A grande mentira atual: inflação descontrolada. Medidas concretas no juros para efeitos virtuais: novidade em política monetária pelo BACEN.

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    Fico impressionado. E pior, vejo um alinhamento de produção informativa do Jornal do Commercio quanto à propalação de “inflação”, “descontrole da inflação”, “descontrole de custeio” e até quase um apoio ao aumento de juros Selic, quando a verdade é que a inflação prospectiva já estava em queda desde janeiro de 2013, continua em queda e continuará, não sendo necessários aumentos de juros Selic. Impressionante.

    É sabido que a divulgação da desordem vende mais jornal do que a divulgação da realidade. É justamente isso que garante a receita de muitos tablóides pelo mundo ocidental. O bizarro, o sensacional e o que causa espanto e medo induz à compra, aguça a curiosidade e torna o leitor ávido por acompanhar o caos que promete ser ordenado pela sucessão de notícias do jornal. Mas e o comprometimento com a verdadeira informação??!?!

    Essa política para tablóides é compreensível. Devem sobreviver a qualquer custo. Mas visto em jornais de renome é duro e é triste. É triste porque quem acompanha a realidade dos fatos vê a manipulação da verdade e a desinformação em massa que é causada por isso. Mas o mais duro é ver o interesse público ser torcido pelo interesse privado, seja ele mero embate contra o governo, seja ele um alinhamento com a oposição no sentido de criar uma realidade disforme que ajuda a criar ambiente político para o avanço da oposição.

    Há erros no governo. Pouquíssimos em política econômica, se tanto. A política de combustíveis é um dos erros e o Blog Perspectiva Crítica já enunciou várias faltas em artigo específico, mas não se pode mentir para a sociedade através de notícias publicadas em jornal.

    O mercado quer aumento de juros. Sim. Para controlar a inflação? Não. Quem já acompanhou economia pelos jornais sabe da encruzilhada retórica que se chegou até meados de julho de 2011 quando o Bacen rompeu a lógica de “sempre mais juros” (o mercado defendia aumento de juros para conter choque inflacionário de origem na demanda ou na oferta, o que não resolvia causa de inflação de oferta e causava mais pedido de aumento de juros e espiral sem fim). O mercado quer sempre mais juros. O nosso mercado é dominado quase que exclusivamente por instituições financeiras. Em mercados mais desenvolvidos e com grande influência econômica e de investimentos econômicos do mercado bursátil (Bolsa de Valores), a influência de bancos é diminuída e há um equilíbrio maior da influência da perspectiva de bancos (que querem sempre mais juros) e da área produtiva (que quer normalmente menos juros).

    Em todo lugar, quando se fala mercado, está se referindo a um grupo abstrato que é composto por investidores. E investidores são conduzidos e intermediados por bancos comerciais, bancos de investimentos, fundos de previdência e todo tipo de investidores que precisam de remuneração fixa e mais estável de juros públicos. Mas no Brasil, além de uma hipertrofia da influência da perspectiva dos bancos sobre o entendimento da economia, há uma simbiose entre bancos e a grande mídia muito forte e há total simbiose na propalação dessa perspectiva em sociedade. É diferente do que ocorre no estrangeiro, do debate econômico no exterior que me parece mais equilibrado e focado na normalidade econômica como um todo.

    As notícias divulgadas nos artigos do Jornal do Commercio na folha A2 do jornal de sexta -feira, dia 19 de julho aliada à charge de Chico Caruso na manchete de hoje, 22/07, do Jornal O Globo, em que um dragão gigante vê Dilma mandando ele baixar enquanto o Dragão (e o leitor pensa) o que Caruso escreve logo abaixo ” – É sério isso?” dá a continuidade a uma grande mentira atual de que a inflação está gigante e descontrolada e de que a Presidente quer fingir controlar a inflação ou quer controlá-la por medidas inexpressivas.

    Para todo o lado que se olha a inflação (entendida aqui como índice de medição da inflação, em especial o IPCA) está caindo!!! Ao lado do artigo intitulado “Ata indica novas altas da Selic”, do jornal do Commercio de 19/07/2013, está, na mesma página (e isso é o mínimo que se espera do Jornal do Commercio), o artigo intitulado “INFLAÇÃO – IGP-M: prévia aponta queda de preços”!!!!

    Senhores, vejam a incongruência – e na verdade aqui o Jornal do Commercio aponta essa incongruência – entre as informações: o BACEN explicando a alta de juros e dando mostra de tendência de adoção de mais alta de juros com base no pretenso impacto do câmbio nos preços (o dólar aumentou muito recentemente por causa de informações precipitadas e desencontradas do FED) e a necessidade de adotar medidas mais duras no juros para arrefecer esse impacto iminente inflacionário. Mas o artigo sobre IGP-M aponta queda do índice inflacionário que é mais impactado por aumento do dólar!!!!

    Vejam o trecho do Jornal do Commercio em relação ao artigo que explica as medidas de altas da Selic que se adotam e serão adotadas por causa de inflação futura (novidade em política monetária):

    “No documento, o BC fez uma avaliação mais dura sobre o impacto do câmbio nos preços, ao afirmar que efeitos secundários da desvalorização do real, “que tenderiam a se materializar em prazos mais longos, podem e devem ser limitados pela adequada condução da política monetária”. O Copom também considera que a depreciação e a volatilidade do câmbio “ensejam uma natural e esperada correção de preços.”

    Vejam, o Bacen está dizendo que adota medidas de aumento de juros para se antecipar à inflação futura!!! É assim que deve ser? Não. Nunca foi. Se dissesse que o aumento do dólar causou aumento da inflação. Ok. Se dissesse que a pressão fiscal exige adoção de medidas para conter inflação. Ok.  Mas mesmo assim, nada disso deveria gerar aumento de juros Selic se os índices de inflação apontam queda de inflação no curto prazo!! Por quê? Porque economia não é matemática e o mercado é altamente complexo podendo fatos entendidos como de risco inflacionário terminarem não impactando no índice por conta de outros fatores não são ponderados (ou tão considerados) mas que surtem efeito na inflação.

    Não pode haver aumento de juros ao mesmo tempo em que há informação divulgada de inflação prospectiva mensal em baixa e inflação anual dentro da meta!!! Isso é total non sense!! Mas a grande mídia e o mercado aplaudem.. claro!! Os lucros bancários irão às alturas!! À custa de crescimento econômico, de aumento de dívida pública e à custa de criar risco a empregos desnecessariamente.

    Alguns poderiam dizer que a inflação baixa porque o BACEN tomou as medidas de aumento de juros. Mas não foi isso que aconteceu. Daí a estupefação do BLOG PERSPECTIVA CRÍTICA. O IPCA cai desde janeiro de 2013, quando estava a 0,86% (no site do IBGE vi 0,92%) e caiu  todos os meses, com repique em abril/2013 para 0,55%. Em 29/05 o Bacen aumentou juros dizendo que havia inflação, mas maio fechou em 0,37%!!! Somente dois dias após o aumento de juros do Bacen!! E em junho a inflação medida pelo IPCA foi a 0,26% e a previsão é de juros em julho a 0,10%!! E o Bacen aumentou juros de novo! Erro absurdo!

    O único índice que crescia era o do IPCA acumulado nos últimos 12 meses. Mas pergunto: aumento de juros muda a inflação passada?! Não. É por isso que o Bacen erra e continua errando prejudicando o crescimento econômico desnecessariamente e fazendo a alegria dos bancos!!! Ah, e das agências de rating.. Que crime.

    Essa, senhores é a primeira vez que vejo o BACEN conduzir política de juros realmente com base na inflação passada (que nunca influenciará), e justificando medidas presentes com base em expectativa futura sobre impactos inflacionários!!!!! Veja, as medidas de aumento de juros são tomadas para evitar impactos inflacionários no futuro. Certo. Mas não se pode, diante de baixa de índices inflacionários (tanto IPCA como IGP-M) adotar medidas de aumento de juros Selic porque “talvez haja inflação no futuro”. Isso porque sempre muitas coisas têm o condão de trazer risco de impacto sobre a inflação no futuro e se somente se adotar aumento de juros para cada uma delas, independente de se ocorreu ou não a concretização do aumento de preços no presente, ou seja, no mundo dos fatos e da vida da sociedade, nunca se baixaria juros!!!

    Então, aumentar juros Selic hoje porque efeitos secundários da desvalorização do real (inflação) “tenderiam a se materializar em prazos mais longos” ou porque depreciação e a volatilidade no câmbio “ensejam uma natural e esperada correção de preços” é errado, pois está se aumentando o juros hoje com base em impacto inflacionário não materializado e pior, na atualidade, com índices inflacionários apontando baixa da inflação! Criminoso.

    O dólar aumentou? Aumentou; o que aliás ocorreu no mundo todo e não foi problema exclusivo do Brasil, mas uma reação mundial à informações desencontradas do FED americano sobre se pararia de injetar milhões de dólares em sua economia. Mas se isso tem impacto inflacionário, a enxurrada de alimentos por causa de safra recorde no Brasil tem impacto deflacionário. O endividamento das famílias também é deflacionário. E a queda de compras de carros é uma evidência da perda de poder aquisitivo, assim como a queda de contratos de empréstimos para compra de casas próprias da CEF. Também é deflacionário o quadro de impactos vindo do exterior tanto por baixo giro econômico nos EUA e China (esta com queda de 17% no nível de compra de imóveis) quanto é recessivo o quadro europeu. Isso tudo é deflacionário e talvez seja por isso que os índices do IPCA e IGP-M baixem mesmo com a volatilidade do dólar.

    Essa política de medidas concretas para efeitos virtuais, futuros e incertos é criminosa na nossa perspectiva. E essa massificação da informação de que a inflação está descontrolada pela grande mídia é igualmente criminosa e desinformativa. Mas a mentira não se sustenta com o passar do tempo. A partir de julho o índice acumulado do IPCA irá baixar e a última janela retórica para o mercado obter aumento de juros se fechará. É claro que a mídia dirá que foram “os aumentos recentes da Selic do responsável Bacen” que fizeram isso. Mas sabemos que não.

    A sociedade, impulsionada pela mídia, continuará seu circo de fatos, mas nós daqui saberemos a verdade e estaremos assistindo ao grande circo da mídia e do Bacen que abdicam de ser agentes honestos sociais para participarem da lógica de mercado, prejudicando o crescimento de nossa economia e gerando altos lucros para bancos de forma desonesta e totalmente desnecessária.

    É como Peter Berger diz em seu livro “Perspectivas Sociológicas”: “Na verdade, pode-se argumentar que o cientista social que não percebe essa dimensão cômica da realidade social há de perder algumas de suas características essenciais”.

    Sigam, grande mídia e BC, com a palhaçada. Não posso impedir que vocês prejudiquem a economia desnecessariamente. Posso simplesmente desvendar a mentira que criam, vacinar a sociedade com a verdade contra vocês para que a platéia que assiste a este circo seja maior e mais consciente. Façam, BC e Grande Mídia, seus papéis de enriquecer banqueiros desnecessariamente.

    Ficaremos aqui, vendo e denunciando, assistindo a esta peça que seria cômica, se não fosse trágica.

    Em relação ao Jornal do Commercio, o que me chateou foi em especial o artigo intitulado “Máquina Pública – Despesas com Custeio passam de R$1 trilhão”, na mesma edição de 19/07, página A2. O conteúdo está genérico ensejando uma crítica genérica ao governo por conta de “máquina custosa”. Apesar de menos desinformativa do que artigos semelhantes do Globo há tempos atrás, a reprimenda genérica é ruim a meu ver pois não informa adequadamente.

    O Globo está sendo cada vez mais específico quanto suas críticas e está passando a gerar debate de nível em relação a esse tema, inclusive descobrindo que dos 200 bilhões de reais de custo da folha de pagamento do governo, 59 bilhões eram gastos somente com os 39 ministérios em Brasília!!! Ponto pro Globo que achou uma causa específica do termo “inchaço público”. Ponto para o Globo neste quesito. Como pode haver gastos só em Brasília equivalente a 25% de todo o gasto com funcionários que atuam em todo o País?!?! Está aí o ralo, no que se refere a custo com pessoal. Ainda mais que 80% desses cargos são comissionados de nomeação livre!

    Agora, o Jornal do Commercio, creio, partiu para esse tema dessa forma para talvez direcionar a tesoura nos “gastos” e aliviar a pressão sobre aumento de juros. Compreensível. O importante é que publicou tudo na mesma página para facilitar a compreensão de crítica a aumento de juros sob argumento de impacto inflacionário de aumento de dólar com perspectiva de queda de IGP-M.

    Mas mesmo assim, achei que poderia ser mais crítico com o juros e mais específico sobre o “custo da máquina pública”. É importante dizer que um trilhão é o orçamento integral da União, então, gastá-lo é meramente dever do governo. Economia de orçamento significa menos prestação de serviços públicos e menos entrega de bens públicos.

    O importante não é economizar, mas gastar bem. O Estado não é empresa que deve apresentar lucro a acionista no fim do ano. O Estado deve aplicar o dinheiro público em bens públicos e serviços públicos a serem entregues de forma sustentável (com administração da dívida e respeito a limites fiscais) à população.

    Então, informar que a máquina custa um trilhão não é informação de nível. Até porque parece que é tudo com servidor público, quando esse gasto está em meros 31% do PIB( * ver p.s. 2 de 10/01/2014). Nessa conta de um trilhão estão investimentos públicos, gastos com previdência social, gastos com compras de medicamentos, gastos militares e todos os gastos imagináveis, inclusive com emendas parlamentares. Portanto, não é informação alguma que se preze.

    Pedimos para que um dos únicos jornais que informam devidamente os contribuintes, o Jornal do Commercio, mantenha seu curso e não passe a usar métodos desinformativos em suas publicações.

    p.s.: texto revisto e ampliado.

    p.s. de 10/01/2014 – O gasto com funcionalismo não estava 31% do PIB à época do artigo. Estava em 31% o Orçamento da União e menos de 4,3% o valor do PIB. Fica aqui a correção do dado. Para efeito comparativo, a União pode gastar até 40% de seu orçamento com funcionalismo público e FHC antes de 2002 chegou a gastar 5,4% do PIB com custos de manutenção do funcionalismo público federal à época. Esse valor gasto hoje (4,3% do PIB, emprega 1,2 milhão de funcionários públicos federais. No Brasil há 3,3 milhões de funcionários públicos de todas as esferas, ou seja, 10,47% de todos os trabalhadores do Brasil. Nos EUA os servidores públicos são 14,5% de todos os trabalhadores e na Dinamarca eles são 39% de todos os trabalhadores da Dinamarca. França tem três vezes mais servidores por habitante do que o Brasil, a Inglaterra tem mais 10% de servidores por hanbitante do que o Brasiol e a Alemanha praticamente duas vezes mais. Nosso quadro de funcionários é incompatível com nossa economia e insuficiente para atender as demandas de toda a população, segudno pesquisas do Blog Perspectiva Crítica.

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