A luta norte-americana contra o etanol brasileiro

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    Pessoal, li hoje uma entrevista com o Embaixador americano Thomas Shanon, sobre a relação Brasil x EUA após a eleição de Dilma, em artigo intitulado ” ‘Pragmatismo de Dilma é essencial para EUA’, diz Thomas Shannon” e subtítulo “Em entrevista ao iG, embaixador americano diz que atritos com Brasil ficaram para trás e vê com otimismo relação com novo governo”, de autoria da jornalista Leda Balbino, como publicado pela iG São Paulo, em 07/01/2011, às 11:32.

    Para quem imaginava que os desafios à política americana (passos próprios brasileiros em novos mercados comerciais, desenvolvimento de relações independentes Sul-Sul, participação essencial na criação de órgão sub-continental de defesa militar UNASUL, obtenção de acordo nuclear do Irã em conjunto com a Turquia, ganho em contenciosos comerciais internacionais, fechamento de acordos militares e aproximação militar com franceses, além da participação pretérito de nossa atual Presidente em movimentos de guerrilha e inclusive contra Embaixador americano e etc.) prejudicariam a relação entre nós e os EUA, vai encontrar uma grande surpresa na repercussão e estado atual de ânimo do Embaixador Americano em relação à disposição americana em se aproximar do Brasil.

    Somente a título de comentário, os EUA respeitam qualquer um que tenha autonomia política aliada à força econômica e/ou militar. Como o Brasil está crescendo e se afirmando nos três quesitos, eles não iam criar problemas com a Dilma, mesmo.

    Outra coisa, acho importantíssima a questão do etanol. Esse o tema que mais me chamou atenção na entrevista. O embaixador tenta diminuir a importância do etanol brasileiro, colocá-lo em mesmo nível de importâncio do etanol americano de milho e dizer que são uma geração de bio-combustível de vida curta, fadada à substituição em pouco tempo. Aqui é importante atenção.

    Veja a pergunta do iG e a resposta do Embaixador:

    “iG: O pacote fiscal aprovado em dezembro pelo Congresso dos EUA prevê a prorrogação da tarifa de importação e do subsídio ao etanol de milho no país. Segundo organizações que defendem o fim dos subsídios, a prorrogação abre a possibilidade de uma batalha do Brasil na Organização Mundial do Comércio. Como o sr. vê isso?
    Shannon: O futuro do biocombustível depende da capacidade dos EUA e Brasil de encontrar matérias-primas mais diversas que a cana de açúcar e o milho. Para que os biocombustíveis se tornem uma commodity que possa competir com os hidrocarbonetos, precisam de uma fonte biológica superior aos dois. O Brasil e os EUA não podem depender de uma fonte de energia que venha só de um produto agrícola. Essa maneira de ver a questão como uma briga pelo acesso ao mercado do etanol de cana ou milho é como, ao princípio do século 20, discutir se um cavalo deveria ser estimulado a andar mais com o chicote ou por outro meio enquanto o carro chegava à economia. Essa disputa é uma controvérsia que causa retrocesso e não se volta para futuro. Mas estamos trabalhando nisso com o acordo sobre biocombustíveis e o trabalho internacional para tentar construir regras para fazer uma commodity confiável de biocombustíveis”

    Os EUA não querem ver nosso etanol se transformar em commodity. O álcool de cana é mais eficiente e não concorre por matéria-prima alimentar como o milho. Se o álcool de cana se transforma em commodity mundial, o que pode ocorrer com a fusão da Shell e a Cosan no Brasil, abrindo o mercado europeu para o álcool brasileiro, o Brasil se transformará na Arábia Saudita do etanol mundial.

    Os EUA não admitem que outro país, ainda mais emergente, tenha facilitado esse degrau de ascenção econômica e, subsequentemente, política no cenário mundial. Por isso, ao invés de adotar o etanol brasileiro e melhorar a poluição de seu país, além de tornar mais barato o combustível à sua população, insiste no milho e outros tipos de combustível (a partir de celulose). Não é pelo bem mundial e nós precisamos ver isso. Ele não quer perder esse novo mercado de bio-combustíveis em que o Brasil está na frente. Por isso sugere na entrevista a substituição do etanol de milho e de cana, como se fossem iguais e comparáveis em qualquer dimensão (não é nem pelo quesito eficiência, nem pelo logístico, nem pelo custo ou pelo impacto em produção alimentar). Substituição que apregoa para outro de “terceira geração” que, evidentemente, deva ser inventado e patenteado pelo EUA ou ao menos em parceira com ele.

    Bando de enganadores, falsos e interesseiros, como sempre. É importante frisar que quando acuso assim, não me refiro à população americana, mas aos políticos e comerciantes americanos. Se vendem como amigos mas quem acompanha percebe facilmente o tom leviano.

    A população só tem culpa na medida em que não participa mais ativamente da política norte-americana, mas eles também são vítimas desses comerciantes e políticos de seu próprio país. No momento, por exemplo, estão pagando mais caro por álcool combustível que poderiam estar comprando muito mais barato do Brasil.

    Mas aprendi a ver com mais condescendência o abatido (e que não aparece em filmes ou reportagens) povo americano que sofre com seu sistema político-legislativo-trabalhista-securitário-econômico.

    Sugiro duas abordagens do povo americano: (1) para entender os problemas reais de americanos normais vejam os filmes “SOS Saúde – Sicko”, “Tiros em Columbine” e “11 de setembro”, todos de Michael Moore e vejam “Rede Social”, sobre o Facebook. Podem ler o “Mal Estar na civilização”, de Freud, também, e constatarem menção específica do mesmo aos americanos no final do capítulo V. Eles realmente precisam de ajuda para ver como estão mal e poderem reagir pelo voto. A eleição de Obama foi um bom passo para eles. Mas deixo claro que bom passo interno nunca ou quase nunca é bom passo externo, sob a ótica de quem não é americano.

    (2) Para entender os políticos e a política norte-americana, vendo como são desprezíveis e interesseiros, em regra, sugiro a leitura de “Relação Perigosa Brasil x EUA – De Collor a Lula”, “Presença dos Estados Unidos no Brasil”, ambos de Moniz Bandeira e “A Trilateral”, escrito por três cientistas sociais americanos e um brasileiro, de edição única (1979) e há muito esgotada. Também provo sua postura autoritária e egoísta por não ter os EUA assinado o Tratado de Kioto, o Tratado do Tribunal Penal Internacional e ter sido o único País a não apoiar, como Brasil, França e Alemanha, a quebra de patente de medicamento contra a Aids para ajudar a África e os doentes no mundo. Brasil, França e Alemanha admitiram diminuir a riqueza de suas fábricas farmacêuticas, mas os EUA não podem?

    Não comprem a idéia de que nosso etanol está defasado, gente. Isso é o que querem que você pense. Nosso etanol já tem logística para ser admitido no mundo, mesmo que aos poucos. É o único biocumbustível, fora o bio-diesel, nessas condições, além de ter o menor índice atual de impacto em produção alimentar, ser o mais eficiente e poder diminuir a pobreza dos países africanos, caso passe a ser produzido por lá. É um orgulho brasileiro e pode nos enriquecer muito mesmo (e aos países que o adotarem).

    As novidades vindas dos EUA podem ser assimiladas imediatamente por nós, dando-nos benefícios de qualidade de vida e enriquecendo empresas e americanos bem como a cadeia importadora nacional brasileira, mas os EUA não deixa isso acontecer no sentido oposto.

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