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Meu Livro Favorito — parte 4 [por Cadu Motta]

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Memórias do Subsolo ‒ Fiódor Dostoiévski

Na primeira vez em que peguei o livro, em 2004, não tinha a mais vaga ideia das questões que Dostoiévski, recém-saído do degredo e viúvo, discutia e parodiava, principalmente o pensamento dos radicais dos anos 1860 e os ideias românticos dos anos 1840, trabalhados, respectivamente, na primeira e segunda partes da novela. 

Posteriormente, tive acesso às sofisticadas interpretações dos filósofos existenciais Lev Chestov e Nikolai Berdiaev. O primeiro desenvolve uma associação simbólica entre a produção da novela e uma suposta visita do anjo da morte bíblico, que teria presenteado Dostoiévski com uma “segunda visão”, que fá-lo-ia romper com as antigas crenças estéticas, políticas. Um momento de crise e revolta que justificaria o tom assustadoramente cínico das observações do narrador, a quem Dostoiévski batizara de “paradoxalista”.

Berdiaev, por sua vez, concentra-se na análise da centralidade do problema da Liberdade na obra do compatriota, reconhecendo o narrador/paradoxalista da novela como representante da Liberdade em sua forma Arbitrária. Na ânsia de alforriar-se do determinismo defendido pelos radicais, o Homem do Subsolo se depara com um caminho bifurcado e opta pela via da negação, que desemboca, fatalmente, na autodestruição. O outro caminho possível seria o da Liberdade em Cristo. Dostoiévski, interpretado aqui como pneumatólogo, compreende o Deus-Homem como símbolo máximo da libertação. 

Essas leituras ocorreram na medida em que me aprofundava na especialização acadêmica, culminando numa tese de doutoramento sobre o problema da Liberdade n’Os Irmãos Karamázov.

Em que pese a titulação, permanece um questionamento espiritual sobre o pendor utilitarista da pesquisa acadêmica. Há que se reconhecer o aspecto positivo do processo, no que tange ao acréscimo de erudição e acesso a infinitos pontos de vista sobre obras e autorias. Contudo, se levado ao excesso, termina por atrofiar a intensidade e o gozo da experiência estética, essencial em uma obra dionisíaca como a Dostoiévski.

Para falar com honestidade sobre o impacto de Memórias do Subsolo, sinto o imperativo de me transportar ao momento original de leitura, e mais, de incorporar um devir-subterrâneo, cujo primeiro mandamento é o de, na linguagem do narrador, mandar ao diabo todo resquício de pose e formalismo acadêmicos, alvos privilegiados da metralhadora de ofensas e vitupérios disparados pelo nosso ácido anti-héroi. Esse indivíduo, isolado, exilado, humilhado e ofendido, é possivelmente o maior crítico do utilitarismo, da doxa e das boas (e falsas) maneiras de que se tem registro.

Liberto, temporariamente, da máscara de ferro da leitura acadêmica, me transporto e sinto fluir a experiência do fascínio pelo modus subversivo do Homem do Subsolo, em sua recusa a compactuar com a hipocrisia da ética e dos valores, que resultam, fatalmente, num egoísmo com pretensões estéticas e humanitárias. O “schillerismo”, ou seja, a busca pelo “belo e sublime”, é severamente expurgado dessa utopia às avessas.

Para Dostoiévski, que também é o Homem do Subsolo, e lhe cabe o crédito pela fundação dessa seita, tal virtualidade topográfica representa o último refúgio do indivíduo, não raro um gênio, a quem, pela intimidade com a morte e a ruína, pouco ou nada resta a perder. Desencarcerado do regime de tirania das convenções, flana à vontade para, em passos largos de elegância bruta, demolir os dogmas e axiomas que compõem as tradições milenares do processo civilizatório. E tudo isso, pasmem, no intento, puro e simples, de afirmação de sua personalidade, assumido com o mais descarado cinismo.

Se convém aos homens de ação que dois mais dois sejam quatro, ele profere e propagandeia que são cinco; se a eles preocupa as leis de conservação do universo, ele prefere que se instaure o caos, desde que possa continuar saboreando o seu chá recém-preparado. E tudo isso, simplesmente, porque lhe agrada; mas, observem, não se trata de um simples caso de manicômio ou de rematada canalhice. A decisão de antepor o chá à ordem do cosmo, o elogio ao capricho, afigura-se como estratégia de defesa ao que, segundo o Homem do Subsolo, deveríamos tomar como o nosso bem mais precioso, e que o trágico Pascal classificara, dois séculos antes, como o receptáculo da Imago Dei e, simultânea e paradoxalmente, de toda miséria dessa imensidão de espaços infinitos e aterrorizantes que nos circundam. Trata-se, tão somente, do nosso EU, essa fortaleza inexpugnável e inabarcável pelas leis da razão, da ciência, da lógica, da moral e do bom senso, que, por desforra, o reputaram como “odioso” e “dispensável”, logo, alvo dos piores vitupérios ao longo dos séculos. A teoria do conhecimento visa a neutralidade, o desprendimento, o justo meio, em suma, tudo que é naturalmente hostil ao domínio da personalidade. Humano, demasiado humano…

Não foram poucos os críticos que interpretaram o Subsolo como metáfora do inconsciente, embora os (modestos) recursos da Psicologia estejam muito aquém da possibilidade de abarcar a totalidade dessa experiência.

O postulante a trilhar tal caminho maldito é convocado a travar uma batalha de sangue, em primeiro lugar, contra si próprio, e depois contra o seu entorno, comandado pelos homens de poder: magistrados, acadêmicos, médicos, cientistas, políticos e artistas, enrijecidos em suas afetadas poses de autoridade.

É no movimento de recusa a tudo que é “bom”, “belo” e “útil” que a voz do Subsolo encontra a reverberação adequada para ecoar, estabelecendo seu discipulado entre aqueles que reconhecem a sua força, capaz, por si, de demolir os muros da arrogância, das certezas e das opiniões unanimemente aceitas e veneradas. Essa voz de destruição, que representa o polo negativo da divindade, ou, nas palavras de Jacob Boehme, a natureza tenebrosa de Deus, afigura-se como essencial a todos que desejam trilhar, em sua plenitude, o caminho da individuação. As primeiras etapas desse processo consistem no desmascaramento da fraude da persona, falsificação vulgar do EU, e, a posteriori, em assumir os atributos pouco desejáveis da sombra individual e coletiva, com entrega similar à do Cristo, quando tomou para si os infinitos pecados da humanidade. Mediante esse sacrifício sobre-humano, o indivíduo torna-se apto a retirar o véu das aparências modeladoras de um simulacro de existência, deixando transparecer todo o ridículo de nossa condição de postulantes a uma palavra final unívoca. Afinal, ninguém melhor do que aquele que (re)conhece o ridículo em si para desmascarar o ridículo do todo.

O Subsolo é um convite ao desvelamento das sombras, mais densas que do próprio Hades, que pululam no abismo insondável, e adverso à compreensão racional, da condição humana. É o gesto de libertação frente aos grilhões da vida esvaziada de sentido e marcada pelas regras, proibições e limitações que nos moldam à imagem e semelhança de um autômato, uma simples tecla de piano a ser manipulada pela vontade soberana das leis da natureza, esse odioso tratado irrevogável e tirânico que Spinoza confunde com Deus, que nos transforma em escravos de seus desígnios cruéis e indiferentes ao destino individual. É contra o despotismo frio desse ídolo que nós, discípulos do Subsolo, nos posicionamos, lutando brava e aguerridamente, à revelia dos “sábios” e “doutos” conselhos da “ominitude” (os juízos unanimemente aceitos) circundante. A derrota, apesar de certa, não deve ser levada em consideração, pois só a temem aqueles que valorizam em excesso os seus bens, materiais, afetivos ou eróticos, que pouco ou nada valem em comparação ao tesouro do autoconhecimento. Como prega o Evangelho, o Reino dos Céus só estará acessível àqueles que demonstrarem coragem suficiente para se despojar de todos os seus bens terrenos, inclusive da própria dignidade.

É mister que essa voz dissonante, dissidente e impertinente permaneça ecoando até a consumação dos séculos, para desespero da ominitude e de seus representantes, enfeitiçados pelos truques mordazes dessas leis falaciosas.

O trabalho está consumado. O grão de mostarda foi plantado. Agora, resta-nos relaxar e aguardar, com a devida paciência, o momento de colheita. Façamo-nos, de preferência, instalados confortavelmente em nossas poltronas, saboreando uma xícara de chá, enquanto contemplamos, por uma nesga de luz que, vez por outra, alumia parcialmente as trevas reinantes no Subsolo, a lenta, progressiva e infalível dissolução do cosmo. Quem ri por último, ri melhor.

***

Cadu Motta nasceu em 17 de agosto de 1979 no Rio de Janeiro. É jornalista, professor, escritor, roteirista e músico.

Leitor aficionado desde a infância, entre seus autores favoritos, destacam-se Fiódor Dostoiévski, Nelson Rodrigues, Jorge Luis Borges, Charles Bukowski, Franz Kafka e Fernando Pessoa. 

Na área acadêmica, tem mestrado e doutorado em Literatura, com especialização em literaturas brasileira, russa e comparada, além das conexões com outros campos, como a Filosofia, a Psicologia e a Mística. Atualmente, leciona em instituições como a PUC-Rio, o Centro Dom Vital e a Casa do Saber.   

Como escritor, dedica-se, há duas décadas, à elaboração de contos, crônicas, poemas e roteiros cinematográficos. Nesse ínterim, conquistou o terceiro lugar no Concurso Paulo Henriques Britto, organizado pelo departamento de Letras da PUC-Rio em 2009, com o conto Brincadeira, publicado posteriormente no Jornal Plástico Bolha. Também participou do Concurso Nacional de Novos Poetas, organizado pela Vivara Editora Nacional em 2020, e teve publicado o seu poema Rá-Tim-Bum. Recentemente, chegou a semifinalista do prêmio internacional Pena de Ouro, na categoria conto, e terá seu trabalho publicado em breve, numa antologia organizada pela comissão do evento. 

Contato:cvarell@gmail.com

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