Crítica ao artigo “Setor Público ignora conjuntura econômica”, publicado como opinião da Edição do Jornal O Globo

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    Há grande publicação na grande mídia sobre a “deterioração das contas públicas”. E há a tentativa de colar esse fato à idéia de “incompetência do governo na condução da política econômica”. O que realmente ocorre? Há incompetência na condução da política econômica? Em que consiste a “deterioração das contas públicas”.

    Veja.  A publicação da Opinião do Jornal O Globo sob o título “Setor público ignora a conjuntura econômica” é mais um de vários artigos publicados no sentido de que a economia vai mal, o pessimismo impera e a culpa é do governo por não fazer superávit primário, reformas estruturais, controle de inflação, gerando “pessimismo”, baixa de produção econômica e baixa de taxa de investimento.

    Mas o que está escrito, ao nosso ver, não é como as coisas aconteceram e acontecem. Há publicações como se os países ricos estivessem bem em forte movimento de recuperação, que os países latinos crescem nababescamente (publicado há poucos dias por Miriam Leitão) e que só o Brasil está em descompasso e que não crescerá e que tudo é um desastre. Botemos os pingos nos “is”.

    Senhores, os países ricos vão mal. Que isso fique claro. Grande parte da taxa baixa de desemprego dos EUA deriva de abandono de tentativa de os desempregados procurarem emprego. Isso foi publicado recentemente, ainda no mês de julho. O primeiro trimestre americano foi de queda do pib em 3%. Se isso fosse o caso aqui, as manchetes não seriam tão benevolentes como foram com os EUA. Seria publicado que o fim do mundo se apresenta. Mas lá não. Não são feitas previsões catastróficas aos EUA e aos Europeus ou japoneses. Nem pela mídia de lá e nem pela de cá. A economia japonesa está estagnada há 30 anos, e ninguém prevê seu ocaso. E recentemente, assim como Europa, os japoneses perceberam que devem perseguir “um pouco mais de inflação”, para possibilitar maior torque à sua economia.

    Os países latinos crescem sobre Pib,s muito menores do que o do Brasil. Seus crescimentos de 6% não são nada em termos nominais em relação ao crescimento de 1% do Brasil. Então, convém relativizar isso. E muitos desses países latinos não têm previdência pública como nós, o que é um grande alívio para as contas públicas deles, mas um prejuízo ao bem-estar social que já foi percebido assim no Chile por exemplo e a Bachelet teve de prometer rever a privatização da previdência pública e do sistema de ensino universitário. O povo quer mais universidade gratuita e previdência social pública, serviços públicos que existem na Europa, por exemplo….

    Então, o Brasil tem custos que países sem Forças Armadas ou Previdência Social Pública não têm. Mas esses custos com assistência e previdência social são necessários em um país que até bem pouco tempo tinha 40 milhões de miseráveis… hoje tem 6 milhões. Alguém publica isso? Só de forma totalmente apartada das contas públicas, percebe?

    Então, senhores e senhoras, como de acordo com recentíssima conclusão da Ficht (grande agência internacional de rating), não publicada no Jornal O Globo, mas publicada no Jornal do Commercio, concluímos que a economia brasileira está estável e forte. Mas houve avanços sociais que exigiram e exigem gastos públicos. Esses gastos fazem com que o superávit primário diminua. E o que você quer? Avanço social ou superávit gigante? Mesmo com esse gasto, não há reversão do aumento de dívida pública líquida ou bruta de forma irresponsável. E só estamos no meio do ano para afirmar que mais superávit não será entregue.

    E além disso, contribui para a baixa do superávit primário as desonerações tributárias que somaram 58 bilhões de reais ano passado e outros tantos ocorrerão esse ano. Então, há irresponsabilidade informativa e falta de honestidade nessas abordagens de que a baixa do superávit é por irresponsabilidade na condução da política econômica. Os erros ou ousadias do governo na economia estão em poucos e determinados pontos, como a questão elétrica, a questão da gasolina e a “contabilidade criativa” que toda empresa privada faz, mas que o governo percebeu que não pode fazer, ou seja, já é praticamente passado. Sem contar que a contabilidade do governo é pública e auditável pela oposição e pela mídia, como estão fazendo.

    Então, e o crescimento baixo e a baixa taxa de investimento? Senhores, o mundo está crescendo menos. E as famílias brasileiras estão endividadas. A bolha imobiliária chega ao início de seu fim, inclusive com notícias em telejornais nacionais de que imóveis estão sendo devolvidos. Isso mostra que o cidadão chegou no seu limite e comprará e tomará menos empréstimo. Então é normal que a economia esfrie.

    Além disso, não utilizando medidas macroprudenciais para não ser necessário elevar tanto a Selic para controlar a inflação, as empresas param de investir em produção e aplicam seu dinheiro em mercado financeiro, baixando a taxa de investimento. Então, seja por um mercado mais frio, interna e internacionalmente, seja por que a Selic é ótima e os juros reais os maiores do mundo, as empresas diminuem investimento e aplicam dinheiro na ciranda financeira. Isso baixa taxa de investimento.

    Nesse quadro, em que a inflação ainda está na meta e em julho deve fechar em 0,17% – tendo índices como o IGP e o IGP-M apresentado deflação em dois meses seguidos – e em que as empresas não têm ambiente propício ao investimento porque se aumentarem a produção não terão para quem vender no Brasil ou no exterior, é normal que haja um pessimismo. A culpa não é do governo, no nosso ver.

    O que poderia estar sendo exigido? O contrário do que o Banco Central está fazendo ajudaria: baixar juros e aumentar depósito compulsório teria o condão de aquecer a economia, pois não assusta os investimentos das empresas, sem criar dívida pública e sem facilitar demais o consumo, que hoje está no limite. De resto é esperar o mundo melhorar e passar o tempo para que as dívidas familiares vão sumindo à medida em que são pagos.

    Apresentar oportunidades de investimentos ao mercado como concessões de ferrovias, aeroportos, portos, hidrovias, metrôs, trens e grandes obras públicas em geral são ótima medida para ativar a economia e em parte isso já está sendo feito, como todos podem ver. E em cima disto a mídia poderia informar para catapultar oportunidades de investimentos, alimentando um otimismo para mudar a trajetória de queda do PIB… mas há esse interesse na grande mídia? Não. Por quê? Porque o pessimismo antes da eleição é interessante para a oposição e para os centros financeiros internacionais, que podem manter pressão no Brasil por juros Selic altos, dentre outras sugestões de soluções, como retirar direitos trabalhistas brasileiros, facilitar terceirização de pessoa física (o que acabaria com o emprego que existe hoje e suas garantias obtidas após décadas de lutas socais – há projeto no Congresso com esse propósito.. pasmem), bem como perseguir e instalar o projeto de Estado Mínimo, em que todos os serviços públicos deveriam ser prestados pela área privada, já que ela, sim, seria eficiente.. rsrsrs

    É claro que isso não tem nenhuma ligação com interesse por aumento de propagandas em jornais, que não existem tanto com serviços prestados pela área pública, ou com eventual interesse em a área privada conseguir zerar ao máximo os impostos no Brasil, privatizar a Previdência Social, e tornar cargos públicos acessíveis por currículo… rsrsrsrs

    A verdade, senhores, é que a economia vai bem e está equilibrada, mas a “conjuntura econômica” não é favorável pelos motivos aqui expostos e o governo tem tentado melhorar a alavancagem de nosso pib, inclusive cortando impostos. As alterações de resultados previstos em orçamento público no fim do ano anterior devem ser acompanhadas e as contas públicas adaptadas (menos crescimento constatável, menos arrecadação..). Mas isso está longe de ser uma irresponsabilidade do governo. A mídia deveria falar algo mais verdadeiro sobre as causas do pessimismo para que pudéssemos discutir saídas reais, erros reais e medidas melhores. Mas a proximidade do pleito presidencial impede esta atitude.

    O artigo ora criticado foi muito ruim no sentido de esclarecer o pessimismo econômico atual, suas causas e eventuais soluções.

    p.s. de 05/08/2014 – texto revisado e ampliado.

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