Crítica ao artigo “Brasil, Grécia e o Superávit”, de Gustavo Franco

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    Eu fico triste. Eu sei que Gustavo Franco sabe economia. Ele é genial até. Mas, senhores, infelizmente, não veio ao mundo para te informar sobre economia. Pelo menos não ao grande público. Isso é uma pena para a sociedade brasileira. Mas algumas pessoas acreditam que vieram aqui para a missão de americanofiliar o Brasil. E para realizar essa missão, exercendo sua fé, creio até com com convicção fanática mesmo, admitem distorcer ou omitir fatos importantes em seus argumentos. Isso é induzir e não informar.

    E mais uma vez Gustavo Franco vem comparar o Brasil à Grécia. Errou na primeira vez.. errou de novo. É a evidência que um bom economista técnico nem sempre é bom político em economia ou cientista social, apesar de economia ser do ramo de ciências sociais e econômicas,ou seja, ciências humanas ou mais para ciências humanas do que ciências exatas, a despeito de usar matemática.

    Gustavo comenta em seu artigo publicado dia 26/07/2015, na página 32, do Jornal O Globo, que o Brasil está “cada vez mais parecido com a Grécia no campo das finanças públicas”; que o Tesouro nacional do Brasil pagou 5,6% do PIB em juros em 2014, mais do que a Grécia e Itália, que pagaram 4,2% e 4,5% do PIB, respectivamente”. Vejam esses dois trechos abaixo transcritos:

    “A dívida grega é quase o triplo (na faixa de 175% do PIB), mas é bem mais barata e longa que a brasileira, que está em cerca de 65% do PIB. Como os juros praticados no Brasil se aproximam do triplo do que paga a Grécia, fica explicada a semelhança na conta final.

    Os juros são muito mais altos no Brasil porque os gregos são bem mais ricos que os brasileiros. É simples. Estimativas pra a riqueza (ou o capital) se popularizaram com o trabalho de Thomas Piketty, e permitem supor que a riqueza dos gregos está entre três e quatro vezes o seu PIB, talvez mais, de modo que seria necessário que algo como metade dela estivesse investida em papéis de seu próprio governo, pra que os gregos carregassem uma dívida de 175%.

    O mesmo vale para a Itália, Japão e outros países ricos, para os quais as dívidas grandes, relativamente ao PIB, não se mostram tão pesadas.”

    E diz que no Brasil, com riqueza na faixa do PIB, uma dívida de 65% do PIB equivale a alocação de 2/3 da riqueza em papeis do governo, o que seria mais pesado do que no caso grego.

    Gente, pelo amor de Deus. Vejam isso… Como pode o Gustavo escrever esse exercício estapafúrdio de suposição? Eu fico chateado quando eu posso desconstruir o argumento de alguém que domina o tema mais do que eu. Isso é grave, mas denota que ou o autor do artigo é ingênuo ou tem outros interesses que não o de informar corretamente a sociedade. E Thomas Piketty deve estar triste em ver seu nome associado a tal artigo.. rsrsrs… o talvez mais prodigioso teórico economista de esquerda atual (talvez até Piketty seja neutro diante da clarividência de seus argumentos) sendo citado pelo economista de direita defensor da perspectiva financista no Brasil.. Piketty, desculpa o Gustavo Franco.. ele precisava legitimar os argumentos dele e te usou.. foi desespero.. perdoa.

    Enfim, observem. Primeiro, qualquer país que tiver piora nas finanças públicas estará se aproximando, em maior ou menor grau, da Grécia, “no campo das finanças públicas”… rsrs. Isso não é nada relevante. Agora, dizer que a riqueza na Grécia é maior do que a brasileira,.. eu pergunto.. de quem é essa riqueza? Sim, porque gregos estão saindo de seu país em busca de emprego, pois lá a taxa de desemprego está em 26% ou mais. Então, a Grécia é pobre hoje em dia. Por favor. Mas isso não é tudo… dizer que a riqueza grega leva a dívida grega foi a maior piada que eu ouvi nos últimos tempos.

    Se você fosse grego, um dos poucos gregos ricos, com dinheiro para investir, eu pergunto, você colocaria em títulos da dívida grega?!?!?! AUHAUHAUAHUAHUAHUHAUHUAHUAHUHAUHHUAHUHAUAHAU

    Pô, fica difícil… esses exercícios místicos em economia não, por favor… Gustavo Franco criou um argumento para tentar justificar as altas taxas de juros no Brasil em relação às baixas taxas de juros na Grécia, Itália e Japão. Esse argumento de que a riqueza nacional leva a dívida pública só serve pro Japão. Lá isso ocorre. Mas na Grécia? Senhores, ele não explicou a vocês que quem está com a dívida grega é o FMI e O Banco Central Europeu. A troika, braço político dos banqueiros europeus, que rege a Europa no momento, já limpou praticamente todos os bancos privados que tinham títulos da dívida grega e “estatizou” os risco do calote grego. Se houver calote grego, quem perde é o Banco Europeu e o FMI, em sua grande maioria.

    Então como se explica a diferença de juros em benefício de uma economia falida como a grega em relação ao Brasil? Simples, política. Essa é a resposta que Franco não te deu, mas que você encontra em artigos de Josef Stiglitz e Paul Krugman, economistas estrangeiros que falam a verdade. A França, em condições melhores macroeconômicas do que os EUA, no meio da crise de 2008, teve seu rating baixado mais do que os EUA e países europeus que atacaram sua previdência pública para aumentar economia para pagar pela lambança que banqueiros americanos e europeus fizeram com a negociação dos títulos subprime. Um desses dois economistas citados escreveu um artigo inteiro explicando que tal baixa de rating nõa se justificava por dados econômicos puros, mas por uma questão de interpretação política das agências de rating.

    Há política por trás das agências de rating.. política que não beneficia a sociedade, mas grupos econômicos. Os juros gregos estão mais baixos porque a Grécia faz parte da crise no centro do sistema econômico mundial, que é europeu e americano. É como se seu irmão estivesse precisando de dinheiro. Você empresta a juros mais baixo do que emprestaria a uma pessoa desconhecida, de fora do seu círculo familiar.

    A Grécia não deveria nem mais receber dinheiro. Se o Brasil fosse a Grécia, prestes a dar calote, já teria ficado de fora do mercado internacional há muito tempo. Grécia se beneficia de estar no centro do capitalismo europeu, o que lhe garante atendimento private para suas necessidades. Além disso, como o sistema se fechou em si mesmo na crise, sempre há abundância de valores na faixa trilateral (EUA-Europa-Japão). Essa abundância (aí Piketty poderia ser citado… ele diz que se em 1940 somente 5% da riqueza estava poupada, hoje seria 65% de capital parado nos sistemas bancários mundiais) gera excesso de oferta de capitais no centro do capitalismo, o que, por sua vez, gera baixa de juros exigidos dos integrantes do centro e tomadores de empréstimos. Senão, os próprios EUA não receberiam dinheiro.. rsrsrs, com déficit gêmeos há décadas?!?! Ah se fosse o Brasil.. rsrsrsrsrs.

    Então, fica assim totalmente desconstruído o artigo de Gustavo Franco. Grécia não se compara ao Brasil. Grécia faliu. A diferença de juros entre Grécia e Brasil se justifica por questão política econômica e não por questão técnica econômica. E gregos não investem em títulos gregos, mas sim o FMI e o Banco Central Europeu.

    E no Brasil, é bom acrescentar, uma razão para pagarmos juros estratosféricos é porque não atacamos inflação com depósito compulsório, como a China faz. Nosso depósito compulsório está em 5,5%, quando deveria ou poderia chegar a 22%. Esfriaria a economia e controlaria a inflação, sem aumentar dívida pública, mas o BACEN prefere aumentar juros somente… por acaso isso enriquece bancos, enquanto que o aumento de depósito compulsório diminuiria operações bancárias e lucratividade dos bancos.. mas tenho certeza de que essa questão não é a que influencia a gestão de política monetária empreendida pelo BACEN.. rsrsrsrs.. vejam aí de novo a política econômica se sobrepondo às razões técnicas…

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