Crítica a artigos da Veja e do Globo: Perdão de dívida africana e Roberto Civita e isenção midiática em xeque

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    Lendo a Veja desta semana, por acaso, me deparei com duas informações completamente equivocadas. Ou melhor, uma completamente equivocada e outra que me induziu a um questionamento grave sobre a mídia.

    Nesta revista cuja capa era uma foto de Roberto Civita, grande empresário de mídia, recém-falecido, que administrou o Grupo Abril, fazendo-o avançar sobre o setor de educação, inclusive com aquisição do Colégio PH, este senhor foi tratado como um fantástico empreendedor, até mesmo por implantar essa diversificação. Veremos isso em seguida. Primeiro vamos tratar do outro tema mais chocante de imediato que foi a crítica que a revista fez ao perdão da dívida de países africanos no valor de 986 milhões de dólares pelo Governo Brasileiro.

    A Revista Veja tratou este perdão de dívidas como algo irresponsável de um administrador, já que dívidas devem ser pagas e não perdoadas. E também apontou que na verdade, como os países perdoados são governados por corruptos, houve o enriquecimento dos respectivos governantes na proporção imediata do valor do perdão financeiro.

    É triste a confusão da revista e o nível pobre da abordagem do tema. Lula, antes, havia perdoado outras dívidas na África e em outros países pobres pelo mundo. E o que aconteceu? Aproximou o Brasil de todos esses países, tanto política como economicamente. Neste período nossas transações internacionais cresceram de 100 bilhões de dólares em 2002 para 435 bilhões de dólares em 2012. Isso em período de queda da atividade econômica internacional por causa da crise.

    Além disso, essa aproximação política criou confiança e proximidade entre os países perdoados e o Brasil e entre os demais países pobres e o Brasil. E o que isso gerou ao País? Foi criado o G-20 que substituiu o G-7 em termos de decisões e representação mundial de países pobres perante o mundo desenvolvido. Isso beneficiou o Brasil, os países emergentes e os mais pobres na arena política mundial.

    Mas foi só isso? E a que custo? Bem ao custo de menos de um bilhão de dólares na época do Lula, foi feito tudo isso, facilitou-se a exportação de serviços de engenharia e outros do Brasil para todos esses países e criou-se e fortaleceu-se imagem do Brasil perante o mundo de honestidade, de amizade, em contraposição à imagem de exploração e interesse meramente financeiro e econômico que os países desenvolvidos gozam perante tais países.

    Sim, Mário César, você me diria, mas além de posarmos de bonzinho, que adiantou esses perdões de dívidas além de perdermos centenas de bilhões de dólares? Bem, amigos, além de tudo o que já disse, para aqueles que não conseguem ter grandes visões a médio prazo e a longo, fica o resultado mais explícito da recente eleição de um brasileiro para o maior cargo de direção da Organização Mundial do Comércio, mesmo contra a vontade dos EUA e Europa!!! Isso só foi possível com o voto dos africanos, asiáticos e países pobres. E esses votos só vieram porque em dez anos tivemos relacionamento mais transparente e atitudes de aproximação com eles como a de perdoar dívidas, agindo diferente dos europeus e americanos.

    Então eu só posso ver como medíocre o artigo que critica os perdões de valores irrisórios para o tamanho de nossa economia e que quadruplicaram nossas transações internacionais, exportaram serviços brasileiros a esses países e ainda possibilitaram a eleição de um brasileiro para a OMC que talvez agora passe a enfrentar melhor a questão dos embates e painéis contra subsídios americanos e europeus que nos roubam bilhões e bilhões de dólares anuais, assim como a todos os países que compram produtos made in EUA e Europa que têm subsídio de trilhões de dólares por ano e geram preços artificiais de venda, prejudicando nossas indústrias. É ridículo.

    E o fato de que talvez estes valores acabem no bolso dos governantes corruptos? Pergunto: o que o Brasil tem a ver com isso? Que abordagem mais leiga… O que nosso país pode fazer é perdoar, a bem do outro País que é muito mais pobre que o nosso, a dívida e esperar que esses valores ao invés de virem para nosso cofres sejam aplicados em atendimentos médicos, educação e assistência social e combate à fome naqueles países. Se ocorrerá internamente o desvio desses valores para o bolso de quem quer que seja, como nós podemos impedir? Nossa responsabilidade só existe no curso do valor até chegar ao país perdoado. Lá dentro quem decide são eles, é o povo, que, aliás, pode inclusive matar seu governante como aconteceu em alguns casos na Primavera Árabe.

    Então, mais uma vez o argumento contra o perdão apresentado por esta revista que já foi boa, um dia, é pobre, ridículo e beira mesmo a mera oposição política, pois não tem sentido algum ou consonância com os reais interesses do País e da política externa do nosso País.

    E sobre Roberto Civita? Senhores, eu admiro empresários. Eles são pessoas diferentes na sociedade e muito importantes para todos nós e para a economia. O que seria de nós sem os Morais e a Votorantim, sem os Setúbal, sem os Marinho, sem Eike Batista, sem Lehman, sem toda a imensa gama de executivos e empreendedores que coroam a nossa economia, juntamente com todas as empresas públicas que construíram a infraestrutura logística e de transporte e financeira e integral, na verdade, brasileira?

    Não sei quem disse que há várias espécies de cidadãos em sociedade: os civis, os militares, os intelectuais, os religiosos, os políticos. Dentro dos civis, senhores devo citar que trabalhadores são diferentes também dos empresários. Ninguém é melhor do que ninguém, mas sem visionários e criadores de empresas a economia fica completamente prejudicada. Nesse sentido, então eu admiro Roberto Civita e junto-me à Veja e ao Globo na homenagem.

    Mas o ramo de Roberto Civita era a comunicação. Isso é um ramo especial da economia que se confunde com um pilar da democracia. E isso, assim como servidores públicos têm limites em participar do comércio, gera limitações à atividade empreendedora da empresa de comunicação.

    Por isso, acho um absurdo festejar-se a diversificação de investimentos procedida por ele em relação ao Grupo Abril, que, segundo artigo publicado na página 18B, do Jornal O Globo de 27.05.2013, informa que a criação da Abril Educação reúne as editoras Ática, Scipione, “líderes no mercado de ensino brasileiro; os sistemas de ensino Anglo, Ser, Maxi, pH e Geo; o Anglo vestibulares e o Curso e Colégio pH, o grupo ETB (Escolas Técnicas do Brasil), de São Paulo; Escola Satélite, a Livemocha, comunidade on line de ensino de inglês, a Red Balloon, rede de escolas de inglês para crianças e adolescentes; a Edumobi; o Ei Você e a Alfacon, preparatório para concursos.” E não só isso, o Grupo Abril investiu em TV segmentada, tendo canais de televisão, como a MTV.

    Agora pergunto: que isenção pode ter um grupo de Mídia que investe em empresas de um setor em relação a informações divulgadas sobre outras empresas concorrentes deste setor em que atua comercialmente? Há um ano a Revista Veja atacou o Colégio de São Bento e o Colégio Santo Agostinho sobre “brigas” de alunos que ela abordou como “bullying”, que teriam ocorrido na modalidade conhecida por versões cinematográficas americanas e que nada têm a ver com nossa realidade no Brasil.

    Eu que sou ex-aluno do São Bento, sei que o menino de 6 anos que se machucou brincando com meninos de 14 anos, pediu para brincar com os mais velhos e houve um acidente. O menino não ficou cheio de hematomas, o menino não ficou paraplégico, mas o caso foi explorado, mesmo tendo ocorrido mero arranhão e um galo, comum em qualquer caso de jogo de futebol, por exemplo.

    Agora, posso pensar que a matéria queria espantar a clientela (como se fosse possível) do São Bento e do Santo Agostinho para atrair para o Colégio pH, concorrente na mesma faixa econômica e social dos dois primeiros colégios de elite.

    É por isso que a mistura do empreendedorismo entre a área de mídia e outras é esquisito e pode gerar corrupção da atividade de mídia que é sagrada e de informar o mais imparcial possível a sociedade. Então, critico neste particular as palmas da Veja e do Globo para essa “diversificação” dos investimentos de empresas de mídia e fico preocupado com o enaltecimento disto que pode vir a ser o fim da isenção de mídia na sociedade, que pode vir a investir em outras áreas e, por trás de artigos informativos e pretensamente isentos à sociedade, passar a conduzir seus negócios e interesses empresariais contra a boa concorrência, contra os concorrentes, e contra os interesses da sociedade e do País.

    Observe outros problemas da “diversificação de investimentos” do Grupo Abril. Se ele iniveste em Escolas Técnicas, será que será isento ao publicar sobre investimento público em Escolas Técnicas que fazem e farão concorrência com suas próprias Escolas Técnicas Privadas? Será que avaliará e publicará em suas mídias impressas com isenção sobre aumento de salários de professores, na área pública ou privada? E sobre contratação de professores públicos para as Escolas Técnicas Públicas?! Isso não prejudica seu interesse na gestão da Escola Técnica Privada? Sim.

    Portanto, cada “diversificação de investimentos” de um grupo de mídia em outros setores econômicos exclui a isenção necessária para que o grupo de mídia exerça seu mister de informar a população sobre o setor em que resolveu investir. E nesta proporção o grupo de mídia se tornou menos útil e menos isento para informar a sociedade.

    É sabido que grupos de mídia no estrangeiro também investem em setor de educação. Não vejo problema se o grupo de mídia investisse em editoras de livros não didáticos. Mas quando investe em livros didáticos é muito complicado pois com seu poder em sociedade obtém licitações públicas para vender esses livros ao Estado, como parece que ocorre com apostilas do pH. E se vende para um governo, qual a isenção em criticar tal governo?!?!

    Saibam que o FMI, que já patrocinou a privatização e venda de empresas estatais por todo o mundo, garantindo para o capital internacional a participção em empresas estatais criadas pelos países em todos as áreas econômicas (bancos, elétricas, petrolíferas, águas e esgoto, etc..), atualmente está incentivando o avanço da área privada sobre o setor de educação e saúde estatal. Por isso a profusão de Ongs e Organizações Sociais nessas áreas, muitas das quais criadas por grandes empresas privadas e, pasmem, segundo soube, aqui no Brasil, isto também está ocorrendo e com participação de empresas de mídia em criação de Ongs ou Oss/Oscips para prestar serviço público de educação e saúde remunerado pelo Estado.

    É muito grave isto. E ninguém falará e nem publicará, pois as próprias empresas de mídia estão entrando nessas outras áreas empresariais com interesses empresariais e privados e inclusive com interesse em expandir negócios avançando sobre a estrutura pública de ensino e educação.

    Se isso não for denunciado, investigado e publicado, onde acabará a isenção das publicações da grande mídia para criticar governos, políticas de educação, políticas de saúde pública, avanços de organizações sociais e ongs sobre serviços públicos de educação e saúde etc, etc, etc? No lixo, senhores. Será aos poucos extinta a isenção da mídia que “diversifica investimentos”, ao meu ver.

    “Diversificando investimentos” as empresas de mídia garantem mais receitas para suas atividades, mas vão pouco a pouco perdendo isenção e utilidade para informar a população. Triste.

    p.s.: revisto e ampliado. 

    p.s. de 18/06/2013 – texto revisto e ampliado.

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