Crítica ao artigo “Redução de consumo traz alívio para o setor (elétrico)”, publicado em 21/07/2014, no Jornal O Globo

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    Como o tema vem a reboque do artigo anterior que escrevemos, poderemos ser curtos. O artigo publicado ontem no Jornal O Globo, na página 15, intitulado “Redução de consumo traz alívio para o setor” traz uma informação que está correta no título e um conceito mentiroso, a nosso ver: o racionamento branco e  a inexistência de racionamento por conta da venda de energia das indústrias ao mercado de energia elétrica à vista.

    Veja, é verdade que, naturalmente, se as indústrias deixam de consumir energia elétrica, há economia desta parcela de energia não consumida. Isso é óbvio e tautológico. Entretanto, a sofisticação do nosso mercado de energia é que proporcionou esse tipo de saída para a indústria, ou seja, existir estrutura para oferta de energia não consumida no mercado à vista.

    Então, o artigo está correto em dizer que a “opção de grandes empresas por vender energia – em vez de usá-la na sua produção – tem como contrapartida um alívio no setor elétrico”. Também está correto o artigo ao informar que, como disse pedrosa, presidente executivo da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Livres (ABRACE) “Ao fazer isso (vender energia no mercado à vista), a indústria acaba colaborando para não deixar o preço subir e não faltar energia”, e ainda que “A situação da indústria brasileira é de muita dificuldade ((pouca demanda) e essa saída (de vender energia) acaba funcionando como efeito colateral positivo”. Mas nada disso autoriza dizer que trata-se de “racionamento branco” ou que, segundo Raimundo Batista, diretor da comercializadora Enecel Energia, “Não fosse essa redução espontânea de consumo de energia pelas indústrias, já teríamos um racionamento mesmo”.

    Racionamento não é espontâneo. E deriva de falta de energia. O caso é de opção voluntária de grandes empresas por vender energia não consumida porque não há demanda pra produtos que ela produziria, caso usasse essa energia. Isso é totalmente diferente de “racionamento”.  

    E dizer que por conta dessa opção estratégica das indústrias e grandes empresas consumidoras de energia elétrica é que não houve racionamento é a maior mentira e irresponsabilidade para com a real situação do setor, pois com as recentes chuvas, índices de hidrelétricas que estavam em 12% de reserva de águas em barragens, subiram para 34%. Os reservatórios  das hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste,  as piores até então, estavam com 34,91% e as do Nordeste com 34,4%. Caíram um ponto percentual desde 1º de julho, como informa o artigo, mas subiram muito se comparado a março de 2014, ápice do baixo registro desses reservatórios. Na cantareira, em São Paulo, se não me engano, chegou a 9%!!

    Então, com média de 34% nos até então piores reservatórios, mais castigados por falta de chuva, não é possível afirmar que justamente uma economia de grandes empresas da energia que consumiriam e sua disponibilização no mercado à vista de energia é que impediram a ocorrência de racionamento de energia elétrica no País. Isso é um absurdo.

    p.s.: A primeira vez que se falou em sério racionamento de energia elétrica este ano foi quando as hidrelétricas do Sudeste e Sul estavam muito baixas. Neste momento, foi dito por técnicos da Aneel, ONS ou da EPE (empresa de pesquisa elétrica) que o índice médio de 14% dos reservatórios exigiriam medidas concretas de racionamento.  E na mesma época, informaram que o índice de 33% nas hidrelétricas é o mínimo para garantir normalidade de oferta. Então, mais uma vez, a afirmação de um diretor de uma comercializador de energia elétrica não pode dizer que com média de 34% nos reservatórios, com certeza teria tido racionamento se as indústrias não diminuíssem voluntariamente seu consumo. Isso é factóide.

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