Inflação 3 – Perspectivas Finais: o risco da inflação de falta de oferta

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    O tema inflação está sendo bastante batido. E com razão. Nõa abordam todos os elementos e por isso estamos aqui.. rsrsrs. Mas é importante o último dado publicado e merece comentário adicional às duas abordagens anteriores antes de podermos esperar o tempo e novos fatos se apresentarem.

    A prévia do IPCA de junho marcou 0,99%. Isso é muito grave. A se confirmar esse índice no fim de junho, a inflação terá passado de 6% no meio do ano. Por mais que 9% de inflação para o fim de 2015 como as últimas previsões pareçam muito pessimistas, 6% em meio ano é muito grave. Para que o índice feche em 7,5% no fim do ano, por exemplo, a inflação só poderia aumentar 0,25% ao mês até dezembro. É possível? Sim. É provável? Difícil. Pois dezembro costuma ter inflação um pouco mais alta pelas festas natalinas.

    Esse índice de 0,99% em junho, a se confirmar, teria tirado a margem da inflação alta de dezembro para manter a inflação abaixo de 8% ao ano. Ninguém previa junho em quase 1%! Para compensar isso, somente deflação em algum mês ou alguns meses no segundo semestre. Possível? Sim. Já se prevê aprofundamento de recessão no segundo semestre a se continuar a situação atual: endividamento da população (isso continuará), pessimismo dos consumidores (isso pode mudar) e pessimismo dos empresários( isso é o mias importante a mudar).

    A expectativa do mercado para ambiente de negócios está ruim. Como Vidro disse na sua coluna do Globo de hoje e nós já frisamos aqui, o governo deve deslanchar as concessões o quanto antes. Cada mês prejudica as expectativas. Apesar de Vidor elencar a área agrícola como ajudante na conteção da inflação, o que sempre é verdade, dessa vez a ajuda não é a de sempre. As secas graves tornaram a produção um pouco mais cara e mesmo a nova safra recorde (mais de 204 milhões de toneladas) não está sendo suficiente para dar um grande baque contra a inflação. Os produtos agrícolas respondem por 24% da inflação imediata e até 40% da inflação total, considerando impactos mediatos na cadeia produtiva e nos elementos de cálculos dos índices de inflação.

    Levy já reclamou da perpetuação dos efeitos do aumento do dólar nos índices inflacionários. Vidor mencionou na mesma coluna de hoje (22/06/2015) que o desânimo dos empresários está afetando a produção, o que significa que afeta a oferta de mercado, o que leva a alimentar a inflação, naturalmente. Além disso, o mercado internacional não reage e nem dá indícios que o fará em breve espaço de tempo.

    Tudo isto cria quadro negativo para a inflação, entretanto, a própria queda da economia, fato indiscutível, aumento de desemprego, queda pela primeira vez em mais de dez anos da renda, queda de venda de carros e imóveis (Ancelmo Gois publicou recentemente que os registros de pagamento de ITBI no RJ caíram 30% de 2014 para 2015 – são menos 30% de vendas!!) indicam que há pressão deflacionária forte atuando em sociedade e que mostrará mais agudamente seus reflexos assim que as grandes pressões inflacionárias do primeiro semestre (50% de aumento de combustíveis, quase 50% de aumento de energia elétrica, alta de preços administrados, alta de contratos privados de início de ano).

    Qual o grande problema? Não pode o governo deixar que o desânimo do empresariado se abata ao ponto de a falta de produção gerar inflação. Vidor disse que isto já está em vias de ocorrer ou prestes a ocorrer. Isso seria gravíssimo. Nesse caso, nem o Banco Central pode fazer nada, pois com demanda normal mas sem produção, os preços dos poucos produtos em mercado disparam!!! O governo tem responsabilidade neste ponto. Ele deve fazer girar a economia. Ele deve deslanchar as concessões. Há excesso de valores disponíveis no mundo, mas irão para onde haja perspectiva de crescimento. Nós temos potencial quase ilimitado para crescer, mas precisam deslanchar as concessões. Sem a circulação de capital, contratação de mão-de-obra e gastos provenientes dessas concessões, fica difícil imaginar deslanchar a economia porque não há consumidores internos ou externos para a produção de mercado para bens de consumo.

    E o pior é que o Banco Central vendo a inflação que não arrefece continua burramente aumentando juros, matando a produção e criando o efetivo risco de que seja sedimentada uma crise de oferta. Como nossa sociedade ocidental é ridícula e presa a curto prazo, não se publica nem se trabalha a hipótese de solução dos problemas atuais em dois ou três anos e o Banco Central vive esse açodamento, pressionado por expectativas ruins e pela mídia, em ter de trazer a inflação a ferro e fogo para 4,5% em 18 meses… todos sabem que os aumentos de juros exercem seus efeitos máximos depois de 6 meses do efetivo aumento procedido pelo Bacen… mas não adianta.. enquanto a produção não deslancha e situações conjunturais e temporais atuam gravemente sobre o índice da inflação, ao invés de se publicar as causas da inflação e entendê-las e aceitá-las para tomar medidas mais inteligentes (macroprudenciais), publicam-se números somente e exigem-se que sejam alterados a qualquer custo.

    Essa política aumentará o desânimo de investidores. Não há porque produzir se não há quem compre no Brasil ou no exterior e se no mercado financeiro você consegue 14% de retorno anual para investimento financeiro em título da dívida pública, enquanto muitas operações produtivas podem dar entre 10% e 20% ao ano com todos os riscos inerentes às respectivas operações. A continuar aumentando juros selic, o Bacen mais atrapalha do que ajuda. Os bancos agradecem, mas o setor produtivo, as contas públicas e o cidadão é que amargam o prejuízo que os agentes de mercado – que trabalham para os bancos – dizem que é efeito de remédio necessário… balela.

    E para mudar? Deslanchar concessões públicas, diminuir juros selic e adotar medidas macroprudenciais (dentre elas aumentar compulsório – sim.. o contrário do que o governo vem fazendo), torcer pelo aumento de crescimento mundial (difícil). Realizar tratados bilaterais ou multilaterais de comércio também ajuda. O Mercosul, com a Argentina do jeito que está (e tomando medidas unilaterais com chineses), realmente precisa oxigenar.

    Estamos acompanhando o desenrolar dessa trama complicada em que estamos.

    p.s.: Não tenho os dados, mas a safra recorde com aumento de valores de hortifrutigranjeiros não é comum. A seca e os custos de produção explicam em parte esse fenômeno, mas pode ser que hortifrutigranjeiros de consumo interno estejam perdendo espaço para grãos de destino à exportação como soja. Isso é ruim. Liberdade de mercado sim, mas como equilibrar isso com a segurança alimentar do brasileiro e os impactos inflacionários advindos da opção por uma oligocultura agrícola de destino à exportação?

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