de Constantinopla no início do texto sobre a síndrome do fidalgo. A data foi 1453 e não 1492 como originalmente escrito.

    p.s. de 28/02/2020 – texto revisto.

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